11 mai 2011 | Artigos,Notícias
Uma história para contar…

Quando completei 12 anos arrumei meu primeiro emprego – era em uma pequena quitanda que foi aberta quase em frente à minha casa. Após o colégio eu corria para lá e fazia de tudo um pouco: atendia os clientes, repunha mercadorias, varria o chão. O modesto comércio com poucos dias já dava sinais de que seria um razoável negócio. Com pouco  menos de um mês de trabalho recebi meu primeiro ordenado e, sentindo-me um homem, fui sozinho até uma loja de discos e comprei o LP “Cadê Você” de Leandro & Leonardo. O disco me custou o salário todo, mas valeu a pena – a dupla estava com pelo menos quatro músicas nas paradas de sucesso: “Pense em Mim”, “Talismã”, “Desculpe mas eu vou chorar” e “Cadê Você”, que era a minha preferida.

O proprietário da quitandinha, Sr. Francisco, era um homem de quase 40 anos e integrava um trio sertanejo, com quem fazia apresentações em bares aos finais de semana. Sua referência, claro, era o Trio Parada Dura, mas acabavam tocando músicas de outros artistas. Às vezes o trio vinha ensaiar nos fundos da quitanda e eu ficava extasiado com tudo aquilo, que era muito novo para mim.

Foi justamente nesta época que se mudou para perto da minha casa um menino de quem logo me tornei amigo. A família vinha de São José dos Campos mas era de Minas, e, como bons mineiros, a música sertaneja corria solta nas veias. Com 13 anos, além de tocar violão, meu novo amigo tinha uma bateria velha, que lhe valeu um convite para tocar com o trio em troca de algum dinheiro. Aproveitando o embalo eu passei a acompanhar o grupo e naquele ano, por tabela, acabei conhecendo a noite em quase todas as suas “facetas”.

A aventura tinha o seu lado bom: eu ajudava a carregar e montar os equipamentos, participava da escolha do repertório, as vezes dava pitaco nas composições, era assediado pelas mulheres da balada e ainda ganhava um trocadinho. Mas também tinha o lado ruim: não ganhar nada quando os músicos não recebiam, dormir parte da noite debruçado sobre a mesa do bar, ver pessoas usando droga indiscriminadamente, me esconder de brigas e garrafadas e ainda presenciar um assassinato. As noitadas duraram pouco menos de seis meses e eu já me sentia um artista, até que depois desses apuros alguém achou que era arriscada demais a nossa presença ali, então fomos cortados do time. Eu e meu amigo baterista.

O fim da aventura fortaleceu nossa amizade, aos poucos percebemos que dois garotos tocando violão e cantando sertanejo agradava as pessoas. Passamos então a frequentar locais específicos, como a Casa do Violeiro do Brasil, que ficava na minha cidade mesmo, Osasco/SP. A “dupla” evoluía bem, participamos de um festival na escola cantando “Brincar de Ser Feliz” e ficamos em segundo. Por quase um ano tocamos em festinhas de aniversário e churrascos em casas de parentes. Até que a família do meu parceiro decidiu voltar para a cidade de origem, naquele dia eu perdi um amigo, um parceiro e um irmão. Por tabela acabei perdendo também minha diversão, que era cantar.

Depois disso, minha família também se mudou, fomos para outra casa, em outra cidade. Novos amigos, novas descobertas e muita rebeldia adolescente. Os anos 1990 haviam trazido em sua bagagem o fortalecimento da globalização, a MTV crescia assustadoramente desde o começo da década e tentava a todo custo esmagar a cultura regional. Naquele momento, sob influência externa, eu já não queria mais ser caipira.

O ritmo das músicas do movimento grunge, surgido em Seattle, Estados Unidos, poucos anos antes, pareciam fazer muito mais sentido. Bandas como Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam, Stone Temple Pilots e festivais como Hollywood Rock e Monsters of Rock passaram a fazer parte das minha nova vida. Foi um período de longos cabelos, camisas de flanela xadrez, calças rasgadas e skate. Falar em sertanejo era pedir para ser discriminado, mesmo estando a música em sua melhor fase . O preconceito naquele tempo era ainda pior do que o de hoje, e tudo o que eu queria era ser aceito em um novo grupo.

Apesar dos artistas sertanejos ignorarem esse preconceito e voarem cada vez mais alto, minha vida havia mudado. Eu não ia bem na escola e as coisas em casa iam de mal a pior, naquele momento eu já não tinha mais a mínima idéia de quem eu era. Foi um período em que eu me afastei das minhas raízes e que quase perdi a minha própria identidade.

Continua…

21 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.