23 fev 2011 | Lançamentos
Se um artista não estoura, de quem é a culpa?

É engraçado como nesse mundo sempre buscamos culpados para todo e qualquer tipo de desgraça. Se uma pessoa morre numa enchente, culpamos o governo pelo descaso com o saneamento básico. Se o Brasil perde a Copa, culpamos o jogador que teve um único momento de deslize durante o jogo decisivo. Na música sertaneja não é diferente. Sempre buscamos culpados para qualquer coisa que eventualmente não tenha dado certo. Principalmente quando um artista que todo mundo considerava a nova sensação do mercado acabou não atendendo as expectativas e não estourou para o sucesso.

Nas discussões recém levantadas sobre os produtores, geralmente acabou-se apontando este ou aquele como o culpado pelo “não-estouro” de um artista ou como verdadeiro responsável pelo sucesso de outro. Mas além dos produtores, é óbvio que podemos apontar os administradores (empresários e afins) ou ainda os prórios artistas como detentores de uma boa parcela de “culpa” em casos como esse.

Que culpa pode ter o cara que apenas tem a função de dar vida a determinada composição? Se o produtor é também o responsável pela escolha do repertório (o que é muito raro), uma culpa considerável. Se a sua contribuição é apenas na criação das harmonias e arranjos, a parcela de culpa é bem menor. Quase nula, na verdade. Afinal de contas, em se tratando de povão e de quem realmente escuta as canções, não há interesse do público em saber como foi desenvolvida a música em todas as suas etapas. O que interessa é o efeito que ela causa.

Por conta disso, não creio que seja justo culpar um produtor pelo fracasso comercial de um artista. A não ser, é claro, que este produtor tenha produzido um disco absurdamente ruim para o referido. Nesse caso, no entanto, creio que a culpa pode praticamente ser transferida para o artista, apenas por ter aceitado o disco na forma que o produtor entregou. O artista é quem escolhe o produtor. A culpa deve ser atribuída, portanto e  principalmente, a um péssimo planejamento e não aos arranjos e harmonias criados.

Ao administrador da carreira de determinado artista e à sua equipe cabem decisões como a forma com que o produto será divulgado na mídia, a música que deverá ser trabalhada nas rádios e às vezes até o repertório de um CD ou de um DVD. Acreditem, decisões como essas poucas vezes passam unicamente pelos artistas. E QUASE NUNCA, repito, QUASE NUNCA, passa pelo crivo do produtor. Os caras precisam se preocupar com muitas outras coisas para “perder tempo” com essas burocracias. Para isso existe essa equipe por trás (sem duplo sentido, por favor).

A escolha de um bom repertório, com canções que realmente vão fazer parte das vidas das pessoas, é um dos principais pontos que favorecem o estouro de um artista ou que selam seu fracasso. Para a escolha das canções, conforme apontei acima, o artista quase sempre conta com um profissional ou uma equipe de retaguarda. Esta equipe (ou profissional) vai escolher canções pensando no trabalho que poderá ser desenvolvido a partir delas, coisa que quase nunca passa pela cabeça de um artista. Mesmo assim, ainda é possível encontrar artistas intransigentes o suficiente para tentarem escolher o próprio repertório sem se dar conta de tudo o que se passa no mercado. A verdade é que poucos são os artistas com visão comercial clara o suficiente para não precisar de uma ajuda na escolha das músicas que vão cantar. A má escolha deste repertório, portanto, é um dos agravantes responsáveis pelo ostracismo de um artista que tinha tudo para estourar.

A forma com que o artista é divulgado na mídia é outro fator crucial. Deve-se ter consciência do público que se pretende atingir e da impressão que se pretende causar. Já imaginaram um artista com músicas jovens divulgando seu trabalho numa rádio voltada a um público mais conservador ou indo a programas de TV que obviamente o público jovem não assiste? Pois acreditem: isso acontece. Muitas vezes, a administração do artista cai em armadilhas como a divulgação fácil através do jabá desenfreado, ou da maquiagem de dados importantes (posição da música nas paradas de sucesso, views no Youtube, etc.). Atitudes desse tipo são como um tiro no pé.

Mas onde o artista entra, afinal de contas? Se ele não estoura, a culpa não pode ser do produtor e também não unicamente do administrador. Afinal de contas, de que adianta o esforço em gastar uma quantia exagerada de dinheiro, pensar numa metodologia sensata de trabalho e outras coisas do gênero se o próprio artista não corresponde ao esforço dispendido?

O artista pode muitas vezes pecar pela falta de humildade. Afinal, quando muita gente joga na cabeça do cara que ele tem tudo para estourar, o ego acaba inflando e a arrogância começa a crescer de maneira inquietante. Ele pode, também, ser imaturo e despreparado para o sucesso que está sendo construído. Pode ser que o cara não saiba lidar com os fãs, ou se deixe levar pelas tentações dos bastidores, ou seja um imbecil na Internet, participando de polêmicas desnecessárias e tudo mais. O artista deve estar em sintonia com o trabalho realizado para que ele estoure. E se não concorda com os métodos, tem mais é que opinar mesmo, oras. E se possível fazer parte das decisões para que elas sejam tomadas da melhor forma possível.

Se o sucesso de um artista se deve ao trabalho desempenhado pela união ARTISTA + PRODUTOR + ADMINISTRADOR, o fracasso também deve ser a essa união atribuído. A consciente tomada de decisões plausíveis e coerentes é tão responsável pelo sucesso do artista quanto a má administração é pelo fracasso. O produtor é, de fato, o menor dos responsáveis pelo fracasso. Estranho como, ao contrário, ele é de fato um dos maiores responsáveis pelo sucesso. Prova disso é o fato de que atualmente a grande maioria dos trabalhos de sucesso é produzida pelos mesmíssimos produtores. Mas culpar o produtor pelo fato de determinado artista estreante ainda não ter alcançado o sucesso esperado e não o próprio artista e a equipe que o administra é como bater o carro e botar a culpa no veículo e não no motorista barbeiro. Ora, o carro está disponível. Só falta aprender a dirigí-lo da forma correta. Se o motorista é bom, tenham certeza que ele vai saber chegar ao destino final.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.