Cover oficial no sertanejo existe?

Cover oficial no sertanejo existe?

Uma polêmica nos últimos dias envolvendo a cantora Lorena Alexandre, que se autointitula Cover Oficial da Marília Mendonça, e o Gustavo, irmão da Marília, envolveu os fãs da cantora, que desde a sua partida já se acostumaram a partir para o ataque contra cantoras que vez ou outra aparecem usando os mesmos trajes que a Marília usava e cantando o mesmo repertório, aproveitando-se da semelhança física. Gustavo resolveu questionar com seu jeito habitualmente polêmico o trabalho da cantora Lorena Alexandre e acabou recebendo a controversa resposta. Afinal, o que faz de alguém um cover oficial? Isso existe ou é balela?

Antes de mais nada, é importante entender que a palavra “cover” engloba muitos elementos, que podem ser utilizados juntos ou de forma individual. Regravar uma música já é, por si só, fazer um cover. Se postada com a devida autorização do compositor, ela pode até ser mantida on line. E não, não basta escrever a palavra “cover” ao lado do título pra torná-la legal. A única forma dela estar regular é com a autorização do autor. Se estiver irregular, o autor pode solicitar sua derrubada a qualquer momento.

Algum artista pode também gravar algum projeto interpretando canções de outro ou realizar apenas um show, o que também pode ser considerado cover mas já numa pegada de “tributo”, como Gian & Giovani fizeram quando gravaram um projeto inteiro com canções de João Mineiro & Marciano ou Zé Ramalho quando cantou Raul Seixas. Já a apresentação caracterizada, que envolve não só cantar as músicas do artista mas também usar as mesmas roupas que ele usava, envolve a necessidade da semelhança física e, se possível, uma extrema semelhança vocal.

No pop e no rock, principalmente quando falamos de artistas e bandas estrangeiras, a existência do cover não só é aceita como é celebrada, afinal a maioria das bandas já acabou ou quase nunca se apresenta no Brasil. Assistir a um cover é a única forma que o brasileiro tem de matar a saudade, portanto, ou a vontade de ver as músicas sendo tocadas ao vivo. Alguns projetos de cover são bastante celebrados, como o do artista Rodrigo Teaser, que faz um espetáculo de outro mundo como o rei do pop Michael Jackson.

Por que, então, a existência de covers da Marília Mendonça incomoda tanto os fãs da cantora? Não seria essa uma forma válida de celebrar a história da rainha da sofrência?

Veja bem, existem diversos fatores controversos quando falamos desse assunto. Cantar as músicas de um artista não é proibido. Vestir-se como ele também não. Mas na gana de divulgar um projeto de tributo ou homenagem, o artista cover comete erros que podem ser involuntários, mas que mesmo assim pegam muito mal. Em um episódio recente, por exemplo, já forçaram uma aproximação com o pequeno Léo, filho da Marília, que ficou visivelmente confuso ao ver uma pessoa obviamente parecida com a mãe ao seu lado. Não dá pra dizer que essa atitude tenha sido coerente da parte da cantora cover.

Outra questão que não pode ser alardeada é quanto ao uso da palavra “oficial”. Não existe um formulário e uma prova que torna um determinado artista o cover oficial de outro. A única forma de “oficializar” um cover é levando-o ao conhecimento do artista homenageado ou de quem detém o direito ao uso da imagem e tendo a sua “benção”. É, portanto, apenas pra inglês ver e o artista pode simplesmente abençoar 10, 100, 1000 artistas cover se ele quiser. Ou simplesmente não abençoar ninguém e a banda ou artista cover simplesmente usar o nome “Oficial” por conta própria, afinal quem é que vai questionar?

No caso dos covers da Marília Mendonça, quem deu a benção? Ela? Pela reação do Gustavo, é óbvio que não. E, pior, que direitos são esses que a cantora diz ter pago devidamente? Pagou pra quem? Porque se alguém fosse realmente cobrar alguma coisa por isso, seria a família. Se alguém cobrou dela alguma taxa para que ela pudesse se apresentar vestida de Marília Mendonça, esse alguém passou a perna nela, sinto informar, afinal esse tipo de taxa simplesmente não existe.

Acredito que o grande problema na existência de covers da Marília é o fato de sua morte ainda ser algo recente. Ela se foi há pouco mais de 2 anos e até ano passado ainda tinha música dela sendo lançada nas plataformas digitais. A dor pela perda da Marília ainda é muito intensa e pra muitos ainda é difícil aceitar que ela se foi. Ver pessoas usando seu nome para exercer uma atividade profissional e lucrando com isso não parece algo legal, pelo menos no momento.

Se o brasileiro já convive bem com covers de bandas internacionais e com alguns nacionais como os numerosos covers do Legião Urbana e do Raul Seixas que circulam pelo país, acredito que seja necessário apenas esperar a ferida se curar. Mesmo que o esse tipo de cover não seja uma realidade no sertanejo, ninguém está proibindo ninguém de fazê-lo. Os fãs, aparentemente, só querem que a pessoa tenha um pouco mais de bom senso, assim como o Gustavo. Concordo que ainda seja cedo para usar a imagem da Marília dessa forma. Talvez tudo que precisemos para que consigamos ver uma homenagem de fato como uma homenagem é de um pouco mais de tempo.