26 mai 2011 | Notícias,Top Five
TOP FIVE – Segundeiro só se ferra

Não é de hoje que existem diversas lendas envolvendo os segundeiros das duplas sertanejas. Levando em conta essas diversas zoações que os segundeiros sofrem no dia a dia, dá pra se concluir facilmente que o segundeiro é um cara que nasceu praticamente pra ser motivo de chacota, de humilhação e de quase toda a carga negativa que uma dupla possa carregar. Diante dos últimos acontecimentos envolvendo o Marrone e a queda do helicóptero, reacendeu-se o folclore popular em torno das traulitadas que os segundeiros levam durante suas carreiras. Baseado nisso, eu resolvi trazer de volta o nosso já tradicional Top Five, usando como tema justamente algumas destas lendas e “verdades absolutas” envolvendo os segundeiros que circulam pelo folclore popular sertanejo.

SEGUNDEIRO NÃO CANTA

Na cabeça dos leigos, principalmente dos que não conhecem música sertaneja, o único papel do segundeiro é ficar ali parado do lado da primeira voz mexendo a boca e tentando levantar a galera enquanto a primeira voz faz o serviço necessário. É comum ouvir asneiras do tipo “só é um bom segundeiro aquele que faz bem também a primeira voz”. Seguindo essa linha de raciocínio, a segunda voz é só um detalhe ali do lado da primeira. Se o segundeiro quiser algum destaque, vai ter que escolher músicas pra cantar sozinho no show ou trechos de música para gravar cantando de primeira no disco. Onde será que ficam caras como o Paulinho, da dupla César & Paulinho, Chitãozinho, Chico Rey, que nunca ou quase nunca abrem a garganta pra cantar em primeira voz? Será que esses caras são segundeiros ruins?

SEGUNDEIRO É CARREGADO NAS COSTAS PELO PRIMEIRA VOZ

Mais ou menos um desdobramento do item acima. Até mesmo no próprio segmento sertanejo existem profissionais que defendem a idéia de que é preferível cantar sozinho do que ter uma dupla e dividir a grana com alguém que na teoria não faz nada. É um exemplo clássico da velha expressão popular “gozar com o pau dos outros”. Segundo os mais ignorantes, é assim que um segundeiro vive: se aproveitando do trabalho “pesado e árduo” realizado pelo detentor da primeira voz e apenas colhendo os louros do sucesso da dupla, sem nunca ter feito nenhum esforço para que isso acontecesse. Coitado do Luciano, que tem que aguentar essa ladainha desde que começou a cantar com o Zezé há 20 anos.

SEGUNDEIRO É SUBSTITUÍVEL

Essa é uma das “verdades absolutas” defendidas principalmente por empresários inescrupulosos e pelos detentores das primeiras vozes que detêm o poder de decisão na própria dupla. Se é o primeira voz que “canta de verdade”, logo o segunda voz não é importante e pode ser substituído ao primeiro sinal de rebeldia, intransigência ou desobediência. Geralmente depois da assinatura de um contrato que favorece principalmente o empresário ou o primeira voz, o segunda voz passa a ser um mero funcionário, que tem que piar fininho senão sofre as consequências. Alguns casos clássicos de substituição: o primeiro Fernando, da dupla com o Sorocaba; o primeiro Ataíde, da dupla com o Alexandre, com quem na verdade ele revezava a primeira voz; o Sampaio, da dupla com o Teodoro; e por aí vai.

SEGUNDEIRO SE ENVOLVE MAIS FACILMENTE EM ACIDENTES

Essa já é uma lenda bem menos “engraçada”. Aliás, não tem graça nenhuma. Trata-se de uma triste coincidência. Mas o fato é que na história dos acidentes envolvendo artistas sertanejos, geralmente eram os segundeiros os responsáveis e/ou vítimas. Anos atrás, o Renner foi responsabilizado pela morte de um casal em um acidente. Segundo consta, ele já acumulava mais de uma centena de pontos na carteira de motorista nessa época. O grande João Paulo faleceu em outro acidente automobilístico quando voltava para casa. No caso mais recente, o Marrone se envolveu no trágico acidente de helicóptero que culminou com a amputação da perna do piloto e com a quase morte do primo e secretário Jardel.

SEGUNDEIRO MORRE PRIMEIRO

A piadinha mais infame de que se tem notícia envolvendo duplas sertanejas. Segunda a lenda mais difundida sobre os segundeiros, eles sempre morrem antes da primeira voz. E o pior é que a história favorece a popularidade dessa bobagem. Duduca, da dupla com Dalvan, João Paulo, Leandro, Sandro, da dupla com Gustavo, Tonico, do Tinoco, enfim, esses são alguns dos tristes exemplos de que essa lenda tem lá o seu embasamento. Mas é óbvio que se trata de mais uma triste coincidência. Há casos, aliás, em que o primeira voz foi embora primeiro, como nas duplas Alan & Aladin, Cascatinha & Inhana e outros.

O que mais me atormenta ao escrever um texto como esse é pensar que mesmo com mais de 100 anos de história a música sertaneja ainda não conseguiu provar de fato a importância de um segundeiro num projeto sertanejo. Ora, o crescimento avassalador do mercado de artistas solo nos últimos tempos mostra que a segunda voz tem perdido cada vez mais importância. As piadinhas continuam. Os segundeiros continuam sendo motivo de chacota. Os leigos continuam achando que segundeiro não serve pra merda nenhuma. E até uma parcela de fãs e profissionais de música sertaneja, parcela essa que deveria batalhar pelo fim de piadinhas desse tipo, prefere estimular as gracinhas com pensamentos similares. Eu, particularmente, não acho nada engraçado.

7 comentários
  • Chadwick Casaceli: (responder)
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  • Adriano Augusto: (responder)
    16 de fevereiro de 2014 às 11:21

    Finalmente vi isso escrito em algum lugar.
    Sempre penso nisso,não vejo defesa,é muito injusto.

    Há até casos que prefiro o segunda,de tão bonito que canta.Tipo João Paulo ou Tonico.Como eram incriveis.
    E faz diferença,o Sampaio Alcino casa bem melhor com Teodoro assim como Tião Carreiro encaixava bem mais com Pardinho.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.