10 mai 2011 | Notícias,Reviews
REVIEW – Luan Santana – Ao Vivo no Rio

Há um preconceito muito grande contra o Luan Santana. Não estou falando nada dos boatos acerca de sua sexualidade, até porque essa fase do “ah, ele é viado” já passou. Virou piada velha e sem graça nas rodinhas de conversa. O que estou dizendo é que o Luan tem passado, como todo artista que está no topo, pela fase do ódio natural daqueles que não gostam de admitir que mudanças são necessárias. Essas pessoas, algumas num grau quase radical, detestam qualquer música ou palavra que se refira àquele determinado artista que ocupa o primeiro lugar no gosto popular em determinada época. Atravessar essa fase e chegar à seguinte (a da consolidação definitiva e do respeito da classe e do público) é uma tarefa árdua. Exige profissionalismo, competência e, antes de qualquer coisa, talento, apesar do mito sempre difundido de que o dinheiro é que faz tudo.

Luan Santana está no limite entre a fase do preconceito e a fase do respeito. Tudo vai depender do resultado que este trabalho vai alcançar. E de uma coisa não tem como fugir, mesmo que se esperneie e que ameaças de morte sejam feitas: Luan Santana é um artista foda. Não estou falando de interpretação nem nada, mas sim de apresentação. Não há hoje ninguém na música sertaneja com um domínio de palco tão impressionante quanto o dele. Sério, não há dupla ou artista solo que tenha tamanha presença de palco e se sinta tão à vontade em cima dele quanto o Luan Santana.

Ora, se o jovem tem talento, o que é óbvio, resta apenas saber conduzir sua carreira de forma correta. Depois de uma temporada brilhante, com um DVD mais ligado às “origens”, gravado em Campo Grande e tals, chega a hora de traçar os planos de expansão e consolidação. E se ele se tornou o principal artista sertanejo da atualidade, nada melhor que aproveitar isso. Numa clara demonstração de poder, escolheram para a gravação do DVD a cidade brasileira que mais apresenta rejeição à música sertaneja: Rio de Janeiro. Conseguir fazer um mega DVD sertanejo na cidade maravilhosa é o mesmo que fazer os americanos gostarem de futebol.

Adiciona-se à ousadia na escolha do local uma boa dose de bons profissionais. E, não querendo menosprezar o trabalho de tantos bons diretores de vídeo que a música sertaneja tem apresentado, a Joana Mazzuchelli ainda é a diretora de vídeo que carimba o sucesso de um artista de forma definitiva. É estranho como ela realmente ajuda a consolidar a carreira das pessoas com as quais ela trabalha. Os artistas sertanejos que já passaram pelas mãos dela sempre o fizeram quando estavam no auge.

E é óbvio que se trabalha melhor quando são apresentadas boas condições pra isso. O mega palco montado para a apresentação é sensacional. E a destreza do Luan Santana andando pra lá e pra cá o tempo todo só valorizam ainda mais o espaço. O rapaz não pára. É incrível como sua presença contagia o vídeo. É um artista fantástico no palco, como eu já afirmei alguns parágrafos acima. E nenhum dos “projetos de Luan Santana” que existem às pencas ao redor do Brasil conseguiu ainda se aproximar da sua destreza no palco.

Os recursos utilizados para trazer ainda mais surpresa ao vídeo, no entanto, não foram tão bem aproveitados quanto poderiam. Fizeram por exemplo uma enorme propaganda da compra da catapulta utilizada pelo Michael Jackson antes de morrer. Mas na hora de mostrá-la em atividade, a cena foi captada apenas de relance, sem detalhes. Só dá pra ver que o Luan Santana pula de dentro do chão para cima do palco, mas a cena poderia ter sido muito melhor filmada e editada. A cena de encerramento do show, com o Luan desaparecendo atrás de uma cortina de fumaça, também foi feita com certo desleixo. Também dá pra ver que o Luan Santana desaparece num piscar de olhor atrás da fumaça, mas, assim como na cena de abertura, poderiam muito bem ter dado mais destaque e ousadia à cena.

Pequenos erros na direção do vídeo puderam ser percebidos também nas entradas das participações. Tirando a participação da cantora mexicana Belinda, que também subiu pelo elevaor/catapulta do Michael Jackson de uma forma bem romântica e interessante, as outras participações foram introduzidas de forma estranha. A Ivete Sangalo ficou dançando igual uma bailarina de programa dominical enquanto sua parte na música não começava. Não sei se esqueceram de dizer a ela que o DVD era do Luan Santana ou se ela realmente gosta de chamar demais a atenção para si, mas seria mais sensato que ela ficasse atrás do palco e entrasse de forma explosiva quando fosse cantar. Afinal a música que ela cantou com o Luan, “Química do Amor”, é excelente. Com certeza, ainda que a cena provavelmente tenha sido repetida no dia da gravação, daria muito mais impacto.

Zezé di Camargo & Luciano participaram do DVD cantando um Pout Pourrie de modões, com o Zezé entrando tocando sanfona na primeira música do medley. Mas ele demorou a entrar e o Luan teve que improvisar alguma fala pro povo poder entender de onde vinha aquele som de sanfona. Neste caso, talvez fosse mais interessante se a dupla tivesse sido chamada ao palco antes da música e o Zezé já começasse tocando de lá. Também estranhei o Luan não ter escolhido gravar com Zezé & Luciano a música “Muda de Vida”, que ele sempre disse ter sido a primeira música que aprendeu a cantar na vida.

Mas no que diz respeito ao artista principal, o dono do DVD, a direção de vídeo foi impecável. A música “Vou voar”, com o Luan sendo alçado por cabos por cima do público, é, no que diz respeito ao vídeo, uma das mais incríveis já vistas num DVD sertanejo. Em todo o DVD, só deu pra notar certo desconforto do Luan durante a música “A Bússola”, quando ele teve que ficar logo abaixo de um conjunto de cataventos flamejantes. Vai saber se era medo que alguma faísca caísse em sua cabeça, mas deu pra perceber ele dando umas olhadinhas pros tais cataventos e fazendo uma cara não muito feliz.

No áudio, um mix de talentos como o Orlando Baron e o Sorocaba nos arranjos e o Ivan Miyazato na co-produção e captação. Na concepção de arranjos, uma preocupação maior com a utilização de timbres de teclado um pouco mais “infanto-juvenis” aliados a um violão solado de forma mais “suja”, sem aquela preocupação exagerada com escalas, pelo menos nas músicas que evidentemente se direcionavam mais ao público jovem do Luan, como “Química do Amor”, “Palácios e Castelos” e “Desculpas”.

Nas outras canções, a escolha dos arranjos, um pouco menos “infantis” (não num sentido perjorativo, pelo amor de Deus), acompanhou de certa forma a escolha do repertório, que saiu daquele pragmatismo de baladas que predominou no DVD de Campo Grande. Neste disco, observa-se a inclusão de músicas dos mais diversos ritmos, e não somente as tradicionais baladas chiclete como “Meteoro” e “Tá na Cara”. As canções deste disco foram escolhidas aparentemente para valorizar letras um pouco mais complexas e inteligentes. Tanto que as melhores canções do disco são as com as letras assim, como “Amar não é pecado”, “Um Beijo”, “As lembranças vão na mala” e “Conquistando o Impossível”.

Sobre esssa transição da fase do ódio dos que não aceitam as mudanças para o respeito do público e da classe sertaneja, é evidente que o Luan tem seguido quase todas as regras necessárias. Uma delas, no entanto, apesar dos agradecimentos nos créditos do disco e tudo mais, tem sido novamente desrespeitada por ele de forma categórica. Mais uma vez, assim como aconteceu após o lançamento de seu primeiro DVD, Luan Santana têm demonstrado desdém pela ajuda que tem recebido dos mais diversos profissionais envolvidos com seu crescimento profissional. Nos programas de TV dos quais participou para divulgar o novo disco, mais uma vez tem predominado a palavra “Eu” ao invés de palavras como “equipe” ou até os próprios nomes dos envolvidos.

Por que estou dizendo isso? Ora, é uma reclamação concreta, que eu ouvi diretamente de alguns destes profissionais. Não há nada pior que não ter seu trabalho valorizado. O que parece quando o Luan fala sobre seu trabalho é que ele próprio dá o Rec nas câmeras e no computador que vai captar o áudio, corre para trás do palco, acende todas as luzes sozinho, vai para o palco, canta e depois volta e desliga tudo. Existe toda uma gama de opiniões que se juntam paa definir a melhor forma de se trabalhar o áudio, o vídeo, os arranjos e a produção de uma forma geral. Nenhum artista se faz sozinho. Isso já foi um problema há tempos atrás (quando surgiram os boatos de que o Luan e o Sorocaba já não se davam tão bem) e parece que tem se repetido. O Luan chegou até a se esquivar de uma pergunta do Faustão sobre o nome dos compositores de uma das músicas quando ele se apresentou lá na última ocasião.

E por que isso é um problema? Um artista que almeja se consolidar precisa do respeito da classe até para evitar possíveis atitudes “sacanas” de eventuais concorrentes. É necessário respeitar todos aqueles envolvidos com o milionário mercado da música sertaneja caso se queira continuar ocupando um lugar de destaque.

E o preconceito? Como se resolve esse problema? Infelizmente enquanto o público sertanejo der destaque a um artista em específico e os outros tiverem que ficar esperando sua vez, isso vai acontecer. A música sertaneja tem uns 100 anos de história, pelo menos, e sempre, seeeeeeeempre passou por mutações. Não sei como tem gente que não consegue enxergar a importância de um artista como o Luan Santana para o segmento sertanejo. E nunca a música sertaneja interagiu de forma tão intensa com o público jovem. É esse público que vai carregar o legado da música sertaneja, ora bolas. A gente fica velho um dia, afinal de contas. Os jovens vão ficar velhos alguns anos depois, não é verdade? (dãããã) E querendo ou não, artistas como o Luan Santana é que estão sendo responsáveis por inserir na cabeça dos jovens o interesse por uma música que até pouco tempo atrás não os interessava de maneira nenhuma.

Por mais absurdo que esse cenário pareça, o interesse pelo Luan Santana pode representar o início do interesse dos jovens por aqueles de quem ele “descende”. Dia desses uma das fãs do Luan veio me perguntar no Twitter quem é que cantava a versão original da música “Inquilina de Violeiro”, que ele gravou neste DVD com a participação da dupla Zezé di Camargo & Luciano. Ela queria ouvir a versão original. Ora, se isso não é um bom sinal do que o futuro nos reserva, então não sei o que é…

Nota: 9,0

40 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.