A amarga dissolução de um império?

Houve um tempo em que Hamilton Régis Policastro era sinônimo de competência em negócios artísticos. O homem que, segundo reza a lenda, pegou sua bicicleta e foi até um local onde se apresentava a dupla João Paulo & Daniel, ainda bem no início da carreira, para convencê-los a aceitá-lo como empresário, amargou em pouco mais de um ano duas humilhações públicas que, se já não o fizeram, ameaçam ruir de vez o grande império artístico-empresarial erguido por ele. Em 2009 foi o Daniel. E agora, em 2011, Guilherme & Santiago também aunciam publicamente a dispensa do empresário.

Hamilton Régis Policastro ficou conhecido por ter ajudado no crescimento da dupla João Paulo & Daniel, a primeira que ele empresariou. Essa história da bicicleta é conhecida. O Hamilton permaneceu com a dupla durante praticamente toda a sua existência e, depois, continuou com o Daniel quando o João Paulo faleceu. Foram, no total, mais de 20 anos de parceria e cumplicidade que ajudaram a construir uma marca fortíssima no segmento sertanejo: a HRP Promoções Artísticas. Por muito tempo, esta logomarca foi praticamente um selo de qualidade artística, que praticamente garantia o alto nível de um trabalho ou de um artista:

O carro-chefe da HRP sempre foi a dupla João Paulo & Daniel. Depois da morte do João Paulo, no entanto, o Hamilton bem que tentou emplacar uma outra dupla em seu casting, que até então contava com um único artista, mas de muito sucesso. Rick & Renner integraram o rol de artistas da empresa por um tempinho, até passarem, pouco tempo depois, a ter o Manoel Nenzinho Pinto, que já trabalhava e mantinha amizade com a dupla desde o início da carreira, como empresário. Até aí tudo bem, afinal essa troca de empresários pareceu apenas uma cordialidade de profissionais já acostumados a trabalhar juntos. O Manoel era compositor de vários sucessos do Daniel, afinal de contas.

A HRP continuou com o bom trabalho. Passou, inclusive, a buscar novas opções artísticas e não se preocupar apenas com o Daniel, que praticamente já se vendia sozinho e não necessitava mais de tanta atenção do empresário. Foi nesse meio tempo que assinou contrato com duplas como Guilherme & Santiago e Hugo & Tiago, além de artistas como Maurício Manieri, que representou a primeira tentativa da HRP de se desvencilhar um pouco da música sertaneja.

Enquanto o método de trabalho na música sertaneja foi ditado pela “velha guarda”, a HRP se deu muito bem. Prova disso é o fato de o Daniel ter conquistado o posto de astro da música, reconhecido como um dos maiores intérpretes brasileiros, não só na música sertaneja. É de fato um dos artistas mais amados e admirados do Brasil, tanto pelo talento quanto pela forma de trabalhar, com extremo profissionalismo. Mas da metade da década de 2000 para a frente, a HRP pareceu sentir os efeitos da mudança de panorama na música sertaneja.

Foi nesse período que a música sertaneja se tornou música para jovens e não mais a velha música romântica e conservadora da década de 90. Obviamente não dava para exigir dos artistas veteranos que se transfigurassem em algo que não eram apenas para agradar o mercado. Mesmo porque o Daniel, por exemplo, não precisava nem se preocupar em agradar essa nova fatia de mercado. Sua carreira já estava consolidada, ora bolas. Sendo assim, ou a HRP deixaria essa fatia de lado e continuaria se focando apenas com o lado conservador do mercado (e sentiria, claro, as consequências dessa opção) ou procuraria se adequar aos novos rumos da música sertaneja. Para isso, contavam com as duas duplas mencionadas anteriomente. Guilherme & Santiago, apesar de veteranos, eram muito bem aceitos pelo público jovem.

Com o mercado de shows já não mais tão aberto a um artista como o Daniel, que virou praticamente um artista cult dentro da música sertaneja, começaram a explorar outros talentos até então desconhecidos do moço de Brotas. Daniel foi convidado e aceitou atuar em um filme e uma novela. Mas no mesmo ano, não se sabe se justamente por essa busca de outras opções de trabalho, ou se por um distanciamento natural entre artista e empresário, ou se por ciúmes dos outros artistas do mesmo escritório, algo aconteceu. E algo sério.

No final de 2009, o Daniel soltou uma nota pública declarando-se independente e dispensando Hamilton Régis Policastro da administração de sua carreira. Para quem não se lembra da nota, clique AQUI para lê-la. A nota causou alvoroço no meio artístico. Afinal, Daniel era um artista discretíssimo e não era esperado que uma desavença entre ele e seu empresário fosse tornada pública de forma tão escancarada. O teor da nota acabou provocando uma reação da HRP, que soltou pouco tempo depois uma outra nota, alegando tanto desconhecimento dos motivos que levaram o Daniel a tomar tal decisão quanto todos os que receberam a nota anteriormente divulgada. Clique AQUI para ler a resposta do Hamilton.

Apesar da forma com que se deu a dissolução dessa histórica parceria, o Hamilton continuou focado em seu trabalho empresarial e a dupla Guilherme & Santiago saiu, a bem da verdade, beneficiada com a saída do Daniel do escritório. Se tornaram o carro-chefe da HRP. O resultado? Em 2010 a dupla foi uma das que melhor se saiu no mercado, com um disco muitíssimo bem aceito, músicas tocadas à exaustão em rádios, e que fizeram muitíssimo sucesso junto ao público jovem que até então o Hamilton ainda não tinha enxergado de forma precisa.

Eis que, no entanto, outra humilhação pública deixa todo mundo, de novo, praticamente em estado de choque. Guilherme & Santiago, repetindo o gesto do Daniel pouco mais de um ano antes, divulgam uma nota oficial, também dispensando os serviços da HRP e deixando o mercado, de novo, em dúvida quanto aos métodos de trabalho até então utilizados pelo Hamilton. Para quem não sabe ainda do que se trata, clique AQUI e leia a nota divulgada ontem pela dupla.

Mais uma vez o mercado questiona os motivos para uma atitude tão extrema. Anunciar publicamente a dispensa de um empresário é no mínimo humilhante, não para o artista, mas para o próprio empresário. É provável que, de novo, pouca gente realmente saiba do que realmente aconteceu por trás das cortinas. Afinal não lembro de ver um empresário respeitado sendo dispensado publicamente duas vezes em pouco mais de um ano. Ninguém está entendendo nada e é provável que tenha muita coisa podre por baixo desse tapete que pouquíssima gente saiba. O que não dá para negar é que um império está ruindo, sem sombra de dúvida.