Com a volta de Victor & Leo via fundo de investimentos, cai de vez o mito de que o agronegócio banca o sertanejo

Com a volta de Victor & Leo via fundo de investimentos, cai de vez o mito de que o agronegócio banca o sertanejo

Uma das piores sequelas deixadas pela polarização política dos últimos 4 anos, pelo menos pra nós do sertanejo, foi a falsa ideia de que somos financiados por um segmento específico da economia, no caso o agronegócio, para servir como máquina de propaganda para a propagação da ganância dos latifundiários contra os indígenas, o meio ambiente, a agricultura familiar, a reforma agrária e todas as vertentes negativas que possam “atrapalhar” o crescimento e a manutenção desse segmento da  economia que, independente da ideologia politica dominante no momento, segue sendo o eixo primordial da receita brasileira, o que torna tudo isso um imenso paradoxo.

Depois que os sertanejos se posicionaram a favor do antigo presidente durante a campanha, então, aí que essa Fake News passou a tomar proporções cada vez mais exageradas e a ganhar até as páginas de jornais, deixando de ser apenas uma conversinha fiada de Twitter. Mas não estou aqui para falar de política e sim para tentar de uma vez por todas quebrar esse mito. Qual é de fato a função do agronegócio no sertanejo? Ele de fato financia o segmento? E o que a volta de Victor & Leo tem a ver com essa história?

Antes de chegar ao polêmico retorno de Victor & Leo, precisamos entender a atual realidade do investimento na música sertaneja, que já vem sendo construída de alguns anos pra cá. Ou seja, não se trata de algo tão recente quanto se pensa. E por “investimento”, vamos nos ater aqui ao dinheiro que é colocado nas carreiras de artistas já consolidados. A realidade de artistas novos em busca de financiadores para suas carreiras é uma outra história, muito mais ligada ao sonho ou à lavagem de dinheiro do que de fato ao retorno financeiro.

Em 2021, bombou a notícia de que Gusttavo Lima havia vendido sua agenda de shows de 2022 para um fundo de investimentos pela bagatela de 100 milhões de reais. Seriam 192 shows ao todo. No ano seguinte, ele repetiu a negociata, mas não incluiu os festivais Buteco. No fim das contas, ele vendeu pelo mesmo valor, mas fez menos shows ao todo para pagar o investimento.

Depois disso, outros grandes nomes do sertanejo passaram a realizar negociações nos mesmos moldes. Eduardo Costa vendeu sua agenda de shows de 2022 por 73 milhões de reais. César Menotti & Fabiano negociaram 135 apresentações com o mesmo fundo que comprou os shows de Gusttavo.

Não é de hoje que o dinheiro que gira no mercado sertanejo passou a despertar a atenção dos fundos de investimento. Ora, a função de uma agência de investimentos é trazer a melhor e mais segura forma de lucro para seus clientes, independente do segmento da economia em que o dinheiro precise ser aplicado. A música sertaneja é um mercado milionário, mesmo que o dinheiro grosso de verdade circule apenas entre os artistas do primeiro escalão.

E não estou falando apenas de agendas de shows. Já é um costume comum, por exemplo, a compra de direitos autorais futuros de compositores consagrados por parte de fundos de investimento. O grupo antecipa um valor considerável ao compositor e passa a ter direito a tudo ou parte do que que ele arrecadar durante o período do contrato. Existem notícias inclusive de negociações com fundos de investimento até por parte de estúdios de produção musical.

Tal qual qualquer outro investimento, trata-se de um risco. Calculado sim, mas um risco. Mas obviamente um negócio muito mais coerente do que os contratos de gaveta com investidores sonhadores e seus artistas recém saídos do boteco. Ou você acha que dá pra passar a perna em gente que está lidando com o dinheiro de outras pessoas e correr o risco de ir pra cadeia por fraude ou estelionato? Ouso dizer que a entrada dos fundos de investimento nas negociações do mundo sertanejo talvez seja uma das formas mais preto no branco que tenham surgido em toda a história do nosso segmento.

No caso das agendas antecipadas, o artista segue trabalhando normalmente, com a sua equipe negociando datas como em qualquer outra época, mas com o lucro proveniente dos shows sendo repassado ao fundo e não mais ao próprio escritório. A volta de Victor & Leo seguiu estes mesmos moldes, com o valor médio de cada show sendo negociado a aproximadamente 1,5 milhão de reais, num total de 70 milhões por 30 shows. Desta vez, quem bancou o investimento foi a agência mais conceituada do Brasil, a XP, com a Opus Entretenimento ficando a cargo de realizar os shows da turnê. Negociações semelhantes já haviam sido feitas com Daniel e Leonardo, fora artistas de outros segmentos musicais.

Com a volta de Victor & Leo ganhando notoriedade e amplo espaço na mídia, a questão dos fundos de investimento derrubou de vez o mito de que o sertanejo é financiado pelo agronegócio. Seria hilário pensar que a Faria Lima fica situada numa lavoura de soja do Mato Grosso ou na fazenda Terra Prometida e suas 600 cabeças de gado, nos arredores de Palmas – TO. Aliás, é irônico que Henrique & Juliano, donos da “Terra Prometida”, e Wesley Safadão, por exemplo, batam recordes em leilões de gado ou de cavalos e não invistam seus lucros no mercado da música enquanto fundos de investimento estão buscando esse tipo de investimento.

É importante ressaltar que não se trata de aposta. Como eu disse, é um risco calculado, mas o fato dos fundos de investimento trabalharem apenas com nomes consolidados deixa claro que é uma busca pelo lucro que já existe e que provavelmente não vai baixar. Não é fácil imaginar, portanto, que tais fundos topem entrar como investidores em carreiras de artistas inciantes.

E afinal de contas, onde entra o agronegócio na música sertaneja? Apenas no mercado consumidor, ora bolas. Os shows precisam ser vendidos para alguém e é notório que as maiores compradoras de shows dos sertanejos são as feiras agropecuárias, geridas por sindicatos rurais, e as prefeituras de cidades de pequeno e médio porte, cuja economia gira em torno do agronegócio. Quando o show não é aberto ao público, os organizadores vendem os ingressos, concorda? Se há dinheiro do agronegócio no sertanejo, portanto, esse dinheiro entra de forma indireta. No fim das contas, o dinheiro que entra no sertanejo é o meu, o seu e de quem mais desembolsar uma quantia para comprar ingressos para o show do artista favorito.

Não existe um dado oficial sobre quanto é movimentado na música sertaneja pelos fundos de investimento atualmente, mas é um fato que o dinheiro do sertanejo é proveniente de diversas fontes. Além da receita com shows de feiras agropecuárias e prefeituras, existe todo um mercado corporativo pulsante, que inclui todos os demais setores da economia, o mercado digital, que também movimenta milhões e faz crescer os olhos das grandes gravadoras, que desembolsam horrores em luvas para ficar com o lucro que seus maiores artistas venham a obter. Ora, a compra de shows por fundos de investimento nada mais é que uma luva, não é mesmo?

E curiosamente, os artistas seguem investindo suas fortunas em outros setores da economia, PRINCIPALMENTE no agronegócio. A pecuária continua sendo o investimento preferido dos sertanejos. Gusttavo Lima já foi dono de açougue, de franquias de roupa, etc, mas no próprio escritório artístico ele investe relativamente pouco, já que é um artista que se vende praticamente sozinho. E com todos os outros grandes artistas do sertanejo é assim. Eles preferem gastar a grana que ganham em outros setores menos arriscados da economia do que na loteria que é o mercado musical para novos artistas.

Se nem os próprios artistas gastam seu próprio dinheiro na música sertaneja e preferem gastar no agronegócio, qual a lógica de se continuar falando que o agronegócio banca o sertanejo? É justamente o contrário. Na verdade, o sertanejo fomenta o agronegócio mas numa porcentagem minúscula, já que estamos falando de um mercado multibilionário infinitamente maior do que os milhõezinhos anuais da música sertaneja do primeiro escalão.

A discussão ideológica que vende a ideia de que o agronegócio banca o sertanejo só existe para justificar a derrota de artistas de outros segmentos da música em rankings de plataformas digitais. Se Jão ou Luisa Sonza batem um recorde no Spotify, tudo certo, mas se Ana Castela ou Luan Pereira chegam ao TOP 1, tem dedo de latifundiário no meio? Contraditório, não é mesmo?

A bolha do Twitter infelizmente se fecha muito na própria soberba e não percebe o tamanho do país e a velocidade com que a informação tem chegado à população. Por mais que uma grande parcela do povo ainda não tenha acesso às novas formas de consumo, é óbvio que cada vez mais gente tem. E os que estão chegando às plataformas digitais por agora são muito mais ligados a segmentos populares como o sertanejo e o forró do que ao pop e a segmentos mais elitistas da música. Afinal de contas, é mais fácil esperar que o público prefira consumir o artista cujo show ele vai poder assistir na feira anual da sua cidade do que o artista cujo show ele só vai conseguir assistir se comprar ingresso do próximo The Town, Loolapalooza ou Rock in Rio, o que inclui a passagem e as diárias de hotel. Quem sabe um fundo de investimentos banque esses gastos também.