23 dez 2008 | Lançamentos
Tradição – Micareta Sertaneja 2

Constatei dia desses que não tem como perguntar se o Tradição é bom. É redundante. Incrível a capacidade desses caras de manter sempre um altíssimo nível de qualidade, melhorando a cada disco.

Com onze anos de estrada, algumas mudanças de formação, e um sucesso nacional relativamente recente, o Tradição costumava se destacar pelo prestígio que acumulou no meio artístico antes mesmo de se tornar conhecido nacionalmente, que foi com o primeiro DVD. Antes daquele disco eles já tinham gravado até com Zeca Pagodinho. Além de criarem arranjos e produzirem canções para os mais diversos artistas, como Edson & Hudson (a música Abre a Janela foi arranjada e produzida pelo Tradição) e Chitãozinho & Xororó (Menina Linda). Todo mundo que queria reproduzir a intensidade da batida da vanera chamava o Tradição pra executar a canção. Porque é um fato: ninguém faz o que eles fazem melhor que eles.

Depois que o Tradição alcançou sucesso nacional, levando o ritmo contagiante do Mato Grosso do Sul para todo o Brasil, um punhado de grupos similares surgiu. O Tradição, no entanto, permaneceu no topo no que diz respeito à qualidade. Isso pode ser comprovado através deste novo DVD, o Micareta Sertaneja 2. Trata-se de uma continuação do projeto idealizado pelo grupo, que consistia em reproduzir as famosas e nauseantes micaretas de axé, só que com música sertaneja, principalmente a vanera. A primeira edição do projeto mostrou-se relativamente um sucesso, já que, apesar de a banda não ter emplacado no primeiro “Micareta Sertaneja” nenhuma música de enorme sucesso, como havia sido com “Barquinho” no primeiro DVD, o Tradição continuou com uma enorme quantidade de shows por todo o Brasil e até 4 turnês nos EUA. Como diferencial, de acordo com o evento para o qual eram contratados, reproduziam exatamente o esquema do DVD, com uma outra banda num palco e o Tradição no trio elétrico

Embalados pela velha história de que em time que está ganhando não se mexe, o Tradição repete a fórmula. Um trecho do show num palco, em Santa Catarina, e outro no trio elétrico. Dessa vez, no entanto, a quantidade de músicas executadas no trio foi pequena, se comparado ao último disco. O DVD tem 23 faixas, sendo que 17 foram gravadas num palco e somente 6 no trio. Eu sinceramente prefiro o esquema de palco, mas o projeto havia sido idealizado para ser um esquema de micareta, o que pede um uso mais intenso do trio elétrico.

Nada no entanto que tire o brilho desse incrível trabalho. A produção do palco não superou a do último DVD, que havia sido gravado no Via Funchal em São Paulo. Como esse novo foi gravado em local aberto, realmente fica complicado conseguir a mesma qualidade que a gravação em local fechado. Ainda assim, o palco atende as expectativas e cumpre seu papel, que é servir de espaço para a incessante movimentação dos membros da banda.

Acho genial o fato de apenas o baterista e o percussionista ficarem parados em seus lugares. O resto da banda fica andando o prazo todo. E não tem aquela história de marcar os lugares no palco. A movimentação é livre. O mais incrível é que ninguém toma o espaço de ninguém. Todo mundo respeita o espaço um do outro (dentro e fora dos palcos). Nenhuma outra banda sertaneja que eu conheça utiliza somente transmissores sem fio nos instrumentos de maneira tão intensa. A banda do Chitão usa, mas os locais no palco são marcados, tudo ensaiadinho. O charme do Tradição é não marcar nenhum lugar fixo para nenhum membro da banda. Daqui a pouco os caras vão arrumar até rodinhas no praticável da bateria e no da percussão. Assim até o Anderson e o Arapiraka podem sair andando pelo palco junto com os outros.

A produção do disco ficou por conta do próprio vocalista, o Michel Teló, que fiquei sabendo ser um dos fundadores da Panttanal, uma das principais empresas de multimídia do segmento sertanejo no centro-oeste. Prova de que o cara entende de entretenimento e sabe como fazer algo dar certo. Aliás, não é só ele que faz o vocal da banda. Muitos podem não concordar comigo, mas o Anderson Nogueira, baterista, é ainda melhor cantor que o Michel. A voz dele é mais potente e mais peculiar. E tocar bateria cantando bem não é pra qualquer um não. Um dos trechos mais interessantes do disco é quando ele vai pra frente do trio elétrico e o Michel vai pra bateria. Uma curiosidade: o Anderson fez uma operação de redução de estômago e secou uns 40 quilos no mínimo. Sondei com as minhas fontes e fiquei sabendo que o motivo não foi estético, ao contrário do que alguns podem ter pensado. O médico mandou e ele teve que fazer.

O Carlos, baixista (o maridão da Jannayna), também canta de primeira voz em alguns trechos de canções, mas fica mais por conta da segunda, revezando com o Pecóis, guitarrista. Os únicos que não utilizam microfone são o Gérson (sanfoneiro) e o Arapiraka, o que rende trechos interessantes, como os que os outros falam enquanto o Gérson mexe a boca, simulando que o próprio está falando. Aliás, o Gérson está cada vez melhor na sanfona. Pra tocar sanfona pulando desse jeito, só mesmo o Xodozinho

Sobre o repertório, como sempre foi bem escolhido. Regravações como “Festa na República”, da dupla Marcos Aurélio & Paulo Sérgio, “Parece Castigo”, “Tá pegando”, e até um pout pourrie de “É o amor”, “Pense em mim” e “Entre Tapas e Beijos”, numa mistura de axé com vaneira, além do fechamento com o clássico cristão “Glória, Glória, Aleluia”. As inéditas não perdem nem um pouco. aliás. O DVD tem músicas incríveis, como “Mega-sena do amor”, “Sou sertanejo sô”, “Seu amor me faz bem” e uma das melhores músicas do ano, “Você não vale um real”. Essa última música representa bem a linha que a banda decidiu adotar com esse trabalho. Mais universitária e menos “povão”, com músicas um pouco melhor elaboradas, numa linha mais pop.

Como eu disse, Tradição já é sinônimo de qualidade e originalidade. O Roupa Nova da música sertaneja merece sim todo o crédito pelo sucesso, que eu ainda considero pouco para a melhor banda que o nosso segmento tem hoje. Merecem muito mais sucesso. Afinal de contas, mil vezes melhor uma micareta sertaneja do que uma micareta irritante naquela mesma eterna batida do axé da Bahia.

Nota: 9,5

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.