10 jan 2013 | Notícias
Será que o imediatismo das carreiras sobrevive à avalanche de críticas?

Nos últimos dias tenho postado, como de praxe no fim e no começo dos anos, textos com as apostas para o mercado sertanejo, tendências e demais assuntos nessa linha. Pra variar, fomos bombardeados de críticas relativas à qualidade dos nomes citados ou do estilo de música no qual o Blognejo ousou apostar para a próxima temporada. Não que eu precise ressaltar pela milionésima vez que nem sempre o que eu escrevo aqui com relação ao mercado condiz com o meu gosto pessoal, mas essas críticas vieram de encontro a um tema sobre o qual eu vinha querendo escrever há algum tempo: o imediatismo das carreiras dos artistas, principalmente os novatos, e a necessidade de sempre buscar resultados comerciais rápidos, desprezando atitudes e decisões que poderiam, a longo prazo, ajudar a consolidar uma carreira.

Com o mercado sertanejo intensamente aquecido, novos artistas surgem a cada dia. Com eles, novos empresários. Muitos destes novos empresários são estreantes num mercado que desconhecem. São oriundos de áreas que pouco ou nada têm a ver com a música sertaneja e enxergam no mercado da música uma oportunidade de ampliar o leque de investimentos. A tendência no mercado sertanejo é que os artistas que estão em busca de um retorno mais imediato sigam, quase sempre, o exemplo dos artistas que já conquistaram esse retorno. Se um cantor estourou com uma música falando de carros, várias outras músicas na mesma linha aparecem. Se o que fez sucesso foi uma música silábica, a mesma coisa. Se a onda do momento é o arrocha, então vamos todos de arrocha. Ninguém mais quer passar 10, 15 anos tocando em buteco, esperando chegar o momento da consagração.

O que acontece é que não temos visto quase nenhum artista com menos de 1 ano de divulgação que fuja do padrão “modinha”. A imensa maioria deles, como eu disse, prefere não arriscar o investimento num projeto que não tenha nenhum tipo de respaldo no mercado. Ora, se o arrocha fez sucesso com um, pode ser que faça com outro também. É mais ou menos essa a linha de pensamento. E isso não é apenas uma decisão que visa proteger o investimento feito, mas também visa não assustar o mercado com algo muito diferente e ousado, cuja intenção pode ser interpretada da forma errada.

Tenho uma teoria de que artista novo não tem o direito de ousar. Quando alguém se lança no mercado, a decisão mais acertada é, de fato, seguir uma linha parecida com a dos demais artistas, é claro que com apenas algumas poucas e sutis diferenças, que podem ser o fator crucial do sucesso. Depois que o mercado abraça e o artista começa a se consolidar, aí sim ele passa a ter não só o direito, mas a obrigação de se aperfeiçoar e de se diferenciar da concorrência, para já passar de recebedor a gerador de influência.

Partindo desse ponto de vista, chegamos a um momento da música sertaneja onde o que está atingindo mais rapidamente o gosto popular é a música “descartável”, na falta de algum outro termo melhor. O público se identifica mais com a facilidade das letras bobinhas e coreografias do que com profundidade de composições e interpretações. E se o público tem se comportado dessa forma num momento de mercado aquecido, logo se presume que a aposta financeira mais correta é justamente nesse tipo de música.

Acontece que, junto com a tsunami de novos artistas seguindo uma mesmíssima linha de trabalho, têm aumentado consideravelmente, também, as críticas a esse subgênero da música sertaneja. E se a predominância de músicas e artistas desse subgênero representa justamente o imediatismo das carreiras, com a busca sempre por resultados os mais imediatos possíveis, logo podemos concluir que o principal contraponto ao imediatismo das carreiras dos artistas sertanejos contemporâneos é justamente a avalanche de críticas, oriundas principalmente dos fãs mais conservadores do gênero.

Essas críticas têm aumentado a tal ponto que não é de se assustar que muito em breve as decisões comecem a ser pautadas justamente no que essas críticas andam dizendo. Quando postei minha lista de apostas e tendências para 2013, ressaltei que todos os tópicos representam possivelmente os últimos suspiros desse atual período da música sertaneja que muitos consideram tenebroso. Acredito que a partir do segundo semestre de 2013, muita coisa pode começar a mudar justamente por causa do aumento das críticas, seja na quantidade delas ou no teor.

Por conta principalmente da intensificação das críticas, algumas rádios já se posicionam contra esse subgênero “descartável” da música sertaneja. Além delas, a maioria dos grandes artistas, já consagrados, não se renderam a ele. E alguns poucos nomes dentre os novatos já começam a despertar um pouco mais de atenção do público e dos amantes da boa música sertaneja.

Eu, particularmente, não tenho nada contra o artista que quer apenas conquistar um espaço dentro do mercado. Tentei por quase 10 anos alavancar uma carreira e sei muito bem as dificuldades que um artista encontra no decorrer do caminho. Tanto que desisti. Por isso mesmo, nunca me posicionei contra nenhum destes artistas que abraçaram esse lado mais prático da música sertaneja, que surte resultados de forma mais imediata. Pelo contrário, eu os defendo. Não sou fã do estilo, mas defendo. Afinal de contas, se está fazendo sucesso, o culpado é o público. Não é porque 20% desse público sertanejo detesta que os outros 80% são obrigados a detestar também. Fulano pode detestar, abominar, excomungar uma música ou artista desse subgênero e Beltrano pode, ao mesmo tempo, amá-lo, adorá-lo, reverenciá-lo.

O que acontece, entretanto, é que aparentemente a parcela de críticos está só aumentando, enquanto a de fãs só vem diminuindo. Se continuar nesse ritmo, chegaremos em breve a um momento no qual os críticos vão engolir os fãs e os artistas adeptos dessa linha de trabalho serão obrigados a se adaptar. E o imediatismo vai ter que dar lugar a um planejamento mais sólido. Afinal de contas, o imediatismo das carreiras só não é maior que o imediatismo do gosto do público, que hoje gosta de uma coisa e amanhã de outra totalmente diferente.

25 comentários
  • Daniel Assis: (responder)
    10 de janeiro de 2013 às 20:05

    Acho o Cristiano Araujo um bom exemplo! Apesar de ter seus bara beres e empinadinhas da vida, ele faz musicas de muita qualidade tambem! Acho que da pra ter um equilibrio

    • emerson: (responder)
      11 de janeiro de 2013 às 07:22

      Cristiano Araujo canta isso pq precisa vender musica ” comercial” e so olha primeiro dvd dele edo Gustavo Lima, nao tem nada de porcaria, mais os escritorios meio que obrigam eles a gravarem isso.

      • Luiz Fernando: (responder)
        12 de janeiro de 2013 às 21:51

        Porra, mas se fosse 100% romântico todo mundo dormiria no show, se liga. Acho interessante que ele sempre trabalha as músicas românticas. As músicas de balada andam sozinhas, essa é que é a grande jogada.

  • digo nogueira: (responder)
    10 de janeiro de 2013 às 23:28

    Uma pergunta que lhe faço Marcão, por favor, vc acha um arrocha feito com uma boa letra, romantica, bem escrita, pode ser válida?

    Ou essas criticas que vc acompanha melhor que nós, é totalmente voltada para o ‘ritmo’, independente da letra, se tem propriedade ou de carro?

    • everton dantas: (responder)
      11 de janeiro de 2013 às 07:47

      Amor em dobro – Ricardo e Joao Fernando com César menotti e Fabiano é um arrocha gostoso de ouvir, letra legal, sem putaria

    • Marcus Vinícius: (responder)
      11 de janeiro de 2013 às 09:25

      deveria ser para as letras, mas o povo generaliza e acha que todo e qualquer arrocha é uma merda. Eis alguns exemplos de alguns que acho bastanta válidos:

      1) Então Valeu – Fred & Gustavo
      2) Mente pra mim – Cristiano Araújo
      3) Vacilou, perdeu – Israel & Rodolffo

      e mais uma centena deles. O arrocha é um ritmo sensacional. É burrice associá-lo às coisas ruins do sertanejo.

      • Luiz Fernando: (responder)
        12 de janeiro de 2013 às 21:53

        É que tem uma diferença:

        Arrocha = Ritmo
        Arrocha = Verbo

        Quando é o ritmo é legal, mas quando é um verbo é um lixo.

        • digo nogueira: (responder)
          13 de janeiro de 2013 às 03:27

          Otimo saber que vc defende essa postura,
          o ritmo é válido quando acompanhado de boa
          letra e harmonia.

          Isso eu acho muito bom pro mercado sertanejo,
          que quanto mais aquecido, melhor pra gente.

          Valeu pela duvida tirada, e se me permite pedir, algum dia gostaria de ler aqui sua opinião a respeito do seguinte tema:

          A musica sertaneja desde 1920 até aqui, vem num crescimento constante exatamente por que sempre trás algo novo, algum ritmo novo que se torna ramificação do seguimento…pq quando estorou a vaneira com “pode chorar” …todo mundo veio no embalo, se firmou com “chora me liga” …agora o arrocha, meio q um trator atropelando outro e o cenario nacional ganhou mais adeptos de sertanejo ainda…

  • LC: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 01:00

    Belo texto!

  • emerson: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 07:23

    Realmente essas musicas ja encheram o saco, espero que depois do segundo semestre ocorra divisor de aguas na musica sertaneja e so fique o que realmente presta, as radios ja estão ajudando, dificilmente voce escuta esses arrochas,funknejo na radios sertanejas, pelo menos aqui em SP nao quase nada.

  • Fabio Roque: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 10:47

    É isso aí!

  • Nilo Guedes: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 11:22

    Igual no futebol, a música hoje devia ter uma peneira também
    Pra tentar amenizar esse situação grotesca que hoje acontece.
    No meu ponto de vista, quem se intitula cantor hoje, não sabe da responsabilidade que tem, não sabe da origem que ele prega ser.
    Isso não é culpa apenas dos ”cantores sertanejos” de hoje, isso é culpa nossa também por aceitar tamanha crueldade que esses ”cantores sertanejos” vem fazendo não só com a música sertaneja, mas, também com todos os outros estilos musicais.
    Não sou contra a inovação sou contra a falta de respeito com a música.

  • Willian: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 14:39

    Tomara q essa onda acabe logo..infelizmente o Gusttavo Lima foi levado pra esse lado pois a musica que fez mais sucesso dele não tem letra, tomara que isso acabe mesmo e o sertanejo volte com o romantismo de antes!

  • Rogerio: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 14:42

    um exemplo.. Jorge e Mateus, se consolidaram no mercado, e estao fazendo sucesso, sem precisar usar musicas pornograficas ou sobre carros

  • Carlos Alexandre: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 15:18

    Marcão sempre com seus belos textos visionários. Parabéns!
    P.S: Conhece Marcão: http://www.youtube.com/watch?v=Z5fcBynxa6k

  • Maria de Fatima Soares: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 18:35

    Gostei da matéria. Bem focada e expõe o que realmente é.
    Gosto de música verdadeira, ou seja, com aquela letra que podemos interpretar. Victor e Matheus têm muitas dessas, várias de autoria própria. Aprecio-as como um sertanejo que foi e continua sendo. Parabéns a eles, se conseguirem manter o ritmo.

  • Fabio Nizza: (responder)
    11 de janeiro de 2013 às 19:29

    O buraco na minha opinião é bem mais embaixo, o artista continua cantando em buteco sim, mas quando ele pensa em dar um próximo passo, se vê obrigado a seguir não só o que o mercado pede, mas contratantes, empresários locais e etc…se não tiver dentro do aquário, as chances são mínimas. Moro em uma região com excelentes duplas e compositores, porém o talento por aqui não prevalece….parabéns Marcão, expressou muito bem o que muitos de nós gostaríamos de dizer.

  • Felipe Botelho: (responder)
    15 de janeiro de 2013 às 03:30

    O grande lance é n tratar a música como empresa/comercio e nem como arte.. O segredo é ser empreendedor, Olhar para musica sertaneja de uma forma ampla.. Pensar la na frente, e ñ prostituir o ritmo gravando tudo na linha q ta rolando… Fazer o diferencial, Ousar.. colocar a criatividade pra funcionar, e isso é pra poucos.. e quando eu falo de criatividade, ñ é so na musica q se esta criando e sim tambem na estrategia q esta sendo pra divulga-la.

  • Daniel: (responder)
    23 de janeiro de 2013 às 01:17

    Oxalá aumentem os críticos(não eu não sou macumbeiro,tipo oxalá não é orixá,é mais um bagulho que vi nos salmos da bíblia,versão joão ferreira de almeida…)!

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.