02 dez 2010 | Artigos
Um outro lado do YouTube Sertanejo Live

Nos últimos dias o YouTube Sertanejo Live ganhou a capa dos principais veículos de comunicação da internet. Sites e blogs sertanejos e não sertanejos alardearam o que seria o primeiro evento transmitido ao vivo pelo canal no Brasil, mas que já realizou mundo afora pronunciamentos do presidente americano Barack Obama e shows de Katy Perry, U2, Bon Jovi, entre outros.

O clima era de festa, porém o evento não seria aberto ao público e sim apenas para convidados. A parceria dos organizadores com alguns veículos transformaram o twitter num verdadeiro inferno. A mais nova/velha modalidade da rede mostrava o desespero de donos de blogs e sites: “se me seguir ganha ingresso” ou “se  me conseguir mais seguidores também ganha ingresso”. No final, era provável que andando pelas ruas alguém tropeçasse em convites para o evento, por sorte tudo isso já acabou.

E apesar da forte chuva que caiu sobre a capital paulista na terça-feira (30), noite do evento, o show com transmissão ao vivo foi um megasucesso, praticamente 2 milhões de expectadores via internet. O sucesso foi tal que a “hashtag” (ainda não inventaram um nome em português para esse treco) “#YTsertanejolive” ficou durante algumas horas nos TT´s (trending topics) do twitter. Tudo correu como o planejado, e apesar do apresentador Rafinha Bastos fazer piadinhas jocosas com mundo sertanejo o tempo todo, foi um grande momento para a comunidade sertaneja poder se encontrar e assistir a algo inédito.

Para muitas pessoas foi um evento histórico, que será sempre lembrado como um marco para a nossa música. Já para nós, aqui do Blognejo, tudo isso pode ser bem menos “glamouroso” do que parece. O evento foi organizado quase que totalmente pela Sony Music, gravadora que levou para a apresentação as duplas Victor & Leo, João Bosco & Vinicius e Bruno & Marrone. Junto estava a Som Livre, que dispôs de Luan Santana & Michel Teló. A Sony já há algum tempo não está “bem na foto” junto ao público sertanejo, tudo porque andou perseguindo alguns fãs que filmaram seus artistas e colocaram no YouTube e porque não permitia a incorporação de seus vídeos, dificultando ao máximo a difusão de seus contratados através de “pequenos” veículos da internet.

A bendita incorporação funciona mais ou menos assim: quando queremos colocar um vídeo no ar, copiamos um código, colamos no blog e pronto, está feito. Com os vídeos da maioria das gravadoras isso é possivel, inclusive vídeos antigos, mas com os vídeos de artistas da Sony Music isso não pode ser feito. Na maioria das vezes estão todos com a incorporação proibida. Existe solução? Sim: “printar” a imagem do vídeo, recortar, fazer um quadrinho e colar no blog com link para o YouTube. Muita gente faz isso, mas se está proibido, para que se dar ao trabalho?

Se a intenção ao postar um video é apenas divulgar o artista ou sua música, por que  tudo isso? O que  a Sony acha que  um jornalista ou blogueiro  ganha quando posta um vídeo desse ou daquele artista em seu veículo? Nada, porque o interesse está em falar de algo e ilustrar com o vídeo,  somente. Agora, aqui entre nós, o que a gravadora perde com isso? E o artista, o que perde com esta exposição?

O meu derradeiro stress com essa história aconteceu um dia desses, quando procurei um vídeo da dupla Zé Henrique & Gabriel. Queria mostrar aquele belíssimo solo de viola de Zé Henrique na canção  “Franco Atirador”, uma faixa de seu último DVD. Pretendia escrever sobre a grande habilidade do violeiro e seu maravilhoso dom, algo comparável a Eric Clapton ou Carlos Santana (claro, cada um dentro de suas particularidades). Também estava atendendo ao pedido de alguns fãs, que diziam que falamos pouco da dupla. Mas como vou falar de um vídeo se não posso mostrá-lo por que a incorporação está desativada?  Não faz sentido.

Com a claríssima tentativa de convencer os veículos sertanejos da Internet (sites e blogs) a ajudar a divulgar o Youtube Sertanejo Live, de umas semanas pra cá a Sony começou a liberar a incorporação de alguns vídeos de alguns artistas de seus casting. Não sei dizer ao certo de quantos, mas sei que aos poucos os vídeos vêm sendo liberados psra utilização em outros veículos. A tática funcionou. Não o Blognejo (afinal ninguém leu uma linha do YTSL por aqui), mas vários e vários outros sites sortearam e alardearam promoções com ingressos do evento. Longe de nós criticar o trabalho de sites parceiros ou não, mas caíram direitinho no conto da carochinha. Nada impede a Sony de amanhã, já que não precisam mais de nós, voltar a proibir a incorporação de vídeos e fazer alguns blogs e sites ficarem com postagens sem conteúdo em seus respectivos espaços.

Fugindo desta grande armadilha, existem empresários com visão mais apurada, como é o caso da equipe de João Bosco & Vinícius. Depois de produzirem “Chuva”, um grande trabalho que resultou em um lindo videoclipe, mesmo sendo da Sony, colocaram no canal oficial da dupla e autorizaram a incorporação. O resultado foi uma excelente repercussão para a dupla, chegando a estampar páginas de grandes portais sem gastar um centavo em divulgação. Tudo na base do boca a boca e alavancado primeiro pelos veículos sertanejos, nisso incluído o Blognejo.

Outra grande sacada vem da Som Livre e a equipe de Luan Santana, que além de não proibir a incorporação de seus vídeos, ainda criou vídeos demonstrativos das novas canções, aquelas que farão parte do novo DVD. O público aprende a cantar, os responsáveis conseguem sentir a aceitação das canções e ainda por cima minimiza a pressão da mídia em cima do novo trabalho. Perfeito, a tendência é que o resultado final seja um grande sucesso.

Hoje, reclamar da pirataria e dos downloads é uma mania feia das grandes gravadoras, mas no final a culpa é somente delas. Se há 15 anos atrás  não pensassem como ainda pensam hoje e baixassem os preços dos CD´s , que poderiam muito bem custar R$10, como era o sonho de muita gente (inclusive de artistas que nada ganhavam com as vendas), o público teria adquirido o hábito de comprar apenas trabalhos originais e o fortalecimento da internet não acabaria com a indústria fonográfica da maneira como acabou. Talvez o estrago não fosse tão grande, pois ninguém em sã conciência deixaria de comprar um CD original por R$ 10, com excelente qualidade de gravação, fotos, encarte e letras, para comprar um pirata por R$ 5 ( no começo da pirataria um CD chegava a custar R$ 5 e um DVD R$ 10), que muitas vezes não valia nada. Isso sem contar o prazer de comprar um trabalho original e ter a sensação de estar ajudando seu artista favorito. Naquela época também era muito comum se comprar LP´s e CD´s para dar de presente de aniversário, amigo secreto, ou até mesmo colecionar.

Porém o tombo dos anos 2000 parece não ter ensinado direito algumas gravadoras, que insistem na ganância e falta de visão ao pensar que o artista é dela a qualquer custo. Oras, quando criam restrições, ameaçam fãs, proibem uma série de coisas estão jogando contra o próprio patrimônio. Tem direitos? Claro, mas se querem o artista só para elas, então que enfiem no bolso e não os deixem fazer shows, vídeos ou gravar discos. Que sejam contratados apenas para tocar em festas particulares de políticos ou ricos empresários acionistas da gravadora.

A realidade é uma só: por culpa das gravadoras, hoje alguns artistas estão se queimando no meio musical. Outros artistas estão em pior situação, pra não dizer em estado vegetativo, como é o caso de Zé Henrique & Gabriel na Sony, o que é uma pena. E aí não tem YouTube Sertanejo Live e nem Google que dê jeito. Fica a torcida para que os empresários e os próprios artistas acordem e negociem melhor a gestão de suas carreiras, afinal, vender a alma ao diabo em troca de um pífio investimento nem sempre vale a pena. O castigo pode ser o esquecimento eterno ou até a morte gradativa de suas carreiras.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.