A música estoura, o artista não

A música estoura, o artista não

Estamos vivendo novos tempos, como já cansamos de dizer. Entre as diversas novas situações que se apresentam no segmento sertanejo, uma delas chama bastante a atenção. Hoje em dia, ao contrário do que acontecia há alguns anos atrás, vivemos uma situação onde novos artistas surgem a cada semana, com novas canções, que muitas vezes alcançam um sucesso estrondoso, ultrapassando rapidamente o próprio artista que a interpreta. São poucos os casos onde o artista consegue aproveitar o sucesso da sua música para transformá-lo em seu próprio sucesso. E essa corrida do artista para colher o máximo da exposição possível, proporcionada pelo sucesso da música, está cada vez mais complicada.

Essa sempre foi a ordem natural das coisas. Uma música estoura e, com isso, o artista que a gravou. Até alguns anos atrás, isso era aparentemente fácil. “Fio de Cabelo”, há 30 anos, proporcionou o estouro da dupla Chitãozinho & Xororó. “É o amor”, no início dos anos 90, fez o mesmo por Zezé di Camargo & Luciano. E em 2001, a releitura de “Dormi na praça” catapultou a dupla Bruno & Marrone ao sucesso. Hoje em dia, entretanto, as coisas parecem ser muito mais complicadas. Cada vez mais testemunhamos o estouro de músicas sem que os próprios artistas que as interpretam consigam viver a mesma situação.

Aparentemente, um dos principais motivos para a ocorrência desse tipo de situação é a quantidade de novos artistas. Se já é complicado para um fã de música sertaneja decorar e conhecer cada artista novo que surge praticamente toda semana no cenário musical, imagina para os leigos, ou para o público em geral. Porque, óbvio, nem todo mundo é fã apenas de música sertaneja. As músicas, ao contrário dos artistas, caem muito mais facilmente no gosto popular.

O primeiro dos contratempos ocasionados pelo estouro da música alheio ao estouro do artista é a dificuldade em firmar uma agenda de shows consistente e lucrativa. Mesmo com uma música estourada, é complicadíssimo convencer um contratante a fechar um show com determinado cantor ou dupla sem que a imagem do mesmo seja tão conhecida quanto. Na maioria dos casos, a dúvida é: será que o artista consegue segurar um show inteiro com base apenas em uma música?

Sem falar, claro, no valor do show. Muitas vezes, o artista que consegue emplacar uma música acaba inflacionando o valor do show antes de fortalecer a sua imagem. Nada afasta mais os contratantes e parceiros do que uma atitude dessas. Não adianta querer vender um show no qual apenas uma das músicas é conhecida pelo mesmo valor que artistas com anos de estrada ou com ampla aceitação popular.

Outro problema acaba sendo ainda mais desesperador. Um artista que estoura uma música e não consegue acompanhar seu sucesso de maneira imediata acaba se vendo obrigado a conseguir outro megahit para fazer sequência ao sucesso do anterior. Na verdade isso é tema de diversas conversas de bastidores. “Fulano tá estourado, mas acho difícil ele conseguir uma música pra continuar” e bla bla bla. Ouve-se isso todo dia no meio sertanejo. Acaba se tornando uma obrigação, uma lei. “Beleza, você estourou, agora tem que continuar estourado, senão tá ferrado”. Por isso, o repertório acaba sendo a principal preocupação em casos como esses.

Qual a solução para o problema? Ora, antes de qualquer coisa, trabalhar a imagem do artista à exaustão, até que ninguém mais aguente ver a fuça do caboclo nos programas de TV ou páginas de revistas e sites. Esse tipo de procedimento já era necessário mesmo antes do artista emplacar uma música. Quando ele emplaca a música, então, aí sim isso se torna essencial. Ora, imagina se toda propaganda de show do cara tiver que vir acompanhada de um slogan como “o dono da música ‘tal'”. Apesar de funcionar, a princípio, eu vejo isso muito mais como uma grande queimação de filme. Um artista deveria ser um chamariz para o público apenas com o seu nome e não com uma música que ele canta e que está fazendo sucesso.

É nesse momento que, pelo menos a meu ver, se faz mais do que necessário o trabalho de uma assessoria de imprensa competente. Quando uma música estoura, o artista precisa logo associar a sua imagem a ela antes que a mesma caia no esquecimento. A assessoria de imprensa, que muitas vezes acaba sendo considerada essencial apenas pelos artistas em início de carreira, é quem vai empurrar a imagem do artista goela abaixo nos veículos de mídia em geral. Por mais chato que pareça, isso acaba se tornando essencial. Sem contar, é claro, com as aparições constantes na TV, no máximo de programas possíveis.

Talvez esse tipo de situação seja temporária, refletindo apenas a atual realidade da música sertaneja. Em breve, é provável que vejamos a música sertaneja dando uma esfriada. Afinal de contas, a música brasileira sempre foi movida por momentos bem específicos relacionados a cada segmento musical. Esse boom atual do sertanejo obviamente não vai durar pra sempre. Quando a coisa esfriar, vamos ver menos artistas aparecendo e, consequentemente, aproveitar o eventual estouro de uma música vai ser bem mais fácil do que é atualmente. Enquanto isso não acontece, entretanto, é bom que o artista que almeja o estouro se previna, contratando o melhor assessor de imprensa possível e vasculhando o Brasil atrás do melhor repertório. Porque a ideia é que o artista exploda. Não que SE exploda.