Uma viagem aos anos 90

Foi há mais ou menos duas semanas, numa quarta-feira de calor, que ele nos recebeu em sua casa, na zona oeste de São Paulo. Ele, o compositor e produtor Antônio Luis. De sua mente saíram os hits “Tic-Tic Nervoso”, sucesso na década de 80, “Dou a Vida por um Beijo” e “Agora Aguenta Nóis” nas vozes de Zezé Di Camargo & Luciano, entre tantas outras composições. Num papo super agradável de mais ou menos duas horas, o produtor falou de coisas que você não vai encontrar nos livros de história.

A vida de Antonio Luiz se confunde com a própria história da música sertaneja. De família de músicos, desde jovem já mostrava que tinha talento para a coisa. Em sua turma de garotos que sonhavam com o sucesso, estava Nil Bernardes, também influenciados pelo vizinho um pouco mais velho, o hoje maestro Mario Campanha. Ainda rapazinho, Toninho, como é chamado desde criança, levava sua pequena caixa de engraxate para a porta dos teatros onde eram gravados os programas de TV, e ali engraxava os sapatos dos maiores nomes da música, para receber em troca apenas autógrafos. Autógrafos esses que depois eram negociados com fãs por valores que variavam de acordo com o tamanho do sucesso do artista.

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Foi assim que ele conheceu e virou fã de Sérgio Reis e Antonio Marcos, dois nomes que viriam a ser seus grandes amigos e com quem trabalharia em inúmeras oportunidades. Antonio Luis conta que sonhou com isso e chegou a se apresentar no programa Silvio Santos imitando Antonio Marcos . A grande oportunidade de conhecê-lo pessoalmente viria mesmo durante um outro programa de TV, quando foram apresentados pelo cantor Terry Winter.

O grande boom de sua carreira aconteceu com “Tic-Tic Nervoso”, uma música bem humorada que conta o cotidiano de um indivíduo cheio problemas. Mas a sua entrada para o mundo sertanejo se deu através da música “Rédeas do Possante”, na voz de Zezé Di Camargo. De lá pra cá suas parcerias com o artista sertanejo não pararam mais. Grandes trabalhos com Roberta Miranda, Sérgio Reis, Gian & Giovani, Cesar & Paulinho entre outros fizeram de Antonio Luiz um personagem fundamental para a música sertaneja desde a década de 90.

A parceria com Zezé aconteceu de forma natural, mas cheia de sincronia. Depois da música “Rédeas do Possante”, a qual já contamos a história Aqui, outras parcerias vieram, e, segundo Antonio Luiz, muito pela confiança depositada por Zezé em suas composições: – “O Zezé é um cara determinado com relação aos seu repertório, ele ouve de tudo, e só grava do que gosta.” Numa dessas oportunidades, conta , estavam no estúdio finalizando o disco de Zezé Di Camargo & Luciano de 1997 e já estava tudo engatilhado. Disco fechado, faltava apenas mixar a última faixa quando chegou uma canção do Rio. Isso já passava das 4 da manhã, Toninho chamou Zezé e mostrou uma canção, quando Zezé ouviu a música logo se apaixonou;

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– “O Turquinho vai me matar” – disse, referindo-se a César Augusto, que dormia no sofá do estúdio. “Vamos abrir esse disco e amanhã faremos a base dessa nova canção para coloca-lá no repertório”. Foi então que saiu uma música chamada “Hábitos” de Carlos Randall e Danimar e entrou a canção “Cada Volta é um Recomeço” de Paulo Sergio Valle. “Hábitos” foi posteriormente gravada por Guilherme & Santiago

Outro caso interessante foi o de “Dou a Vida Por um Beijo”. Toninho e Cecílio Nena tinham acabado de compor a música, mas estavam nos planos de Zezé duas outras canções para o disco de 2000. Antes de fechar o repertório Antonio Luiz comentou com o goiano: “Estou com uma música pronta lá em casa, e algumas velas acesas, preciso que você ouça a música antes que essas velas se apaguem”. Os olhos de Zezé briharam. Na primeira vez em que ouviu se encantou e logo de cara começou a dedilhar aqueles acordes que depois seriam os arranjos da música. Resultado: uma das canções mais importantes da carreira da dupla, entrando inclusive na trilha sonora do filme “Dois Filhos de Francisco.”

Mas não foi só Zezé que ficou fã da canção. Luciano conheceu sua esposa Flávia através da música e, em seu casamento, optou por tocá-la ao invés da marcha nupcial, o que encheu de orgulho e emoção o amigo compositor. Semanas depois Antonio Luiz receberia em sua casa um CD com uma carinhosa dedicatória:

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“Toninho, quem diria que esta música seria o tema de nossa vidas. Obrigado por compô-la! “

Flávia e Luciano

Antonio Luiz teve a felicidade de trabalhar por 12 de seus 41 anos de música ao lado de César Augusto, o homem que, segundo ele, dificilmente será superado devido à sua genialidade. Toninho projeta ainda para alguns meses um livro, contando histórias dos bastidores da música sertaneja. Já tem mais de 600 páginas prontas e o toda a renda será revertida para uma instituição de caridade.

Hoje Antonio Luiz é um homem realizado, produtor da Sunshine, vencedor do Grammy 2009 pelo belo trabalho no CD “Coração Estradeiro” de Sérgio Reis, além de produzir o novo CD de Gian & Giovani. Querido por toda a classe musical, tem em Serjão e em Roberta Miranda grandes amigos e fala deles com emoção: -“Quem diria que aquele menino que engraxava os sapatos do grande Sérgio Reis, um dia viria trabalhar ao lado dele e ser o vencedor de um Grammy?”

O compositor se orgulha de ter feito parte do time mais vencedor da história da música sertaneja. Toda essa estrutura que está aí hoje foi construída lá atrás, com muita criatividade e dedicação de todos. -“Nunca mais haverá um tempo como aquele”.

Para as novas duplas Toninho tem um recadinho: ” Apesar de toda a criatividade, nunca é demais relembrar um grande clássico”.

Está dada a dica… com palavras de quem sabe das coisas.