Começou… Victor & Leo rejeitam o rótulo de “dupla sertaneja”

Há alguns anos, no auge do sucesso, Zezé di Camargo disse que considerava sua dupla uma dupla de MPB, com a desculpa de que “se vendemos milhões, somos populares, então somos da música popular brasileira e não sertanejos”. Pois agora, também no auge do sucesso, Victor & Leo fazem a alegria daqueles que julgam que a música sertaneja deve ser padronizada e seguir uma mesma fórmula retrógrada e caem na mesma armadilha de rejeitar o rótulo de “dupla sertaneja”.

Sob a alegação de que fazem algo diferente, Victor & Leo reclamam do fato de que, segundo eles, no Brasil todas as duplas são tachadas de sertanejas apenas por serem duplas. Alegam ainda que extraem influências dos mais variados estilos e que, por isso mesmo, não possuem um estilo definido. Vejam o vídeo:

Zezé di Camargo parou com esse discurso no momento em que perdeu o posto de dupla mais popular do momento para Bruno & Marrone, que nunca disseram nada desse tipo, pelo menos até agora.

Victor & Leo parecem ter sucumbido à pressão de uma parcela da mídia, aquela que detém boa parte do poder de imprensa, ou seja, a mídia do eixo Rio-São Paulo. Quando ainda faziam aquele esqueminha acústico, cantavam “Telefone Mudo”, “60 dias apaixonado”, “Cavalo Preto” e outras músicas legitimamente SERTANEJAS, e ainda permaneciam longe desses grandes centros da informação cultural brasileira, Victor & Leo não falavam esse tipo de coisa. Agora que chegaram lá, cederam à pressão. Afinal é notória a vergonha que a mídia desse eixo insiste em imputar naqueles que se dizem sertanejos. Dizer que ama esse segmento é praticamente atestar que é um jeca sem qualquer conhecimento artístico e que não merece a atenção das gravadoras ou da mídia cultural em geral.

Muito me entristece ouvir um grande artista como Victor Chaves reclamar do fato de que toda dupla é tachada como sertaneja. Ora, se assim o fosse artistas solo, bandas e outros que seguem o estilo sertanejo sem serem duplas também não deviam ser tachadas como tal. Pior: ao dizer uma frase tão infeliz, Victor Chaves praticamente reconhece que a música sertaneja é um estilo padrão, com uma fórmula retrógrada e que não comporta novidades. Afinal tudo o que aparece com uma pegada diferente dentro do estilo não pode ser tachado como sertanejo, se formos analisar bem a declaração dele.

Um dos meus primeiros textos como blogueiro levava o título “O Brasil tem vergonha da música sertaneja?”. Hoje, dois anos depois, eu estava começando a me orgulhar do fato de que essa “vergonha” que o Brasil e a grande mídia nos faziam ter de gostarmos de música sertaneja estava acabando. Mas com essa última declaração da dupla, boa parte desse orgulho se esfacelou. E dois caras que eu julgava serem grandes defensores desse segmento (que precisa sim de defensores) mostraram que não estão interessados nesse encargo. A pergunta é: o Brasil ainda tem vergonha da música sertaneja? A resposta: INFELIZMENTE SIM!!!

Quem sou eu para dizer que Victor & Leo são sertanejos se eles mesmo dizem que não o são? Mas me estranha o fato de cantarem músicas românticas ou com temática rural, com violão e acordeon comendo soltos, num dueto vocal bem afinado, tocando em rádios sertanejas, com 2 músicas na trilha sonora de uma novela sertaneja. Ora, será que são sertanejos apenas na hora de se aproveitar do que o segmento tem a oferecer? Na hora de aparecerem numa coletiva de imprensa em São Paulo-SP diante de jornalistas do segmento de música que, em 90% dos casos, nutrem um ódio gritante pela música sertaneja, eles simplesmente se esquecem de onde vieram?