Bruno & Marrone – De Volta aos Bares

Antes de mais nada, um conselho: DESCONSIDERE O CD. Este review será um review apenas do DVD, devido única e exclusivamente ao fato de que este CD NÃO É um resumo das melhores faixas do DVD. Poucas vezes eu vi um CD que representasse tão mal um DVD. Por isso mesmo, esse review também não o levará em consideração. Além disso, a versão que vazou e que muita gente tem criticado é a versão copiada diretamente da internet, isto é, ripada do Sonora, canal de música do portal Terra. A qualidade, portanto, está bem inferior. Dito isto, vamos ao review.

O último trabalho de Bruno & Marrone, o Acústico II, foi sem dúvida o trabalho mais indivualista da história da dupla. Foi uma das produções mais rica em detalhes, mas o repertório ruim e a soberba do Bruno transcendiam na tela. O Marrone foi só um figurante em meio à profusão de participações especiais sem nenhuma graça. Pouquíssimas músicas de qualidade, ou que valorizavam a sempre excelente interpretação do Bruno. No lugar delas, um monte de forrozinhos, axezinhos e pagodinhos totalmente fora do contexto. Saldo final: nenhum grande sucesso, do tipo que fica na cabeça do povo e que acaba grudando na cabeça. Algo, portanto, tinha que mudar, afinal Bruno & Marrone estavam perdendo espaço para os novatos (basta ver a última lista dos mais vendidos de 2008, divulgada recentemente).

Primeira providência: “enxugar” a banda. Nada daquele exagero, com dezenas de músicos e backing vocals no palco. O novo DVD, “De Volta aos bares”, conta com apenas 5 músicos, sem contar o Bruno e o Marrone. Toda a banda mudou. Por motivos desconhecidos, todos os músicos foram substituídos. Não ficaram nem o guitarrista (Marco Abreu) e nem o baterista, figuras emblemáticas da antiga formação. Nada de backing vocals nesse novo disco, o que pra mim já é mais um ponto positivo. No lugar de instrumentos de sopro, backing vocals e guitarras, apenas o básico: violões, acordeons, baixo, bateria e percussão. O acordeon, aliás, vem com força total nesse disco, sendo utilizado em todas as músicas. Com o Marrone tocando pra valer, pelo menos segundo os créditos. Claro que trata-se apenas de uma concessão de mercado. Todos os artistas que se deram bem usaram esse tipo de formação na banda. Para que, então, inventar de usar tantos músicos se o público procura simplicidade?

Segunda providência: selecionar um repertório mais tradicional. Para que atirar para todos os lados? Para que tentar agradar os amantes de todos os segmentos musicais? O que o público sempre gostou na dupla Bruno & Marrone foi justamente o fato de eles serem cantores tradicionais, mas que têm traços de modernidade regados sempre pela simplicidade, isto é, ainda que interpretassem as canções com a mesma vontade que os artistas tradicionais dos anos 90, eles souberam ser um diferencial. Poxa, eles quebraram a hegemonia de quase 10 anos dos AMIGOS. Isso não é pra qualquer um. Para quê cantar pagode, axé, samba, e outros estilos se o povo queria vê-los cantando aquele mesmo estilo de música que os levaram ao sucesso? No novo disco, graças a Deus, não colocaram um axé sequer, nem um pagode, nem um samba. Trata-se de um disco sertanejo, sem qualquer desvio de intenção. Regravações de grandes sucessos sertanejos e canções inéditas que não desviam em nenhum momento do que se espera no nosso segmento.

Terceira providência: dar mais espaço ao Marrone. Poxa, Bruno & Marrone são uma dupla, afinal de contas. O último disco levou o Marrone ao pior nível de figuração de um DVD sertanejo. Nesse novo disco, então, fez-se necessária uma abertura maior ao segundeiro. A voz do Marrone aparece. Isso mesmo, como há muito tempo não se via num disco da dupla. É possível ouvir a voz do Marrone em todas as canções, principalmente nas regravações.

É claro que diante de todos estes fatos, o novo disco ainda tem alguns pontos negativos. Essa pressão de “tentar voltar ao topo” fez com que alguns erros fossem cometidos. O modismo foi seguido com exageros. Algumas canções, como “Favo de Mel”, “Liguei pra dizer que te amo” e “Duas vezes você” ganharam uma roupagem universitária. Ora, isso é típico de duplas amadoras em início de carreira. Não havia necessidade de desconfigurar esses clássicos em nome de uma pegada mais comercial. Pelo menos não é isso que se espera de Bruno & Marrone. Fora essas canções, todas as outras são bem legais, diga-se de passagem.

No “Acústico II”, foram gravadas apenas canções de autoria do Bruno. No “De volta aos bares”, no entanto, deu-se mais abertura a novos compositores, como Marco & Mário (autores da faixa “Amor não vai faltar”), Jhonatan Félix e Waléria Leão (“Pode ir embora”), além de alguns consagrados como Jairo Góes (“Chamego Bom” e “Onde você está”) e Nildomar Dantas (“Quem tá bebo, quem tá bão”). Entre as inéditas, no entanto, algumas de autoria do Bruno, como a simples porém espetacular “Flashback de nós dois”. A música de trabalho, “Não tente me impedir”, é de autoria do Racyne, da dupla Racyne & Rafael, em parceria com a Priscilla Barutchy. Esses dois aliás são parceiros de longa data do Bruno. A Priscilla assina com o Bruno a música “Como eu te amo”, que também foi regravada nesse disco. O Racyne assinou com o Bruno aqueeeeela “Parabéns pro nosso amor”.

Um dos fatores que tem causado controvérsia é a aparente má interpretação do Bruno. Muita gente, inclusive eu, percebeu que nesse disco o Bruno não está cantando como sempre fez. Por que será? Depois de assistir ao DVD, pude chegar a uma conclusão simples. A redução da banda e a proposta de se reproduzir o clima de “bar” fizeram com que o Bruno tivesse que tocar o violão durante o disco todo. E eu, como cantor da noite, sei o quanto é complicado cantar e tocar. Digo, quando um cantor se preocupa apenas com o microfone e a própria voz, a coisa muda de figura. A probabilidade de uma boa interpretação triplica. Nem o Bruno e nem o melhor cantor do mundo conseguem cantar da mesma forma quando têm que se preocupar com o violão ou outro instrumento. Novamente, o Bruno assina a produção. Dessa vez em parceria com o Kwen, novo guitarrista da dupla, que entrou no lugar do Marco Abreu e se tornou, obviamente, a nova cara da dupla, já que é o responsável pela criação de todos os arranjos do disco.

Dentre todos os DVDs da dupla, esse é o mais parecido com o primeiro. Não que seja melhor que os outros, mas é simples, concentrado na dupla, sem exageros desnecessários, com um repertório que resgata tanto as antigas canções deles quanto grandes sucessos da música sertaneja.

Sobre a proposta do disco, podemos dizer que ele atingiu o objetivo. Como vocês sabem, eu canto em bares, botecos e similares e posso dizer, com convicção, que me senti bem representado nesse disco. Os principais elementos dos botecos estão presentes. Um grande balcão cheio de garrafas foi montado atrás do palco. Os garçons, quando não estão escorados no palco esperando os pedidos, estão passando por entre as mesas e servindo petiscos, bebidas e tudo mais. A capa do disco, muito criativa, trouxe avisos num grande quadro escritos com giz. O perfil das mulheres desse disco é muitíssimo parecido com o perfil das mulheres que frequentam bares. E as regravações realmente fizeram jus àqueles pedidos anotados em guardanapos que caras como eu têm que atender durante toda a noite. Eu sou testemunha de que a música “Filho Pródigo” é, até hoje, uma das mais pedidas na noite, por mais incrível que pareça. Enfim, de boteco, Bruno & Marrone mostraram que entendem. Mas pelo amor de Deus, desconsiderem o CD. Levem em consideração apenas o DVD.

Nota: 8,5