06 abr 2011 | Artigos,Lançamentos
Uma nova troca de poderes?
Definitivamente, vídeos em HD e Internet Banda Larga 3G são como água e óleo: não se misturam. Estou desde segunda-feira tentando upar o vídeo com a cobertura do Curitiba Country Festival, mas infelizmente ainda não tive sucesso. Duas tentativas que falharam após 8 horas de Upload. Eu sei, dá vontade até de cortar os pulsos quando isso acontece, mas continuamos aqui tentando. Se Deus quiser de hoje não passa. Enquanto isso, fiquem com mais um de nossos textos.

A cada novo ciclo da música sertaneja, há uma troca necessária e inevitável de poderes entre artistas. Os veteranos involuntariamente cedem espaço aos novatos, que depois de anos se tornam veteranos e cedem espaço a outros novatos que eventualmente vão aparecendo. Essa cessão de espaço na verdade é uma substituição junto ao gosto e clamor popular. A cada época, um determinado grupo de artistas predomina. Isso é natural. Quando chega a época da troca de poderes, ela inevitavelmente acaba acontecendo, mesmo com choro e ranger de dentes.

A cada nova troca de poderes, ou passagem de bastão, o artista “cedente” pode ser contemplado com duas coisas: ou ele eleva seu status e se consagra definitivamente, livrando-se do ostracismo, ou ele vai pro limbo, ficando eternamente sujeito ao apontar de dedos de uma galera maldosa, geralmente acompanhado de palavras como: “aquele cara nunca chegou lá…”. O mega sucesso numa determinada época nem sempre leva à definitiva consagração. Às vezes o cara deixa de fazer parte do grupo dominante tão rápido quanto quando começou a fazer. Além disso, dentro de cada ciclo, é bem clara a existência de subciclos, que são a grosso modo a engrenagem que ajuda a moldar o ciclo principal do qual fazem parte.

Vamos citar exemplos práticos de como isso acontece, em ordem cronológica, para que fique mais fácil a compreensão dessa loucura que eu me atrevi a iniciar. Pelo menos de acordo com os ciclos que eu percebo claramente terem sido a engrenagem da música sertaneja nos últimos 36 anos. Entre 1975 e 1990, por exemplo, tínhamos uma certa predominância de artistas como Milionário & José Rico, Chitãozinho & Xororó, João Mineiro & Marciano,Trio Parada Dura, e alguns outros em menor escala (Chrystian & Ralf e Matogrosso & Mathias, por exemplo). Em meados de 1990, no entanto, aconteceu a tal passagem de bastão, a tal troca de poderes. Na verdade, a mesma coisa tinha acontecido antes para que estes artistas mencionados pudessem passar a dominar o mercado.

Nesta troca de poderes de meados de 1990, Chitãozinho & Xororó conseguiram se adaptar e mudar de “geração”. Se tivessem mantido a mesma estratégia de trabalho, provavelmente não teriam entrado na década de 1990 ainda como uma das duplas mais populares do Brasil. Milionário & José Rico passaram a não mais fazer parte do grupo dominante, mas no entanto subiram de nível. Continuaram com uma agenda consistente e com o respeito da classe. Já João Mineiro & Marciano encerraram as atividades e o Trio Parada Dura ficou apenas com o respeito da classe e o status “cult”, mas o sucesso definitivamente nunca foi o mesmo de outrora.

Entre 1975 e 1990 percebem-se dois subciclos: a fase inicial, com Milionário & José Rico e Chitãozinho & Xororó dominantes (o que se consolidou com os sucessos da música “Fio de Cabelo” e do filme “Estrada da Vida”) e, logo depois, a saudável disputa entre Chitaozinho & Xororó e João Mineiro & Marciano pelo posto de principal dupla sertaneja da época (o que rendeu inclusive uma matéria na revista Veja na época).

Após essa época, entra outro grupo dominante. Entre 1990 e 2005 temos como artistas dominantes: Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo (e depois somente o Leonardo), Chrystian & Ralf, Gian & Giovani, João Paulo & Daniel (e depois só o Daniel), Rionegro & Solimões, Bruno & Marrone e Edson & Hudson. Talvez a partir de Bruno & Marrone poderíamos até pensar num novo ciclo em formação, mas o fato é que Bruno & Marrone e Edson & Hudson ainda seguiam uma linha que os credenciava a fazer parte deste grupo, já que o próximo que surgiria seria completamente diferente.

Nessa fase, os subciclos são mais evidentes. O primeiro, óbvio, é a ascensão de Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo. Depois, temos o sucesso da dupla João Paulo & Daniel, abruptamente interrompido. Continuando, temos o crescimento de Rionegro & Solimões e, para encerrar o ciclo, a explosão da dupla Bruno & Marrone. E também acho que é meio óbvio quais artistas se deram bem e quais não se deram.

Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Daniel e Zezé & Luciano conseguiram atingir o nível que Milionário & José Rico haviam atingido na troca de poderes de meados de 1990. Não estão na boca da galera e nem na crista da onda, mas ainda contam com uma agenda consistente e o respeito absoluto da classe sertaneja. Zezé di Camargo & Luciano, aliás, são os que mais relutam em aceitar a situação e perceber que subiram de nível e não deveriam tanto se preocupar com o que o mercado atual apresenta.

Já Rionegro & Solimões, Gian & Giovani e Chrystian & Ralf passaram a fazer parte do rol de artistas que gozam de respeito e têm um público fiel, mas que estão longe de fazerem parte do grupo dominante. Edson & Hudson, enfim, não existem mais como dupla. A única dupla dessa fase que parece ainda ter chances de conseguir o que Chitãozinho & Xororó conseguiram na troca anterior de poderes é Bruno & Marrone. Primeiro porque são meio que o marco inicial da mais recente passagem de bastão. A troca não aconteceu definitivamente com o estouro deles em 2001, mas foi ali que ela começou a ganhar contornos definitivos, para ser iniciada com mais segurança em meados de 2005. Segundo, porque se preocupam em se adaptar ao mercado, apesar das constantes barcas furadas nas quais têm entrado na tentativa de se mostrarem modernos.

A partir de 2005, uma nova ordem sertaneja começou a ser desenhada. De lá pra cá, temos como grupo dominante: César Menotti & Fabiano, Victor & Leo, Jorge & Mateus, João Bosco & Vinícius, Fernando & Sorocaba, Eduardo Costa, Grupo Tradição, Luan Santana, Maria Cecília & Rodolfo e, mais recentemente, Paula Fernandes, Michel Teló e Guilherme & Santiago, que passaram pelo ciclo anterior como coadjuvantes e surpreenderam todos ao conquistar um considerável espaço de um ano pra cá. O que se vê atualmente, no entanto, é uma nova ordem sertaneja prestes a ser formada. Entre essas duplas e artistas mencionados, alguns vão, como outros mencionados anteriormente, subir de nível e gozar de eterno prestígio e consagração. Outros parecem caminhar para uma fase de queda. Na verdade é cedo para afirmar com certeza quem vai subir e quem vai descer.

A nova ordem sertaneja que parece estar se formando, se levarmos em conta os comentários de bastidores, o interesse do público e outros fatores, inclui artistas que até então não tinham tanto apelo popular, mas que agora parecem estar começando a conquistar um espaço considerável. Alguns nem são conhecidos ainda, mas a aposta neles é alta. Na verdade ainda não se trata de uma nova troca de poderes, já que os escritórios, managers e empresários são em regra os mesmos dos outros que dominam o mercado atualmente. Somente os artistas é que parecem estar sendo “substituídos”, com o perdão da expressão. Aliás, em alguns casos os próprios empresários, managers e apoiadores, mesmo trabalhando com artistas diferentes, têm se unido em prol de interesses em comum, a fim de fazer o sucesso de novos artistas.

A turma responsável por Jorge & Mateus e Maria Cecília & Rodolfo, por exemplo, tem aberto espaço para apostas como Gusttavo Lima, Humberto & Ronaldo e Munhoz & Mariano. A equipe “Fernando & Sorocaba”, que já tinha auxiliado o Luan Santana a chegar onde chegou, agora se volta para Henrique & Diego. A própria equipe do Luan agora também volta os olhos para novos artistas. Fecharam contrato com a dupla Conrado & Aleksandro. A turma da dupla Victor & Leo está totalmente focada na dupla Fred & Gustavo. Bruninho & Davi estão contando com o apoio de empresários envolvidos com João Bosco & Vinícius, Michel Teló e Jorge & Mateus. E Kleo Dibah & Rafael são a nova aposta do empresário que ajudou César Menotti & Fabiano a chegarem aonde chegaram e ainda contam com o apoio de profissionais envolvidos com João Bosco & Vinícius. E olha que ainda têm muitos outros que prometem fazer um barulho considerável nos próximos tempos, como Marcos & Belutti, Jean & Jullio, João Carreiro & Capataz e muitos outros…

Deu pra entender a salada? Às vezes um mesmo artista conta com dois, três empresários que às vezes também têm outros interesses em vista e, mesmo continuando sócios naquele determinado projeto, não necessariamente se unem em prol de um novo projeto. Munhoz & Mariano têm um empresário em comum com Maria & Cecília & Rofoldo, mas não tem com Jorge & Mateus, por exemplo. O que eu quero dizer é que, ao que parece, uma nova ordem está sendo formada. Novos artistas serão lançados com toda a pompa nos próximos meses e a tendência é que alguns artistas que estão no mercado comecem inevitavelmente a perder espaço. Outros da atualidade, em contrapartida, serão alçados ao status de estrelas. Mas isso só poderá ser objeto de tese quando o ciclo terminar. Seguindo a ordem natural das coisas, geralmente são 15 anos, ou seja, provavelmente vamos presenciar muitos e muitos subciclos até 2020, hehe. Pelo jeito ainda passaremos longos 9 anos aturando a reclamação daqueles que ainda estão parados na troca de poderes de 1990…

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.