“Ai se eu te pego” – todo mundo entende, todo mundo explica

“Ai se eu te pego” – todo mundo entende, todo mundo explica

Foi instantâneo. Até bem pouco tempo atrás, o sucesso da música “Ai se eu te pego”, já notório, não era ainda motivo de discussão. Tudo bem, a música já ia bem no Brasil e na Europa. Mas de repente, como num passe de mágica, a música se tornou um tema de discussões intermináveis, debates em redes sociais, análises sócio-econômicas em blogs, sites e veículos respeitados de imprensa. Tudo isso porque anunciaram que a música estava em primeiro lugar nas paradas européias. De uma hora pra outra ela passou de mero megahit para fenômeno cultural que precisava ser compreendido, analisado e defendido ou combatido, dependendo da conotação do texto do autor que resolveu analisá-la. Além, é claro, das dezenas de milhares de paródias, sátiras e brincadeiras relacionadas ao seu sucesso.

É intrigante como a “elite cultural brasileira” estabelece os parâmetros do que merece e o que não merece ser analisado e debatido. Antes de “Ai se eu te pego” chegar ao topo da Europa, não havia todo esse frenezzi. Sequer se importavam com a música. Um ou outro nome dessa pressuposta nata dos intelectuais da cultura se dispôs a falar sobre a canção e o fenômeno que ela se tornara antes da tal notícia de que ela tinha explodido na Europa. Afinal, para quê falar de uma música sertaneja e dar mais motivos para esse segmento desprezível continuar realizando a lavagem cerebral nos brasileiros, não é mesmo? Mas aí veio a matéria da Forbes, infinitamente mais respeitosa com a cultura sertaneja brasileira do que qualquer matéria de qualquer grande veículo da mídia nacional já foi. E, logo depois, a notícia de que a música superou a queridinha do momento Adele e a banda Coldplay na Europa.

De repente, a “elite cultural brasileira” se viu numa encruzilhada. Ora, não dava mais para simplesmente fechar os olhos para o sucesso da música. E era preciso se posicionar de forma inteligente mediante o bafafá em que se transformou a inesperada notícia do mega-sucesso de um brasileiro, sertanejo, no exterior. Ora, claro que era. Um “intelectual” brasileiro não pode deixar que uma música se transforme num megahit mundial sem que ele emita alguma opinião a respeito, senão como é que ele vai justificar o sucesso daquela música? O ego e a prepotência da elite cultural brasileira só não é maior que o medo que ela tem de que algo que não seja bossa nova ou MPB lésbica ou samba ou qualquer coisa produzida exclusivamente no Rio de Janeiro dê certo no exterior.

Só o sucesso da música em si já seria motivo o suficiente para a inevitável análise dos intelectuais brasileiros. Mas a motivação da maioria dos textos escritos após a notícia de que a música superou Adele e Coldplay na Europa veio da reação negativa à notícia nas redes sociais. E, impressionantemente, com um argumento defendido praticamente em uníssono: “detesto a música, mas fico muito feliz de ver um brasileiro fazendo sucesso e bla bla bla“.

Depois da matéria da Forbes e da consagração da música na Europa, a reação nas redes sociais foi de repúdio. O gênio da música brasileira mais conhecido no exterior, aliás, já disse uma vez que “no Brasil, o sucesso é ofensa pessoal”. Esta frase atribuída a Tom Jobim explica muito do que aconteceu nas redes sociais. Eu mesmo cheguei a debater com dois ou três dos meus seguidores no Twitter sobre o sucesso da música. Na visão destes dois ou três e na da galera cuja reação motivou a maioria dos textos escritos pela elite cultural brasileira, o Michel Teló não merecia chegar aonde chegou.

Mas como assim? Por que ele não merecia? O que faz dele menos merecedor do sucesso do que alguma cantora de MPB metida à besta? Desde quando a quantidade de notas na harmonia de uma canção deve ser um fator determinante para seu sucesso? Porque uma canção com 4 notas como “Ai se eu te pego” merece menos o sucesso do que uma música com 465736 notas que, teoricamente, é superior musicalmente, mas que poderia tranquilamente ser tocada também com 4 notas? Sempre a velha máxima de que quanto menos compreensível e acessível ao grande público, melhor é a música.

Só sei que essa reação negativa ao sucesso da música no exterior motivou dezenas de textos de nomes reconhecidos da “elite cultural” brasileira e sempre com esse argumento do “deixem o rapaz fazer sucesso“. Bruno Medina, membro dos Los Hermanos e colunista do G1, escreveu um texto satirizando o sucesso da música e traçando um paralelo com o sucesso da música “Anna Julia”, da sua banda, que enfrentou um fenômeno parecido. Ao contrário de muitos, não enxerguei no texto (ESTE TEXTO) uma conotação tão preconceituosa. Mesmo assim, depois que o Timpin resolveu reproduzí-lo em seu blog (AQUI), a autora do hit Sharon Acioli resolveu se manifestar através de um comentário no post (AQUI), o que gerou um outro texto do Bruno Medina, desta vez tentando explicar a conotação do seu texto anterior (AQUI).

Na mesma onda do Bruno Medina, a música “Ai se eu te pego” mereceu análises de diversos colunistas de diversos veículos. Em seu blog, o Tico Santa Cruz postou ESTE TEXTO. A escritora Thalita Rebouças postou ESTE TEXTO. O site “Obersvatório de Imprensa”, por sua vez, pegou um pouco mais pesado e postou um texto à moda antiga, isto é, enaltecendo o lado negativo do sucesso da música. Leia AQUI. Até o aspecto comercial da música foi analisado NESTE TEXTO escrito por Edmar Bulla, consultor e diretor executivo da CROMA Marketing Solutions.

Depois que, como direi, “a merda já foi feita”, ou seja, a música já havia por conta própria e sem a ajuda de ninguém (exceto o Cristiano Ronaldo) explodido mundialmente, não adiantava nada uma avalanche de textos, análises e debates com o claro objetivo de evitar que ela chegasse aonde chegou. Acho que é daí que parte a motivação para a quantidade de opiniões aparentemente positivas mas revestidas de um oculto preconceito que a “elite cultural” resolveu emitir depois de ter sido evidentemente deixada de lado durante todo o processo que levou a música até o topo do mundo. Não falaram nada enquanto ela crescia e nem quando ela se consagrou nacionalmente. Por que, ora bolas?

O mais óbvio, dado o histórico de repúdio a qualquer manifestação de cultura popular por parte dos “intelectuais” brasileiros, seria uma campanha anti “Ai se eu te pego”. Mas antes que pudessem fazer algo do gênero, a música já tinha explodido. Sou capaz de apostar que se tais textos tivessem sido escritos antes da notícia da explosão mundial da música é bem provável que a conotação dos mesmos fosse completamente oposta. Mas se a Europa aprovou, então a elite cultural brasileira aprova. Sempre foi assim e sempre será. Mesmo que não tenha saído do Rio de Janeiro. Isto é, até que o Nelson Motta resolva falar alguma coisa também…