Cristiano Araújo e as peças que a vida nos prega

Cristiano Araújo e as peças que a vida nos prega

A tragédia da madrugada de ontem não tem precedentes na história da música sertaneja. Tal qual um Richie Valens ou um Mamonas Assassinas (ou tantos outros), Cristiano Araújo morreu jovem e no auge do sucesso, dando fim a um projeto muito bem sucedido e que apenas cresceu durante os últimos 4 anos. Ao contrário das duplas, que quando perdem um de seus integrantes modificam a estrutura para a de um artista solo ou o substituem, o projeto Cristiano Araújo acaba com a morte dele. Era comum nos bastidores a opinião de que ele se tornaria em questão de tempo o artista número 1 do Brasil. Pelo menos um dos mais completos ele era, com certeza. Tinha talento vocal e invejável presença de palco. Sem falar no carisma. E isso era uma opinião praticamente unânime.

Algumas questões acabam sendo levantadas em momentos como esse. Nas redes sociais e grupos de whatsapp, a reação mais comum entre artistas e empresários é a incredulidade e a mudança imediata de opinião sobre a forma como o trabalho anda sendo conduzido. Artistas passam subitamente a pensar mais na família e em como a correria do dia-a-dia e o trabalho frenético de norte a sul do país talvez não valha a pena. Empresários pensam que talvez não valha a pena investir tanto e colocar em risco a própria vida e a de seus artistas, com tragédias que podem fazer tudo ir por água abaixo. O impacto no mercado sertanejo acaba durando algumas semanas. Foi assim após a morte do Zé Rico, inclusive, e o impacto deve ser ligeiramente maior com a morte do Cristiano.

Dia desses, em um aniversário da morte do João Paulo, escrevi sobre como seria a música sertaneja caso o João Paulo não tivesse morrido naquele acidente. Relembre AQUI. E sobre o Cristiano, é possível também traçar um paralelo e imaginar o que a música sertaneja perde com sua morte.

Cristiano Araújo foi um dos poucos artistas na história da música sertaneja a agradar simultaneamente fatias tão distintas do público. Ao mesmo tempo em que ele cantava músicas que algumas pessoas podem considerar “descartáveis”, como “Fazendo Bará Berê” ou “Hoje eu tô terrível”, ele ainda emplacava sucessos que alguns consideram de maior qualidade, como “Efeitos”, “Caso indefinido”, etc. Ele agradava o público masculino com o seu timbre vocal e o público feminino com a sua presença de palco e carisma.

Cristiano Araújo era ainda admirado pelos artistas veteranos por conta de seu talento e qualidade e pela proximidade que eles tinham com seu pai, que contratou shows de vários deles no começo da carreira quando dirigia uma casa em Goiânia. Aliás, o pai o criou para que ele se tornasse um grande artista. Era queridinho dos contratantes das mais tradicionais feiras agropecuárias e festas sertanejas em geral, porque trazia um dos melhores shows do Brasil por um cachê que não assustava, como boa parte dos artistas erroneamente faz hoje em dia, o que refletia em uma alta lucratividade, principalmente porque ele “carregava público”. Até poderia cobrar mais se quisesse, mas não cobrava e por isso mesmo agradava os caras.

Ele ia bem tanto no público das periferias quanto no das boates de alto padrão. E ainda tratava bem os fãs, não era aquele tipo de artista fresco que fugia até de fotos, com atitudes que costumam encurtar o tempo de permanência do mesmo na chamada “crista da onda”. Enfim, a gama de possibilidades pela frente fazia do Cristiano a aposta mais certeira dentro do segmento sertanejo. Seria um Leonardo das futuras gerações.

Prova disso foi a grande comoção gerada pela tragédia, que assustou os profissionais de imprensa do eixo Rio – São Paulo, mostrando que eles estão completamente alheios ao que se passa no resto do Brasil e produzindo uma das mais desastradas coberturas de todos os tempos. Profissionais respeitados como Fátima Bernardes chamaram o Cristiano Araújo de Cristiano Ronaldo. O Cidade Alerta, do Marcelo Rezende, repetiu três vezes o vídeo do DVD do Leonardo que tinha a participação do Cristiano, ao invés de trazer um vídeo do DVD do próprio Cristiano. Jornalistas de renome como Mauricio Stycer questionaram a importância dada ao artista, como se ele não merecesse tamanha cobertura por não ser “tão famoso assim”. O jornalista Helder Maldonado, do R7, escreveu um texto muito coerente a respeito disso (confira AQUI), explicando como o Cristiano representava uma nova forma de cultura, que agora independe do respaldo dos engomadinhos cariocas e paulistas.

A verdade é que o Cristiano era hoje um dos principais representantes de uma nova onda sertaneja. Ele não era universitário, ao contrário do que lemos em diversos veículos ontem e hoje. Ele já era um representante da incorporação do sertanejo universitário ao tradicional, porque reunia as principais características dos artistas veteranos, mas falando muito bem ao público jovem.

Na esfera pessoal, era um dos mais queridos artistas dos bastidores. Humilde, sempre tratou todos em pé de igualdade. Perder um artista como ele e ainda mais de uma forma tão trágica é revoltante. O próprio pai dele chegou até a questionar a existência de Deus durante uma entrevista dada ontem. Sem dúvida, fica uma enorme lacuna que provavelmente demorará a ser preenchida, a do artista completo e que agrada a gregos e troianos. Isso se é que ela vai ser preenchida.