20 out 2008 | Lançamentos
VICTOR & LÉO – BORBOLETAS
Preparem-se. O texto é longo.



O nosso blog sempre teve como característica a imparcialidade. Sempre fizemos questão de esmiuçar o máximo possível as características de cada trabalho analisado, não se importando se determinadas declarações podem ou não ferir o ego de algum dos artistas cujos trabalhos já passaram por essa análise. Hoje, em especial, quero deixar isso o mais claro possível, haja vista que Victor & Leo, na medida em que chegaram ao posto de dupla mais popular da atualidade, também geraram, devido a impressões deixadas em vista das atitudes da dupla, sentimentos diversos. Em vários posts do nosso blog eu deixei a impressão de que não gostava do trabalho de Victor & Leo. Em outros, no entanto, eu já parecia amar. Lembrando que não sou um expert, apenas quero deixar as impressões sobre o CD na condição de amante da música sertaneja. Então, se parecer que estou puxando o saco, não é proposital.



Deixa eu me explicar melhor. É fato que Victor & Leo são a dupla mais talentosa que surgiu não só na nova fase da música sertaneja, mas em muitos anos de história do segmento. Há tempos não se via um compositor com uma capacidade tão grande de criar canções de sucesso. Não se tem notícia de nenhuma dupla das antigas com controle total sobre o próprio trabalho. Antes de Victor & Leo, o que havia era a divisão de um trabalho em várias fases, controladas por várias pessoas diferentes. Existia a figura do compositor, do cantor, do produtor, dos músicos que gravavam e dos músicos que trabalhavam com os cantores nos shows. Um CD era feito, portanto, por diversas pessoas, sem que cada uma necessariamente concordasse com o método de trabalho da outra. De uns três ou quatro anos pra cá, esse cenário foi mudando e cada vez mais o artista passou a se interessar e a controlar mais as outras etapas da produção de seu trabalho. Primeiro, notou-se uma tendência de aproximação entre o artista e a composição das próprias músicas, o que é natural. Depois, o artista passou a querer produzir o próprio trabalho. Victor & Léo são a consolidação desse novo método de trabalho, pois controlam todas as etapas de produção.



Ao assistir o documentário sobre Victor & Leo para o lançamento da dupla no México, fiquei surpreso ao ver trechos dos shows antigos da dupla e notar a presença de quase todos os músicos que acompanham a dupla até hoje. Ou seja, os músicos da época das vacas magras ainda estão com eles. Aparentemente, só o percussionista mudou. Isso é incomum no meio sertanejo. A lealdade de um cantor com sua banda era tão válida quanto uma nota de três reais. Mais um aspecto que tem se fortalecido no contexto atual. Não convém mais pagar fortunas para músicos consagrados enquanto se pode encontrar pessoas de talento nos lugares mais improváveis e treiná-las de modo a torná-las elemento importante do seu estilo.



Por terem demorado quase 15 anos para chegarem ao sucesso que eles almejavam, creio que Victor & Leo se sentem um tanto calejados. Na cabeça dos dois, um pensamento deve predominar: “ Vamos dar valor a quem nos deu valor. Vamos construir nossos próprios caminhos, nosso próprio estilo. Ninguém precisa nos dizer o que fazer.” O sentimento meio contrário que algumas pessoas nutrem com relação a Victor & Leo existe porque eles fazem questão de mostrar a Deus e o mundo que não precisam de ninguém. Nisso, Victor & Leo seguem mais ou menos o exemplo de Chrystian & Ralf, que também trilharam seu próprio caminho sem ligar para os outros.



Ontem, eles estiveram no palco do Faustão, com direito a rasgação de seda de ambos os lados. Uma das frases do Faustão descreveu exatamente o ponto no qual eu quero chegar. “Victor & Léo são uma das duplas mais consistentes da nova safra de artistas sertanejos.” Ele não exagerou nem um pouco em sua afirmação. Eles são realmente um resumo do que a música sertaneja tem de bom para oferecer. As maiores críticas dos profissionais da música contra os sertanejos giram em torno das características mercadológicas do estilo. Nos anos 90, a música sertaneja era feita para dar dinheiro, acima de tudo. Qualidade não era o principal objetivo, apesar do talento dos cantores, que era fenomenal.



O diferencial de Victor & Leo é o fato de que eles não fazem músicas boas para serem sucesso, mas são sucesso porque fizeram músicas boas. Os próprios dizem pra quem quiser ouvir que jamais esperavam alcançar tamanho sucesso com aquele CD simplesinho feito ainda em São Paulo.



Com relação ao novo CD, pode-se dizer que ele é a consolidação de um trabalho consistente, baseado em talento e capacidade criativa. São doze canções, sendo que três delas já haviam sido gravadas anteriormente pela dupla. Todas são assinadas pelo Victor. Apenas três contaram com a participação do Léo na composição. Arranjos, produção e todo o resto ficou por conta dos dois, creio que mais o Victor que o Léo. Os músicos que gravaram as canções são os mesmos que eu mencionei, ou seja, a própria banda da dupla. O baixista, Ivan Corrêa, também assina a produção do CD em parceria com os dois.



Sobre as canções, não há o que se dizer. Victor & Léo criaram um estilo singular, baseado em canções com melodias suaves e letras melosas, mas inteligentes. Além das canções que remetem ao campo, outra característica que a dupla abraçou e renovou. Nas músicas de Victor & Léo, o violão é conduzido de uma forma “errada”, mas incrível. O Victor parece sempre estar improvisando, porque cria arranjos utilizando técnicas que não podem ser aprendidas na escola. O violão parece falar. E ele ainda toma o cuidado de inserir os outros instrumentos para complementar os arranjos e não solarem ao mesmo tempo, como é comum na música sertaneja. Com o acordeon, acontece quase a mesma coisa. O timbre de acordeon que a dupla insere em suas canções é único. Nenhum outro artista consegue inserir um timbre romântico de forma tão precisa e agradável quanto a dupla.



Sobre o repertório escolhido, achei apenas que poderia ser maior. 12 músicas é muito pouco, ainda mais quando uma delas já estava no último CD (“Tem que ser você”, na versão gravada para a novela das oito). Além disso, eles optaram por regravar duas canções que estavam presentes em outros trabalhos da dupla. São as faixas “Tanta solidão” e “Deus e eu no sertão”. Essa última, aliás, é provavelmente a música preferida da dupla, já que é a terceira vez que eles a gravam. No primeiro CD, de 2002, eles já a haviam gravado e depois, de novo, em 2004. Das outras canções, é meio complicado escolher as melhores. São todas muito boas, realmente.



500 mil cópias vendidas do último trabalho e 700 mil em toda a carreira, que começou pra valer não faz nem dois anos. Esses são os números da carreira de Victor & Léo. Quantos outros maravilhosos artistas não estão desperdiçados em bares e casas noturnas de cidades que não os dão o devido valor? Até dois anos e meio atrás, Victor & Léo eram mais dois cantores de boteco esperando pra alcançar um lugar ao sol. Tem sempre alguém lá em cima conspirando para que os talentosos se sobressaiam. E hoje eu digo sem medo de parecer muito puxa-saco: Victor & Leo podem, daqui a alguns anos, ser considerados os caras que mudaram a música sertaneja para melhor. Eles criaram um estilo novo dentro da música sertaneja. Isso mostra que um cantor sertanejo pode muito bem ter o que todos os que torcem o nariz consideravam impossível: identidade.



Nota: 9,5
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.