24 nov 2011 | Artigos,Notícias
TEXTO DO LEITOR – Os tempos mudaram. Que caminho seguir?

Eu estava meio sem inspiração para escrever um texto para hoje aqui no Blognejo, mas aí lembrei que tinha na minha caixa de e-mails mais um texto enviado pelo Thiago Elias, que já tinha emplacado um texto nessa sessão. No seu último texto, ele fez uma análise dos rumos da carreira do Hudson Cadorini, ainda na época solo. O texto repercutiu bastante, dando origem até a uma entrevista do próprio publicada no dia seguinte aqui no Blognejo, depois que algum otário resolveu se passar por ele na sessão de comentários. Abaixo, mais um texto do Thiago Elias, compositor e leitor das antigas aqui do blog.

Antigamente era comum ouvirmos duplas iniciando seus trabalhos baseados em um estilo que admiravam, que ouviam.  Quando traçavam os caminhos que iriam seguir, e em alguns casos isso nem sequer era feito (tudo ia acontecendo naturalmente), era para se aproximarem do sonho de se fazer um tipo de música da qual eram, antes de qualquer coisa, fãs.  Queriam seguir os passos dos seus ídolos, fazer algo parecido com o que eles faziam.  E, por incrível que pareça, sempre ouvíamos coisas diferentes.  Isso porque esses novos artistas não buscavam fazer música igual às que admiravam e sim, cantar e fazer música igual faziam os seus ídolos.  Falando sobre aquele assunto, com aquele cunho, daquela forma.

E aí surgiam duplas magníficas, fazendo um tipo de música que gostavam, porém da forma de cada um.  Diversas duplas com timbre agudo, querendo cantar como cantavam Chitãozinho e Xororó, Zezé e Luciano, entre outros tantos, cantando as músicas românticas, como faziam praticamente todos eles, e cada uma da sua forma, como não se faz mais hoje.

Os tempos mudaram.  E como mudaram.  Atualmente, esse planejamento é feito quase que obrigatoriamente, baseando-se no que o ‘mercado pede’.  O que se vende hoje em dia?  Que tipo de música lota evento? Sim, porque em muitos e muitos casos, o público nem sequer sabe quem está cantando a música que ele está dançando, entre uma cerveja, uma dose de vodka e algumas perambuladas pela balada.

Ouço vez e outra de novos artistas e seus ‘empresários’ e ‘investidores’ que estão a procura de música do estilo Michel Teló.  Ou pior, querem que a gente, no papel de compositor, faça uma música ‘no padrão de ‘Chora, me Liga’’.  E quando ouço isso, me vem a cabeça alguns bons depoimentos de alguns grandes profissionais da nossa música, de hoje e de ontem.

Certa vez, aqui mesmo no Blognejo, acompanhei uma entrevista feita pelo Marcus com o Dudu Borges, no VIP.  Em um trecho, ele dizia que recebeu um artista que pediu pra que ele produzisse uma música igual a “Sufoco”, sucesso do JBeV.  E que, diante disso, era praticamente impossível se aceitar o trabalho.

Em uma outra situação, o Bruno (com o Marrone), declarou que estariam gravando o novo disco fazendo o que gostavam, porém não ignorando o que o mercado pedia.  Disse ainda que o projeto de boleros não poderia ser lançado agora como projeto de carreira por essa “impossibilidade” que o mercado impunha.  Veio o “Sonhando”.  Um disco que eu, particularmente, considero um dos piores da carreira deles.

E por fim, em um trecho do DVD do Victor e Léo (‘Minha História’), o Renato Teixeira, sempre genial, nos contempla com uma lição.  Diz que sempre recebe nos bastidores de seus shows novos artistas que lhe perguntam que caminho seguir.  O que precisam fazer para chegarem ao sucesso?  Como se fosse isso uma ciência exata, uma receita, ou algo do tipo.  E o Renato narra:  “Cara, você faz o seguinte: você ouve aí tudo que tá tocando e pensa em uma música que você gostaria de ouvir e que não toca.  Aí você vai lá e faz ela.”  Genial, ou não?

Ligando os três pontos, das três histórias, vem uma palavra que muitos dos que estão começando agora fazem questão de não considerar: “originalidade”.  E originalidade não significa mudar o tom da música, colocar um solo de guitarra no lugar de uma sanfona, ou usar o violão de nylon ao invés do de aço.

Se o Dudu aceitar produzir aquele artista e sua outra música igual a “Sufoco”, o máximo que pode acontecer é, caso a música seja muito (mas muito) boa, não passar de uma eterna cópia de algo que foi sucesso e não será mais, se lançada novamente.  A dupla Bruno e Marrone, tentando acompanhar o mercado, deixou de ser original.  Deixou de ser Bruno e Marrone.  E deixou de se destacarem no mercado.  Voltando ao caminho das pedras que já conhecem, lançaram o excelente “Juras de Amor”.  Voltaram a ser original, voltaram a ser Bruno e Marrone, uma das melhores duplas da história desse país.

Os tempos mudaram.  E como mudaram.  E junto com essa “evolução” (considere essas aspas imensamente significativas) do sertanejo, aumentaram quase que infinitamente as possibilidades de se fazer algo novo, original.  Hoje, todos tem acesso a tudo o que é lançado e existe uma enorme parcela de público a espera de algo sempre novo.  Prova disso é o que resultado que obteve a Paula Fernandes com o seu violão em punho atravessando com autoridade a bagunça desenfreada dos batidões de funk adaptados ao que alguns teimam em chamar de música sertaneja.

Prova disso é maior vendedor de discos do ano passado, Luan Santana, lançando uma música com uma levada mais ‘arroxa’, saindo um pouco da bolha pop teen a qual estava preso por dois longos anos.

É o Israel e Rodolffo, gravando uma belíssima guarânia ao lado de Jorge e Mateus, que também gravaram outra belíssima guarânia no “Aí já era”.  Como fizeram também Fred e Gustavo, no novo disco.

É o João Carreiro e o Capataz, nos contemplando com as maravilhosas “Volta pro meu coração” e “O que essa moça fez aqui”.  Sim, eles mesmos.  Os caras que se destacaram através das bem-humoradas “Chique e Bacanizado”, “Bruno, Rústico e Sistemático”, sem medo de trabalhar duas novas músicas românticas.  Isso é ser original.

Prova disso é o que faz Victor e Leo, que ouviram o que o Renato Teixeira ensina. Mais um disco (muito) criticado por alguns e (muito) admirado por tantos outros.  Porém, fazem o que só se ouve com eles.  Se é ruim ou não, é outra questão.  Em uma coisa, todos irão concordar: é original.  E isso é o que vai ficar.  Isso é o que vai te segurar no mercado, se é isso que você procura.

As opções estão na mesa.  As possibilidades são infinitas.  Você pode tentar algo novo e se dar bem.  E talvez não.  Porém, mesmo que se dê mal, ainda assim, será lembrado de alguma forma.  Ou se preferir, regrave um funk e vá viver de cachês amadores nas baladas sertanejas por aí a fora.

Nota: Antes que critiquem, sou compositor e faço sim (também) as músicas que me pedem para fazer no estilo de “A” e “B”.  Vivo disso.  O que é bem diferente de me orgulhar disso.  As músicas das quais tenho orgulho, são as que me movem.  Mesmo que essas, por enquanto, ainda estejam aqui, guardadas comigo.  Que bela companhia, afirmo com absoluta tranquilidade.

Por Thiago Elias

45 comentários
  • Annamarie Labbee: (responder)
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.