Almir Sater…

Almir Sater…

Por que será que é tão difícil fazer um show sem frescuras? Assisti no domingo a um show do Almir Sater. Sabe o que eu vi? Música. Apenas música, na mais completa e sublime concepção do termo. Nada de parafernália, de pirofagia, nada de gritaria na platéia, nada do que estamos tão mal acostumados a aceitar com tão idiota naturalidade. Assisti o que parecia ser um estágio avançado de consciência musical e qualidade. Parecia? Ou não é mais um exagero da minha parte?

Aliás, o show inteiro eu fiquei pensando no que impede a avassaladora maioria dos artistas sertanejos de buscarem o mesmo ideal de vida e trabalho que um artista como o Almir Sater? O cara não lança nada novo há mais de 6 anos, apenas porque não sente que é a hora certa. Não grava DVD porque acha que a possibilidade de uma pessoa assistí-lo em casa vai simplesmente afastá-la da possibilidade de assistir a um show seu. O que o motiva, afinal de contas?

Como em pouquíssimos casos na música sertaneja, Almir Sater é um artista respeitado, com status de ícone, mas que não se preocupa com os desmandos do mercado. Se seguisse a cartilha da moderna música sertaneja, provavelmente estaria compondo a toque de caixa músicas para trilhas sonoras de novelas. Muitas delas nas quais provavelmente atuaria, apenas para trabalhar a imagem e vender mais e mais discos. O problema é que se assim o fizesse, ainda que muito bem, suas canções provavelmente não teriam um décimo da qualidade que têm costumeiramente, apenas por serem compostas quando ele acha simplesmente que chegou a hora e não porque a gravadora está esperando.

O show, aliás, não pode ser mais simplório e honesto. Nada de pirotecnia, tecnologia. Somente alguns canhões de luz e alguns efeitos de iluminação. Ele fica no meio, cercado de três violas e um violão de 12 cordas, instrumentos que ele próprio controla em uma mesa de som colocada ao lado de sua cadeira. Acompanhando, alguns músicos (sendo dois deles seus irmãos) com instrumentos que honram a etimologia do termo “acústico”, tão desfigurada de uns anos pra cá. O próprio Almir não tem sequer o pudor de levar um tempo entre uma canção e outra afinando seus instrumentos, ou ajustando a mesa da forma que acha melhor. Pô, alguém já viu a estrela do show controlando a própria mesa de som? Eu sinceramente nunca tinha visto.

Não há aquela preocupação natural a praticamente todos os artistas sertanejos de fazer com que o público “não fique parado”. No caso do show de domingo, o público ficou sentado. Aplausos somente em momentos mais intensos da apresentação, como algumas gracinhas do contrabaixista ou virtuosidades do próprio Almir na viola, ou entre uma música e outra. Cantar junto só nas músicas mais conhecidas. Aliás, isso deu até briga em determinado momento. Logo atrás de onde eu estava, um senhor se irritou com algumas pessoas que se empolgaram demais e começaram a cantar mais alto que o próprio som do local. Os seguranças precisaram apartar. Bem diferente do último show que assisti da dupla Zezé di Camargo & Luciano, por exemplo, com uma louca varrida gritando feito uma criatura possuída logo atrás de mim durante TODA a apresentação.

E a música… Ah, a música!!! A diferença entre compor por obrigação e compor por paixão. A diferença entre priorizar qualidade ao invés da quantidade. As músicas do cara têm um significado, uma identidade, uma magia, nem sempre compreensíveis para o grande público. É estranho segregar um estilo musical, mas eu não imagino o grande público da música sertaneja comum ouvindo e compreendendo tudo o que as letras das músicas do Almir Sater dizem. Não estou dizendo que esse público é burro. Mas é fato que o público sertanejo está em sua grande maioria condicionado a gostar de uma canção pelo seu imediatismo e não pelo seu significado. Convencionou-se que as letras devem ser curtas e diretas. E as letras do Almir Sater vão contra essa convenção. É necessário apreciá-las para compreendê-las. Não são do tipo que se enfia goela abaixo pra acelerar a digestão.

Como se não bastasse o cara se expressar tão incrivelmente através das palavras, ele ainda faz o mesmo com os dedos na viola. Ele tira da “majestade” o que ela pode oferecer de melhor. Um som limpo, da mais alta qualidade, que ele toca sem se valer de artifícios como dedeiras e palhetas. Só usa os dedos e as unhas. Pelo menos um terço do show é instrumental. Sua voz aliás parece apenas complementar o que ele faz tão perfeitamente apenas com as mãos. Não é um cantor de potência vocal elevada, mas tem um timbre e uma afinação invejáveis. É o tipo de voz que se deve fechar os olhos para apreciar com mais intensidade.

É um artista sertanejo, sim, do tipo que a meu ver já alcançou o que todo artista deveria almejar: independência criativa, respeito e qualidade. Almir Sater faz a música que gosta. Nao se prende a regras, a possibilidades, a números. Conseguiu chegar num estágio em que consegue falar de amor, de tradição, de sertão de uma forma diferente e superior à que domina o mercado. Talvez por isso ainda tenha gente que insista em dizer que ele não é sertanejo.

Criaram um termo, “regional”, para englobar praticamente todo artista sertanejo cuja qualidade ultrapassa o que as pessoas consideram ser a média aceitável para um artista sertanejo. Ora, será que a música sertaneja carrega em si tanta ignorância que um artista como Almir Sater, que canta e toca o sertão como poucos, precisa ser comparado muito mais a um artista de MPB do que a um artista sertanejo? Se um questionamento como esse ainda insiste em surgir, talvez o próprio Almir Sater seja capaz de solucioná-lo. “Tudo é sertão, tudo é paixão se um violeiro toca…”, ele diria…