Anos 90: por que tanta gente ainda se ilude com o retorno a essa época?

Anos 90: por que tanta gente ainda se ilude com o retorno a essa época?

Em agosto completarei 6 anos de blogosfera, vejam só. Neste tempo, aprendi a lidar com todo tipo de comentário postado no blog, desde antes do Blognejo existir oficialmente. Comentários positivos, negativos, elogios, críticas, enfim, uma ampla gama de opiniões, as mais variadas possíveis. Mas no meio de todas essas opiniões, um grupo peculiar sempre se destacou: o dos conservadores.

Algumas características deste grupo são facilmente reconhecidas. Em primeiro, o anonimato. Eles jamais usam os próprios nomes para comentar. Quando muito, usam um apelido, ou um nome qualquer que não possa ser relacionado ao próprio nome. É claro que um rastreio simples poderia desmascaras muitos destes comentaristas anônimos, mas se fizéssemos isso o nosso campo de comentários provavelmente perderia todo o caráter de debate que sempre teve.

A segunda característica é o dom de irritar. Eles não se importar em postar todo e qualquer tipo de acusação, despautério ou crítica contra qualquer artista que não faça parte do grupo que os agradam e principalmente contra o pobre coitado que está escrevendo a respeito deste tal artista. No caso, este blogueiro. O mais comum são acusações relacionadas a benefícios financeiros recebidos para poder dar destaque a um artista que, na cabeça deles, não têm a capacidade de conquistar essa atenção a não ser pagando.

A terceira característica e talvez a mais importante a se destacar é o tipo de reivindicação deste grupo, o que nos leva ao título desta postagem. Para este grupo, nada que tenha acontecido ou aparecido na música sertaneja após a década de 90 valeu a pena, exceto artistas que construíram e constroem suas carreiras na base do cover ou da imitação de artistas daquela época, principalmente o Zezé di Camargo. Já vi alguns destes artistas serem apontados como os potenciais salvadores da música sertaneja por alguns destes queridos comentaristas.

E é nessa tecla que eu quero bater, retornando  novamente a um debate que toma conta do Blognejo desde que ele nem era o Blognejo ainda. Por que, afinal de contas, este grupo e uma pequena parcela de fãs de música sertaneja ainda acredita tanto no retorno aos anos 90?

Vamos pensar primeiramente a partir de uma raciocínio simples de lógica. Alguma outra vez na história centenária da música sertaneja o estilo regrediu musicalmente para o que se costumava fazer 10 ou 20 anos antes? Por exemplo, quando o “Fio de Cabelo” estourou em 1983, promovendo uma mudança na linha de composição da maioria das músicas sertanejas, logo depois o segmento voltou a ser dominado apenas pelas rancheiras e pelos instrumentos de sopro dos anos 70? Quando Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo ajudaram a consagrar uma música sertaneja ainda mais melódica e afastada de vez dos temas rurais, tanto nas letras como na harmonia das músicas, o segmento voltou depois a valorizar apenas as guarânias e demais estilos predominantes em anos anteriores?

É uma coisa muita simples: nunca se voltou ao passado antes. Só por essa lógica, é bem possível concluir que também não voltaremos ao passado nos dias de hoje. No mundo, em qualquer segmento, em qualquer área de trabalho e por que não na música, anda-se para a frente.  O “passado” tem esse nome justamente por causa disso: porque passou.

Chega a ser engraçado, por exemplo, assistir à comemoração dessa ala conservadora quando alguém lança uma música demasiadamente romântica, sempre com o grito de guerra “os anos 90 voltaram”. Acontece que sempre se trabalhou o romantismo. Até mesmo o sertanejo dos anos 90 foi influenciado pela música romântica de outras épocas e de outros segmentos. Ora, o maior cantor romântico do Brasil, o rei Roberto Carlos, completou 50 anos de carreira há bem pouco tempo, quase todos eles dedicados à música romântica, tirando o começo na jovem guarda. Resumindo, o romantismo é muito mais amplo do que apenas uma década da música sertaneja.

Aí a ala conservadora diz: “mas as músicas dos artistas dos anos 90 são muito tocadas nas rádios”. Ora, os grandes nomes daquela década ainda se encontram na ativa, com agenda cheia e músicas sempre entre as mais tocadas nas rádios, claro. Acontece que entre jabás e promoções, o que toca na rádio nem sempre é o que está na boca da galera. Com internet e outras mídias, o público achou outras formas de ouvir o que gosta e já não se deixa levar apenas pelo que as rádios determinam que ele ouça. O argumento de que os anos 90 vão voltar porque as músicas dos artistas dos anos 90 são as mais tocadas, cai, portanto, por terra. Toca na rádio mas não está na boca da galerinha que compra ingresso de show.

É compreensível que haja uma certa frustração nessa parcela do público.  Quando se gosta muito de determinada coisa, nunca se quer que ela termine ou que ela deixe de estar em evidência. Mas felizmente ou infelizmente, é essa a ordem natural das coisas. Se as pessoas envelhecem, é claro que as preferências também. A preferência do grande público de uma época nem sempre será a preferência do grande público anos depois.

Até os próprios artistas daquela época já começaram a perceber que os tempos mudaram e que ou eles aceitam a condição de medalhões e abandonam de vez a competitividade, dedicando-se apenas a cantar o que gostam e a fazer a quantidade de shows que preferirem fazer (como Leonardo e Daniel já fazem), ou buscam modificar-se e adequar-se à realidade atual (como Bruno & Marrone fazem com maestria ou como Chitãozinho e Xororó se mostraram empenhados em fazer com o apoio da dupla Fernando & Sorocaba). Se os próprios artistas já demonstram estar vivendo uma outra realidade, porque a ala conservadora ainda teima em aceitar que a mudança já aconteceu e não há mais como voltar atrás? Ora, se até o grande Zezé di Camargo abraçou a amizade e o cargo de mestre do Gusttavo Lima, por exemplo, fazendo dele um artista influenciado pelo estilo zezedicamarguístico e não uma releitura do que se ouvia no passado, por que a ala conservadora dos comentaristas e fãs de música sertaneja ainda age com tanta intransigência.

O que quero dizer é que gostar de algo não faz mal. Longe disso. Eu por exemplo escuto em casa só Chrystian & Ralf, João Paulo & Daniel, as antigas do Zezé, entre outras. No violão, eu só gosto de brincar com as coisas dessa época. Mas nem por isso vou me fechar num mundinho próprio achando que aquilo é a única coisa que vale e que todos os outros artistas são obrigados a tocarem o mesmo tipo de música e fazerem o mesmo tipo de som. E ainda por cima rindo da cara de quem tenta fazer algo diferente nessa gigantesca soberba que é achar que ninguém mais faz nada que preste hoje em dia. Além de intransigência, isso é burrice.