01 ago 2010 | Artigos
Sertanejo com Música Clássica? Dá muito certo!!!

Eu sei que o tema do texto de hoje já foi abordado diversas vezes em diversos outros sites, mas eu ainda não havia escrito nada sobre o assunto. Então, vamos lá…

Quinta-feira, 22 de julho. Eu havia chegado de manhã de uma viagem de 6 horas dirigindo de Uberlândia a São Paulo. Eu, matuto que sou, por mais vezes que tenha que ir a São Paulo, creio que nunca vou me acostumar com o fato de ter que sair de casa com pelo menos 2 horas de antecedência para qualquer compromisso. Resultado: cheguei atrasado ao evento no Via Funchal que seria o primeiro dos vários shows em comemoração aos 40 anos de carreira da dupla Chitãozinho & Xororó.

Isso porque nem eu nem a esposa sabiamos se tínhamos que ir com traje de gala, se eu tinha que colocar gravata, se isso ou se aquilo. Dois matutos, preocupados em não passar vergonha. E o atraso ocorreu porque eu perdi uma das entradas das rampas de acesso no caminho. Ora, no mapa está escrito “Av. Alcântara Machado”. Como é que eu, um Zé Mané do triângulo mineiro, ia saber que era para entrar onde estava escrito “Av. Radial Leste”? Onde já se viu as placas trazerem “apelidos” das ruas e não os nomes corretos?

Esse show, já realizado em outras ocasiões, consiste na junção das músicas mais famosas da dupla com músicas clássicas às vezes seculares, todas executadas pela Orquestra Bachiana Filarmônica do Maestro João Carlos Martins. Eu cheguei atrasado ao atendimento à imprensa realizado pela dupla, mas graças a Deus não perdi o show. Bem a tempo, fui conduzido com o restante dos colegas jornalistas (quem diria, hein, hehehe) para a área reservada aos profissionais, onde recebemos as instruções para a cobertura.

Quem fosse filmar deveria se posicionar atrás da mesa de som, bem na parte de trás do recinto. Quem fosse fotografar, idem. O show, dado o caráter diferenciado, foi realizado apenas com mesas. Não havia ninguém em pé. Por isso a proibição para tirar fotos. Imaginem uma pá de fotógrafos lá atrapalhando a visibilidade do show por quem tinha pagado pelo ingresso. E olha que haviam uns fotógrafos que conseguiam ser maiores que eu…

Posicionei-me para tentar fazer alguns vídeos. Mas a vontade passou logo que os meus coleguinhas de trabalho montaram os seus respectivos equipamentos. Todos com tripés gigantescos e filmadoras maiores ainda, num empurra-empurra para que todos pudessem ficar bem posicionados no “chiqueirinho”, ou “cercadinho”, ou “curralzinho” destinado a quem quisesse filmar. E eu lá, com minha filmadorazinha de mão. Nem fudendo (perdoem o linguajar) eu conseguiria fazer um vídeo daquela distância com a minha filmadora, cuja qualidade muitos de vocês já conhecem pelos vídeos aqui postados.

Desisti de filmar. E de tirar fotos também, afinal de contas eu estava lá com uma máquina fotográfica emprestada tão boa quanto minha filmadora, hehehe. Restava a esse cidadão incauto assistir ao show sossegado para depois escrever algo sobre o referido. E eu teria que assistir em pé, escorado lá na mureta do “chiqueirinho” da imprensa, já que tinha perdido a chance junto à assessoria da casa e da dupla de verificar a possibilidade de conseguir dois assentos, um para mim e um para a digníssima esposa.

A orquestra se posiciona, acompanhada pela banda de base. As luzes se apagam. Entra o Maestro João Carlos Martins. Uma canção é executada. O maestro toma para si o microfone e faz a primeira de muitas declarações de admiração à dupla Chitãozinho & Xororó. Os dois são chamados ao palco. Interessante nesse tipo de evento como não há preocupação com cenário, com cronograma. É aquela coisa que parece meio amadora, até que soem os primeiros acordes. O profissionalismo que parece não haver nos intervalos entre as canções e na produção do show em si se agiganta quando a orquestra começa a tocar.

Mesmo porque num show como esse o cronograma comum aos shows populares não se faz necessário. É um público diferente. As pessoas, a grande maioria evidentemente de uma classe mais abastada, estavam lá com o intuito de acompanhar um show de música clássica. E creio que seja assim em todo show do gênero. Nada de molecada atrás de curtição. E para um público consciente como esse, aquela necessidade de se conquistar a atenção da platéia praticamente deixa de existir. Eles já estão bem atentos.

Já por volta da terceira música, uma das assessoras da casa, vendo que eu estava meio que perdidão sem fazer nenhuma filmagem e nem tirar foto, perguntou se eu gostaria de dois assentos? ÓÓÓÓÓbvio, né. Fui conduzido a dois lugares vazios. Apertados, mas vazios. De lá, com uma visão um pouco mais privilegiada que a de antes, pude fazer um vídeo. Tudo bem, trash com os que eu sempre faço, hehe, mas ainda assim um vídeo do show. Sei que muita gente já conhece e já viu em outras ocasiões o que eu filmei logo abaixo, mas ainda assim assitam abaixo a versão “clássica” de um clássico, “Fio de Cabelo”:

Depois de toda esse inquietação quanto a arrumar um lugar para sentar, a assistir ao começo do show escorado numa mureta, a ficar meio que na muvuca do corre-corre da imprensa, pude enfim me acalmar um pouco e assistir a algo que eu provavelmente nunca mais terei a oportunidade de assistir.

É no mínimo inusitado assitir a uma dupla sertaneja interpretando “hits” da música clássica. Não peguei a lista com as músicas do show. Ainda que tivesse pegado, nem precisa ficar citando aqui. O maestro fez uma observação interessante de como as famosas músicas seculares ou até biseculares costumam fazer parte do nosso cotidiano de uma maneira tão forte que, sem saber, acabamos por decorar as mais famosas melodias da história.

A provável ausência de formalidades que já parece ocorrer entre a dupla e a orquestra cria momentos interessantes, como o Xororó o tempo todo olhando para a orquestra, aparentemente com medo de errar. E olha que os erros acontecem, tanto da parte da dupla quanto do maestro. O Xororó errou a letra da versão da “Serenata” de Schubbert que interpretava, escrita exclusivamente para o evento, enquanto o maestro cometeu uma gafe leve e anunciou uma música para depois corrigir, já que se tratava de outra canção.

Por mais demagogia que pareça da parte do maestro, creio que nunca mais poderei contemplar alguém da mais alta formação erudita como João Carlos Martins declarando tantas a tantas vezes admiração e até amor por uma dupla sertaneja, ainda que seja essa a maior dupla sertaneja de todos os tempos. O show foi curto, infelizmente. Talvez por eu me sentir o tempo todo um peixe fora d’água, não pela música executada mas sim pelo público presente, e pela constante preocupação de estar atrapalhando quem estava sentado atrás de mim (já viram meu tamanho, né?), não cheguei a curtir a apresentação da forma que eu provavelmente curtiria caso tivesse ido apenas com o intuito de assistir e não de colher informações para uma postagem.

O recinto lotado e a quebra frequente de protocolos com ovações exageradas ao fim de cada uma das canções e até uma frenética gritaria de “Galopeira! Galopeira! Galopeira!” de alguns fãs mais afoitos (o que ocorreu também no evento seguinte), dava pra notar que a galera sertaneja estava sim curtindo essa junção com a música clássica. Restava saber se os fãs de música clássica estavam curtindo a intromissão da música sertaneja no que aparentemente não era pra se meter o bico.

Enquanto eu me dirigia à saída, ouvi um casal conversando e elogiando a apresentação. “Legal aquela música… como chama aquele de chapéu mesmo, o da segunda voz?” – pergunta o marido. “Xororó… não, Chitãozinho…, não, Xororó mesmo…” – responde a esposa. “É, o Xororó, naquela música…” – continua o marido. Conclusão: os fãs do clássico podem continuar até cagando e andando para quem são e o que representam sertanejos como Chitãozinho & Xororó para a música brasileira, mas o fato é que pelo menos ali muitos tiveram que dar o braço a torcer e reconhecer que talento e estrada não são coisas que se conquista mesmo de uma hora pra outra…

Amanhã, o primeiro dos textos sobre a gravação do DVD “Chitãozinho & Xororó 40 anos – Nova Geração”.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.