08 dez 2011 | Notícias,Reviews
REVIEW – João Carreiro & Capataz – Lado A Lado B

Há tempos não se via tamanha comoção em torno de um disco. Em 2011, talvez seja o disco que mais tenha provocado manifestações do público, 99,9% delas positivas, sendo que as negativas (pelo menos as que eu vi) se restringiram a “Meu Luan Santana é bem melhor que esses dinossauros!!!” e comentários similares. É claro que junto com a avalanche de comentários positivos por parte dos reais amantes da tradicional música sertaneja, vêm um monte de “Marias-vão-com-as-outras” que só elogiam o disco para não ficarem mal frente aos outros.

O que explica tamanha comoção? Creio que a resposta para essa questão seja extremamente simples. A música sertaneja tradicional, de conteúdo, às vezes conservadora, perdeu um assustador espaço para a música sertaneja de modinha, muitas vezes “descartável”, voltada à balada, à “putaria”, à cachaça e afins, adaptações de funk ou de hits nordestinos, além da mais recente modalidade, a tentativa de fazer pegar algum apelido dado ao ato sexual, usada em cada vez mais canções. Mas o fato de ela ter perdido espaço não quer dizer que o seu público deixou de existir. Ele continua ali, intacto, esperando novos lançamentos de artistas que ainda ousam levantar a bandeira da tradição na música sertaneja e valorizar os elementos a ela concernentes, como a viola e as letras profundas e de conteúdo. João Carreiro & Capataz são uma das duplas que melhor representa isso. Por isso, este disco era tão aguardado. Mas creio que mesmo eles não esperavam tamanha repercussão e aceitação do disco.

Trata-se de um projeto de um disco duplo que demorou dois anos pra sair. O disco 1, ou o “Lado A”, traz 22 músicas de raiz, sendo 15 inéditas de composição do próprio João Carreiro. Todas as músicas tocadas de forma rústica, como era feito antigamente, com quantidade reduzida de instrumentos. O disco 2, ou o “Lado B”, traz 18 músicas, incluindo todas as que foram lançadas após o DVD da dupla, formando o disco normal de carreira, mas com alguns diferenciais importantes para o entendimento dessa comoção.

Para começar, o álbum é quase 100% autoral. 15 músicas do Lado A e todas as do Lado B são de autoria do João Carreiro. Na maioria das músicas, como único compositor. O cara é um daqueles artistas cuja criatividade e jeito próprio de levar a vida poderiam muito bem ser interpretados como “exóticos”. Ele é praticamente o que canta: bruto, rústico e sistemático. Um dos poucos artistas sertanejos que podem ser apontados como “gênios” do segmento, cujos pensamentos e idéias continuam sendo incógnitas que até os que com ele convivem custam a entender.

Nestes dois discos, o João Carreiro dá um banho de conteúdo, de qualidade nas letras e nas melodias. Sabe quando deve escrever para o show e aplica isso no lado B, mas usa o lado A para poder expressar o lado tradicional cuja bandeira ele sempre fez questão de levantar e defender.

No lado B, claro que alguns dos principais destaques ficam por conta das participações. Além das participações já conhecidas, como a da dupla Gino & Geno na música “Mangueira”, o disco traz ainda uma participação do Juliano César na releitura da música “Melhor do Brasil”, que a dupla já tinha gravado com João Neto & Frederico. Mas os destaques ficam por conta das músicas gravadas com a dupla Matogrosso & Mathias (“Cadê”) e Rionegro & Solimões (“Sete Sentidos”). Duas canções de fazer chorar e que trazem de volta um pouco da magia esquecida do sertanejo romântico. O que é estranho, já que não era essa a característica mais marcante da dupla João Carreiro & Capataz.

Aliás, essa é a grande surpresa do lado B do disco. O lado “romântico” da dupla João Carreiro & Capataz, até então desconhecido, está evidenciado em pelo menos 5 músicas. A própria interpretação do João Carreiro na maioria das músicas, inclusive as do lado A, bem mais melódica e chorada do que de costume, já demonstra esse romantismo. Desatque para a canção “O que essa moça fez aqui”, cujo clipe foi divulgado aqui no Blognejo recentemente, que é uma sacada genial, com uma pegada diferente das românticas tradicionais e uma letra fantástica.

Outra característica marcante da dupla que também ficou evidente nestes dois discos é a ausência de preocupação com a escolha de temas e linguagens previamente determinados por um “padrão invisível pré-estabelecido” na música. No lado A, por exemplo, há uma canção em homenagem ao Lampião, o rei do cangaço, outra feita pelo João Carreiro para homenagear seus vizinhos, e outra que sem dúvida é um tapa na cara da modernidade sertaneja conduzida de forma inconseqüente.

O verso “pode até fazer sucesso, mas se tem brinco de argola e se canta e rebola não toca em minha vitrola” foi repetido e viralizado exaustivamente por quem ouviu o disco desde o dia do lançamento, inclusive por aqueles a quem a música é dirigida. É que parte do público sertanejo é tão inconsciente do que escuta que não percebe ou finge não perceber que o verso é uma crítica ao modo como os próprios ouvintes tratam a música sertaneja e desrespeitam seus valores mais tradicionais. Mas já que está todo mundo elogiando esse verso e dizendo “exatamente o que penso”, eles também o fazem, sem nem refletir direito o que esse verso quer dizer.

No lado B, a mesma coisa: temas até meio subversivos e/ou melodias aplicadas de maneira independente do que o “mercado” manda. A música “Saudade Docê” foi intencionalmente gravada na pegada antiga do rock, como as músicas do Elvis e similares. O rock também foi tema e melodia na música “Roqueirinha”, que intencionalmente não traz nada de sertanejo exceto a letra. A música “É judiação” é uma homenagem ao lambadão cuiabano, original da terra natal da dupla. Por conta disso gravaram parte da música nessa pegada e ainda convidaram o grupo Scort Som, tradicional representante desse estilo, para participar da música. A ausência de preocupação com os temas das músicas provavelmente alcança seu ápice na música “Saci”, uma sátira bem humorada aos usuários de maconha, vejam só.

A última música do lado B, “Sarafa”, é uma homenagem ao pai do Capataz, que faleceu recentemente. O interessante no caso dessa música é que o Capataz não sabia da surpresa e só foi ficar sabendo no dia da gravação da música. Ele gravou inclusive a primeira voz na música, além de um agradecimento ao pai e ao João Carreiro pelo presente.

Mas o motivo dos elogios e do sucesso do disco junto ao público tradicional sertanejo, sem dúvida é o lado A. Há tempos não se via uma dupla ou artista de grande porte fazendo uma homenagem tão incrível à viola e à tradicional música raiz. Só de compor músicas nesse estilo, mesmo sendo um estilo comercialmente esquecido, o João Carreiro já se mostra setecentos passos à frente de muuuitos compositores, que só compõem visando o número de execuções nas rádios e em quanto sucesso a música fará.

As letras das músicas do lado A remetem ao que de melhor a música sertaneja já ofereceu em outros tempos. Alguns dizem inclusive que o João Carreiro nasceu na época errada, coitado. Impressionante um cara com menos de 30 anos compor como se tivesse carregado toda a história da música sertaneja nas costas.

As músicas resgatadas no lado A também são uma preciosidade à parte. Há tempos eu venho querendo escrever a respeito de um dos maiores compositores sertanejos de todos os tempos, o inigualável Moacyr Franco. A música “Pergunte a ela” só reforça essa minha intenção. O saudoso Tião do Carro também foi intensamente homenageado no disco, com nada menos que 4 canções de sua autoria no repertório.

Conforme alguém já observou em comentários postados aqui no Blognejo, é também de saltar aos ouvidos a qualidade da produção. A dupla João Carreiro & Capataz é assumidamente avessa à entrega da produção de seus discos aos grandes medalhões, que fazem a maioria dos discos de sucesso. Ao contrário. Encontraram um estúdio na própria cidade onde moram, o “Play Mix”, com uma estrutura de fazer inveja a muito estúdio grande, e deixaram a produção e os arranjos a cargo principalmente do próprio produtor da banda, o Zé Renato Mioto. Assim o trabalho flui com mais tranqüilidade, com mais identidade e o resultado final fica exatamente como a dupla planejou.

Aliás, a identidade inimitável é o principal diferencial da dupla. Ninguém mistura viola com guitarra como eles. Ninguém faz músicas com temas dos quais ninguém ousaria falar como eles. Ninguém conduz o próprio trabalho de forma praticamente oposta à da maioria e se dá tão bem quanto eles. Não há mais o que se dizer. São os principais representantes de um segmento praticamente esquecido, o sertanejo tradicional, e por isso mesmo foram abraçados pelo público sertanejo, o da essência e não apenas de momento, de uma forma que muito artista que está na estrada investindo milhões atrás de milhões gostaria de ser. Uma frase interessante que li no Twitter, dita por um amigo radialista, o Allysson Kalil, resume muito bem porque João Carreiro & Capataz vão tão bem. “Enquanto a maioria busca apenas a fama, João Carreiro & Capataz constroem uma carreira”. Mais verdade que isso, impossível.

Nota: 10

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.