A ARTE DE ENGANAR O PÚBLICO – Compositores que não compõem

A ARTE DE ENGANAR O PÚBLICO – Compositores que não compõem

Sou fã de novelas, confesso. E atualmente tenho acompanhado com afinco as novelas das 19:00 hs e das 21:00 hs. O capítulo de ontem da novela das 19:00 hs, “Cheias de Charme”, em especial, atentou o público a um tema que, coincidentemente, estava na pauta para os próximos dias aqui no Blognejo. A jovem cantora e compositora Rosário, personagem de Leandra Leal, assinou um contrato de cessão de direitos de uma canção que ela compusera, tudo isso em benefício da estrela do eletro-forró Cheyenne, personagem de Cláudia Abreu, que passaria então a ser a única compositora reconhecida da canção e gozaria de todos os direitos dali decorrentes, principalmente direitos autorais. Rosário aceitou o contrato mediante o pagamento da quantia de 10 mil reais, que é o valor que ela precisava para pagar a operação do pai, que convalesce no hospital depois de um ataque cardíaco. Coisas de novela. Mas confesso que nunca vi tal assunto ser tratado com tanta naturalidade e realismo, mesmo numa novela satírica.

A prática de cessão de direitos de uma música é uma das mais comuns no universo da música sertaneja. Consiste em permitir que outra pessoa assuma a autoria e todos os benefícios provenientes da autoria da canção, como o direito de gravar ou autorizar a sua gravação, bem como os direitos autorais que serão recolhidos a partir de então. Trata-se, na prática, de um compositor que na verdade não compôs a música, mas que ainda assim goza de todos os benefícios de sua composição, como se fosse ele o verdadeiro autor.

Como eu disse, é uma prática muito comum no mercado sertanejo. Além disso, não é uma prática ilegal quando baseada num contrato assinado pelo real compositor da música. Mas apesar de corriqueira e legal, essa obviamente não é uma prática aceitável pela opinião pública. Imaginem um compositor simplesmente assumindo que não compôs determinada música, mas que tem o direito, por contrato, a tudo o que a música render. O verdadeiro compositor da música sempre vai ser considerado o coitadinho, a vítima, o oprimido. E o compositor beneficiado pela cessão de direitos passa automaticamente a ser considerado o vilão da história toda.

Por ser uma prática altamente mal vista pelo público, os seus adeptos costumam manter suas ações sempre em segredo. O mais comum em situações assim é a pessoa receber ou descobrir determinada música de um simplório compositor e, aproveitando de sua ingenuidade e inexperiência, propôr a cessão de direitos como se aquilo fosse representar um enorme benefício para o real compositor. O pobrezinho acaba aceitando o contrato simplesmente por achar que não vai conseguir fazer a música chegar aonde ele quer que ela chegue por conta própria ou por precisar de dinheiro, o que realmente é compreensível.

Geralmente, o compositor que cai nesse tipo de “armadilha” e cede os direitos de uma boa música por alguns trocados é sempre inexperiente, ingênuo e simplório. E a proposta geralmente vai de encontro à necessidade do cidadão. O cara precisa da grana e acaba aceitando o acordo. Assim como aconteceu na novela. Como culpar a pessoa? Cada um sabe onde a corda aperta.

E realmente é muito complicado furar a barreira para conseguir levar uma canção ao conhecimento de um artista. A maioria dos artistas costuma gravar canções de parceiros habituais ou costuma pegar canções com editoras que nem sempre aceitam canções de compositores desconhecidos. Eu particularmente custo a acreditar que entregar um disco com composições próprias nas mãos de um artista, sendo o compositor um ilustre desconhecido, adiante de alguma coisa. E justamente por conta da falta de oportunidade, o compositor acaba entrando nessa de ceder os direitos.

Em alguns casos um pouco mais extremos, adeptos da cessão de direitos costumam ter profissionais à disposição o tempo todo. Explicando: o cara que assina diversas canções pode às vezes pegar músicas sempre com uma mesma pessoa. Se brincar, rola até salário ao invés de pagamento por canção. E o real compositor, descrente quanto à possibilidade de fazer sucesso por conta própria e precisando do salário, aceita essa situação.

Algumas práticas podem ser consideradas subsidiárias da cessão de direitos. A concessão da parceria na autoria, por exemplo. Muitas vezes, uma música que conta com mais de um compositor nem sempre foi composta por todos aqueles que aparecem na lista de autores. Alguns artistas, aliás, só gravam canções cujos compositores aceitaram conceder a parceria na autoria das mesmas aos próprios. E isso não é de hoje, já é uma prática antiquíssima, assim como a cessão de direitos propriamente dita. Nesse caso, o real compositor cede parte dos direitos e não os mesmos de forma integral.

Por que, afinal, isso acontece? Por que algumas pessoas aceitam ceder o seu próprio trabalho a outras e por que essas outras agem com tanto descaramento, assinando canções que não foram compostas por elas? Ora, a música vai gerar, a partir do momento de sua composição, diversos benefícios. O mais evidente são os direitos autorais a serem recolhidos pelo ECAD. O “investimento” na compra da música vai gerar muitos lucros posteriormente. O pobre coitado do compositor verdadeiro ou desconhece todos esses benefícios ou simplesmente prefere passar adiante a canção em troca de grana por não conseguir fazê-la alcançar o objetivo esperado ou por não acreditar no potencial da mesma.

Nem todas as músicas, enfim, foram compostas por quem o encarte do disco ou o ECAD diz que foi. Boa parte delas vem da cabeça de outras pessoas e isso é muito mais comum do que se imagina. Grandes compositores da história da música sertaneja são adeptos dessa prática. E o público, mais uma vez, é quem mais se ilude com informações falsas divulgadas pelos artistas e/ou compositores. Ainda bem que isso não acontece com todo mundo. Mas a lista de adeptos é bem grande. E como é…

Em tempo: a lista de semelhanças dos elementos da novela “Cheias de Charme” com os do mundo sertanejo não pára por aí. Em breve, um TOP FIVE apontando e destrinchando algumas destas interessantes coincidências.