Bruno e Marrone ““ Acústico 2

O texto é um pouco extenso, mas é bem completo. Quem estiver preparado pra ler, fique à vontade…

O novo CD e DVD de Bruno e Marrone é um resumo geral da atual conjuntura da música sertaneja no país. Engloba, ao mesmo tempo, aspectos comuns a praticamente 80% dos trabalhos do segmento, o que eu chamo de “regra dos três A”™s”, com peculiaridades que apenas caras com certa experiência como eles são capazes de notar. É “Acústico”, apesar de ninguém mais seguir à risca o real significado do termo, “Ao vivo” e totalmente “Autoral”.

Vamos à explicação. Se formos observar os trabalhos realizados no segmento sertanejo nos últimos seis anos, notaremos que os trabalhos que mais se destacaram foram CD”™s ou DVD”™s acústicos, ao vivo, e cujo repertório refletia, principalmente, a capacidade de criação dos artistas. O primeiro DVD acústico da dupla Bruno e Marrone foi responsável por essa intensa popularização da regra dos três A”™s. O repertório era formado por um punhado de músicas inéditas no meio de um monte de regravações. No final, foram as inéditas que se destacaram. O mesmo aconteceu com Edson e Hudson, César Menotti e Fabiano, Guilherme e Santiago, Victor e Léo. Todos eles excursionaram pela regra dos três A”™s, obtendo sucesso graças, sempre, às músicas inéditas. Quando as faixas de sucesso não eram inéditas, eram normalmente desconhecidas do público, o que praticamente mantinha seu caráter de novidade.

Passaram-se os anos, muitas duplas surgiram, mas a regra dos três A”™s já não é mais uma novidade. Tornou-se um clichê. Já virou uma coisa normal lançar um CD Ao Vivo, ou Acústico, ou Acústico e Ao Vivo, sempre com músicas inéditas e regravações. Todos os artistas sertanejos fazem isso ultimamente. Ficou até chato ouvir rádio. Não dá sequer pra distinguir uma dupla da outra. Todas são iguais na essência. O que os artistas com visão melhor do mercado fazem, então? Buscam novas alternativas.

O novo DVD de Bruno e Marrone segue a regra dos três A”™s, mas traz novidades ainda não transformadas em clichê, mas que aos poucos segue esse caminho. Só que, ao contrário dos clichês de que falei anteriormente, esses são clichês saudáveis, capazes de elevar a música sertaneja a outro patamar. Um deles é a produção do disco. É assinada pelo próprio Bruno. Pra quem ainda se confunde com o que é produção, eu explico: o cara é o responsável pela criação dos arranjos, colocação dos instrumentos nos lugares certos, etc. Isso é muito bom para o segmento. Até bem pouco tempo atrás, era comum um mesmo produtor realizar trabalhos para diversos artistas. Os maiores produtores sertanejos eram César Augusto, Luiz Carlos Maluly, Pinochio e mais alguns poucos. Esse aumento na capacidade criativa dos artistas é muito bom para mostrar aos céticos que os sertanejos são inteligentes, capazes. Entre os artistas que produzem os próprios discos, podemos citar Chrystian e Ralf, Rick (Rick e Renner), Victor e Léo, Giuliano (Luiz Cláudio e Giuliano) e, agora, Bruno e Marrone.

Outro aspecto inovador é a grande quantidade de músicas inéditas de autoria própria. Pelo menos 20 das 25 faixas gravadas por Bruno e Marrone são de autoria do Bruno. Apesar de ele atirar pra todos os lados , com pagodes e axés em quantidade exagerada pra artistas sertanejos, isso também é muito bom. Afinal de contas, a cultura mundial passa por uma intensa crise criativa (cinema, música, quase tudo é adaptado ou regravado, quase nada é inédito) e é sempre bom ver trabalhos inéditos sendo lançados. Entre as melhores músicas do disco, na minha opinião, estão “Consciência Pesada”, “Sonho Louco”, “Não faz mais isso comigo”, “Lágrimas e Vinho”, “Pra não morrer de amor”, todas feitas pelo próprio Bruno em parceria com seus habituais companheiros de composição e de farra, como Edson (Edson e Hudson), Felipe (Felipe e Falcão), e outros.

O cenário do DVD também é brilhante, muito bem cuidado. Concebido por uma mulher (cujo nome eu esqueci), é bem diferente do que se costuma ver em outros DVDs sertanejos. Outro fato interessante é a valorização dada por Bruno e Marrone às novas duplas brasileiras. Entre as regravações do disco, estão diversas músicas que fazem parte do repertório de novos artistas sertanejos. “Sem Vocꔝ, de Victor e Léo, “Só de Vocꔝ, de João Neto e Frederico,”Ficar por ficar”, de Rick e Rangel (dupla de Brasília), “Hoje eu não to pra ninguém”, de João Paulo e Ricardo (Goiânia) são alguns dos exemplos que eu pude constatar.

Mas nem tudo foi perfeito no disco. O repertório do disco, por exemplo, é fraco se comparado ao primeiro “Acústico”. Tirando as canções mencionadas, sobram poucas que realmente merecem a atenção, seja pela qualidade das letras, ou pelo evidente desespero do Bruno em agradar aos amantes de todos os estilos musicais. Tudo bem gravar uma música ou outra num estilo “não-sertanejo”, mas eles exageraram na dose. Sem motivo, afinal de contas Bruno e Marrone devem seu sucesso às músicas românticas e, no máximo, aos forrós que eles gravaram no decorrer da carreira.

As participações especiais também deixaram a desejar. Padre Marcelo Rossi conseguiu emocionar o público, mas só um pouquinho, já que o coral de crianças que acompanhou a canção estava mais desafinado que um gato bêbado. Alexandre Pires estava tão à vontade em sua arrogância habitual que pouco acrescentou à fraquíssima canção “Abafa o caso”. E olha que eu sou fã dele, hein. Durval Lellys, do Asa de Águia, também parecia um pouco perdido por não estar em cima de um trio elétrico. E Milionário e José Rico, que poderiam ter salvado alguma coisa, estavam mais preocupados em conseguir completar a canção, o que é uma pena, já que se esperava bem mais deles (tiveram de repetir a canção um monte de vezes, o que era incomum pra eles até um tempo atrás).

No entanto, a pior coisa do DVD foi a autodemonstração de grandeza por parte do Bruno. Ele produziu o disco. Até aí tudo bem. Mas parece que ele esqueceu do Marrone. Ou então deixou de fora intencionalmente. Não se ouve a segunda voz. Não é exagero. Não se ouve nada da segunda voz. Não que o Marrone não saiba cantar. Ele sabe. É só escutar as músicas mais antigas de Bruno e Marrone pra perceber isso. Mas acho que o Bruno está tão preocupado em se mostrar que ele acaba fazendo questão de deixar o Marrone bem desmoralizado. Chega a ser vergonhoso assistir ao Marrone fazendo gestos e etc, sem que sua voz seja ouvida. Essa desmoralização fica mais evidente ao final do making of, quando o Marrone agradece a Deus por Ele ter colocado o Bruno em sua vida. E só. Nada do Bruno agradecer pela existência do Marrone. Ficou parecendo que o Marrone precisa do Bruno, mas o Bruno não precisa do Marrone. É estranho, no mínimo. Espero que a herança que a dupla está deixando para o Brasil não seja apenas a pouca valorização dada à segunda voz, péssimo exemplo que já está sendo seguindo por muitas e muitas duplas ao redor do Brasil.

Nota: 6,5