25 dez 2013 | Reviews
REVIEW – Maria Cecília & Rodolfo – Com Você

O ano foi meio estranho para a dupla Maria Cecília & Rodolfo. Na verdade, as últimas temporadas tem sido esquisitas para os dois. Desde que romperam com o antigo empresário, as coisas parece que não foram mais as mesmas. Foram mantidos na Audiomix, mas não com a mesma pompa de outrora. Ao contrário, em certos momentos parece que lá dentro são usados apenas para tapar buracos em agenda ou fazer volume nos festivais que o escritório vem realizando. Não parece haver uma dedicação ao trabalho deles como havia em outros tempos. Mesmo assim, a dupla ainda mostra que tem muito a oferecer com um DVD grandioso e de alta qualidade.

Se na esfera administrativa as coisas andam meio incertas, é claro que na esfera pessoal vai tudo muito bem. Maria Cecília & Rodolfo se casaram e o resto da história todo mundo sabe. E esse sucesso na esfera pessoal talvez tenha sido o principal combustível para esse disco, que traz a dupla em sua terra natal em um grande show, com um bom repertório e uma produção visual caprichadíssima.

Tirando o repertório, aliás, este DVD segue o mesmo padrão de qualidade do DVD que a dupla Munhoz & Mariano gravou no mesmo local no ano anterior. Não à tôa, se trata da mesma equipe que produziu aquele DVD, que impressionou na qualidade. Ivan Miyazato na direção geral, Eduardo Pepato na produção e arranjos, Fernando Trevisan, o “Catatau”, na direção de vídeo, Marco Aurélio por conta do repertório, e tudo gravado num mega palco dentro do Parque das Nações Indígenas. Na verdade, essa é a última chance de ver em DVD esse time reunido, já que tanto o Pepato quanto o Catatau passaram a trabalhar de forma independente há algum tempo.

É clara a opção no disco pela valorização das canções mais românticas. Não à tôa, as canções trabalhadas até o momento foram românticas. Primeiro, “Só de Pensar”, com a participação de Jorge & Mateus, e depois “Nunca mais me deixe”. O repertório da dupla sempre seguiu uma linha mais juvenil, mas talvez tivesse sido melhor aproveitar as boas canções agitadas que o disco trouxe.

Se o timing do arrocha já não tivesse passado à época do lançamento deste DVD, por exemplo, a música “Arrocha e vem comigo” seria uma boa sacada. O problema é que o ritmo se esgotou quase na mesma velocidade com que estourou e quando este DVD foi lançado (com certo atraso, devido a problemas com liberações) o arrocha já tinha perdido a força. Mesmo assim, o disco tem boas vaneiras que poderiam ser facilmente trabalhadas, como “Quando eu parar de ligar”, com Humberto & Ronaldo, e “Chip de Memória”. Seria talvez uma forma de manter a dupla um pouco mais próxima de seu público habitual, que é a gurizada.

Além de Jorge & Mateus e Humberto & Ronaldo, também participa do disco a dupla Zezé di Camargo & Luciano, num momento bacana do DVD, com a releitura (que os mais atentos perceberão não ser tão ao vivo quanto se imagina) da música “Imprevisível”, composta pelo Zezé e pela sua filha Wanessa. Jorge & Mateus participam de uma das canções mais interessantes e diferentes do disco, “Só de pensar”. Outros momentos bacanas são o da bela guarânia “Simples demais”, o da música “Maria”, que o Rodolfo fez para a Maria Cecília, e o da ótima música “É só uma fase”.

Outro aspecto interessante desse disco é que ele expõe muito da rixa entre Campo Grande e Goiânia. Toda a equipe de produção é de Campo Grande, mas o escritório da dupla é de Goiânia. E não é de hoje que os profissionais das duas cidades meio que se estranham. Tanto que o disco foi todo feito com a cara de Campo Grande. Não seria de se estranhar, então, que essa pouca preocupação com a dupla seja fruto dessa guerrinha velada entre as duas cidades. Mas isso é só uma hipótese, claro.

Quem viveu a história recente da música sertaneja sabe da importância da dupla Maria Cecília & Rodolfo para o segmento. Antes da Paula Fernandes, a Maria Cecília foi quem de fato deu fôlego para a figura feminina nessa recente fase da música sertaneja. E ela fez isso de uma forma neutra. Bem feminina, claro, mas sem o estereótipo da sensualidade e do apelo visual que a Paula Fernandes teve que adotar, por exemplo. Por isso é tão inquietante pensar nessa pouca preocupação que andam tendo com a carreira da dupla. Este DVD foi trabalhado de forma muito tímida. Demais, até. E olha que não é por falta de qualidade no disco. Levando esse aspecto em conta, este é o melhor disco da dupla. E bem que merecia ter sido trabalhado como tal.

Nota: 9,0

8 comentários
  • Alan: (responder)
    25 de dezembro de 2013 às 13:16

    Dvd legal, merecia ser trabalhado mais. Nas rádios, só ouvi “só de pensar”. Acho que no momento em que se acertaram na carreira, perderam espaço no escritório para outros artistas.

  • rafael: (responder)
    25 de dezembro de 2013 às 13:24

    Essas rixas são o que á de pior na música sertaneja. Vejo gente derrubando show de outros sertanejos, para colocar pagodeiros e funkeiros nas festas. Tem um certo empresário aí, aquele que acertou na loteria quando apostou num cantor teen, que parece não acreditar mais na música sertaneja e tem tentado introduzir artistas de ritmos anômalos à música sertaneja, no nosso mercado. Se realmente existe alguma rivalidade de cidades ou entre estados deveriam acabar imediatamente pois isso é a coisa mais burra que poderia acontecer à música sertaneja. Dizer que a Audiomix está fazendo corpo mole com a dupla, acho algo muito fora da realidade. A grande verdade é que o país está passando por uma crise econômica séria, que nós sertanejos já estamos sentindo no mercado desde o final de 2012, e pelo qual passamos todo o ano de 2013. Nós não somos os únicoso, os cinemas e teatros estão com o mesmo problema de público que a gente, e nem se fala dos outros ritmos. O carnaval de Salvador estava vaziinho esse ano, teve uma cantora que colocou foliões pra dentro das cordas do trio elétrico para não passar com o bloco vazio na frente das emissoras de televisão que continuam a apostar no carnaval de salvador e que nunca deram a mínima para as festas sertanejas, como os rodeios ou as festas juninas. Os únicos artistas que se deram bem na música esse ano, foram Jorge e Mateus, o resto andou muito mal. Apesar desse momento ruim para a MÚSICA em geral, nós sertanejos continuamos dominando o mercado, o que é um certo alívio saber que somos os que continuam levando mais público. Para 2014 as dificuldades devem continuar, e a receita é a mesma que para qualquer empresa: reduzir custos de produção, cancelar investimentos, fazer um plabejamento para o pós-crise e trabalhar, trabalhar, trabalhar… Temos que ir pra estrada com a faca nos dentes porque 2014 a mídia vai injedar samba/axé/pagode por conta da copa do Mundo. Eles vão fazer de tudo para que a mídia internacional e os turistas que vierem ao Brasil confirmem a imagem que a Rede Globo e Embratur exportam do Brasil, ou seja, Brasil país do carnaval/samba/futebol. Temos que ficar espertíssimos com isso. Não vamos dar espaço em nossas festas, nenhum fôlego para eles, vamos pra estrada, vamos baixar o cache, vamos fazer 60 shows por mês, mas não vamos dar espaço pra eles. Eu tenho dado risada da estratégia de certa mídia anti-sertanejos, que incentivou os artistas de onamatopeis, bebedeira e coisas similares e tal, como uma estratégia para introduzir no mercado sertanejo outros ritmos relacionados à esse tipo de repertório, como o funk e o axé, mas que no final das contas o tiro saiu pela culatra. Porque deu errado? Porque eles queriam fazer o mercado sertanejo se render á esse tipo de música abrindo espaço para axé e funk no nosso mercado, mas o que acontecei foi o contrário, acabou abrindo mais espaço para o sertanejo em locais que antes eram de artistas de axé e funk. rsss Se a mídia não tivesse incentivado tanto as música sertanejas de pegação é bem provável que existisse um maior público nas capitais dispostos a consumir funk. O que a mídia conseguiu com isso foi introduzir os sertanejos em um tipo de público que antes só curtia axé, funk, e djs. Não gosto dessa vertente do sertanejo, mas tenho que reconhecer que essa galera avançou sobre um mercado que não era o nosso. Para Marilia Cecília e Rodolfo digo o que digo para todos os sertanejos, vamos para a estrada, vamos baixar os caches e não dar nenhum espaço no nosso mercado para forasteiros. Temos que honrar e defender nosso mercado assim como os antigos sempre fizeram. Temos que revereciar os artistas antigos pois foram eles que construiram essas festas, foram eles que construiram a base desse mercado que hoje é nosso. Imagine os milhares de artistas que passaram pelo Barretão nesses mais de 60 anos de festa. Eles são tão importantes quanto os atuais ocupantes daquele palco. Vamos aproveitar o momento para reverenciar os antigos e horanrar o trabalho deles para fazer do rodeio oque ele é hoje. Cada um colocando um, dois, três… tijolos, mas todos igualmente importantes. Precisamos continuar a edificar nosso mercado, fortalece-lo cada vez mais. A crise no país só deve passar em 2015, mas nem por isso devemos descansar em 2014. O ano que vem é essencial para saber quem é que vai sair com força em 2015 quando o país voltar a crescer significativamente. Temos que honrar e engrandecer nossas festas e nos sacrificarmos por eles. Nada de férias, em tempos de crise, a solução é trabalhar, trabalhar e trabalhar. Vamos trabalhar meu povo, porque sertanejo é a definição de trabalhador. Viva a música sertaneja e viva o povo sertanejo.

    • @ariomester: (responder)
      25 de dezembro de 2013 às 13:49

      Excelente análise. Assino embaixo.
      Sobre MCeR, duas coisas. Primeiro, não sei até que ponto os problemas com os empresários repercutiram na carreira deles, nem qual foi a treta com os antigos sócios – até tenho curiosidade em saber. O fato é que faltou divulgação de um trabalho excelente que foi o DVD “Com Você”. Existem caminhos alternativos a um escritório ou gravadora divulgarem seus trabalhos e para artistas que faturam bem como MCeR isso não seria problema – contratar agências de marketing, publicidade e divulgadores por conta própria e assim divulgar melhor a tour e o DVD. Mas como não sei os termos exatos do contrato deles com os sócios e a Som Livre, não sei se teria como fazerem isso.
      A outra coisa que me impressiona no trabalho deles desde o Ao Vivo em SP é a coerência no formato pretendido. É um artista voltado para um público menos baladeiro, talvez mais jovem, músicas mais leves, um repertório bem mais pop e eles fazem isso muito bem.
      Só de ouvir o áudio a imagem clara de pop romântico meio adolescente já salta aos olhos claramente, naturalmente. Mérito da produção artística e direção musical.
      Hoje em dia o que mais falta no mercado é identidade. Todo mundo que fazer as mesmas desgraças da mesma forma. Apesar do estilo deles ser menos sertanejo que muita gente por ai afora, é um trabalho muito bem feito. Além disso, como poucos hoje em dia eles ainda não meteram a cara na baixaria e apelação gratuita, o que é ótimo, já que nem o pop, nem a música sertaneja não são funk ostentação, nem samba duro bahiano – música de putaria, violência e droga.
      O Pepato está de parabéns porque soube contornar as limitações vocais dos dois com arranjos que casaram bem com o casal, reorganizou algumas melodias e harmonias para não forçar demais o vocal, dar força aos arranjos, criar dinâmicas e ficou ótimo. Eu gostei.
      Lembra o Luan Santana, Jorge e Mateus e João Bosco e Vinícius. No primeiro CD eram dois jovens cantando músicas limitrofes do pop e sertanejo, meio deslocados no que estavam fazendo – meio sem jeito. Agora é uma imagem clara de um artista jovem, com uma orientação de mercado e musical bem definida e que não precisa nem de foto pra gente entender do que se trata. Muito bom!

  • Mauro Ronaldo: (responder)
    25 de dezembro de 2013 às 22:48

    vixxi, belo post Marcão.

  • LUCIANO SILVA: (responder)
    25 de dezembro de 2013 às 23:08

    É o tipo de coisa que não consigo entender na música. O DVD da dupla Maria Cecília e Rodolfo tem bom repertório, as músicas são bem cantadas, a proposta do trabalho atende o público alvo adolescente, a galera baladeira e o público tradicional sertanejo. Logo, fiquei a imaginar:
    Faltaria um grande sucesso no disco para puxar as outras músicas?
    Seria sabotagem empresarial?
    Erro na estratégia de divulgação?
    Crise de identidade da dupla?
    Situação econômica do país?
    Dificuldade das gravadoras em fazer a transição do mercado físico para o virtual?
    “Estaríamos perto do grande crash da economia mundial?”

  • Alexandre Wallisson: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 03:52

    Belo post Marcão, na minha opinião oque está acontecendo com a dupla Maria Cecilia e Rodolfo no escritório AUDIOMIX, é que estão fritando a dupla e outra esse DVD deveria ter tido uma atenção maior porque o repertório desse DVD ficou muito bem distribuido, e daqui um dia se sair a noticia que a dupla saiu do escritorio nao vai ser motivo de espanto pra mim e acho que pra ninguem, e na minha opinião isso nao deveria acontecer, porque quem foi um dos responsáveis pelo crescimento do escritorio AUDIOMIX foi a dupla Maria Cecilia e Rodolfo junto com o Jorge e Mateus, acho que deveria ter uma atenção mais especial com a dupla .

    • Ana Cristina Gomes: (responder)
      27 de dezembro de 2013 às 11:11

      Bem, artigo excelente, e que acertou na mosca: a dupla sendo fritada dentro do próprio escritório, negligenciada escancaradamente pelo empresário que deveria cuidar da carreira dos dois, sabotagem interna mesmo. O bom é que hoje, 20/12, como fã de MC&R, posso respirar aliviada em ler a nota oficial comunicando o fim da parceria. Se não é para acrescentar, que não atrapalhe, então. Espero de coração que, independente de com quem estarão a partir de agora, MC&R sejam devidamente bem tratados e tenham o reconhecimento que merecem, porque qualidade o trabalho dos dois tem de sobra, e isso fica evidenciado no DVD COM VOCÊ.

      • Ana Cristina: (responder)
        27 de dezembro de 2013 às 14:32

        A nota de hoje resume melhor ainda essa situação…

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.