Cyberbullying virou crime – o que vai ser dos haters profissionais?

Cyberbullying virou crime – o que vai ser dos haters profissionais?

Foi sancionada hoje a lei que tipifica o crime de bullying, inclusive o virtual. Segundo a lei, bullying e cyberbullying (quando acontece de forma virtual) são atos de intimidação, humilhação ou discriminação realizados sistematicamente, individualmente ou em grupo, mediante violência física ou psicológica, de forma verbal, moral, sexual, social, psicológica, física, material ou virtual.

Os crimes passam a constar no código penal, com pena de multa. No caso do cyberbullying, também pode render até quatro anos de prisão. A lei também duplica a pena para o crime de indução ou instigação ao suicídio, que é de dois a seis anos de reclusão, quando o autor for responsável por um grupo, comunidade ou rede virtuais.

A nova lei vai de encontro ao recente episódio envolvendo o suicídio da jovem Jessica Canedo depois que seu nome foi vinculado a uma notícia falsa envolvendo um falso envolvimento seu com o comediante Whinderson Nunes, que ganhou força depois que foi compartilhada na página “Choquei”, considerada uma das mais influentes do mundo. Mas pode servir também para qualquer influenciador que utilize o hate e o deboche que muitos julgam “inocente” como principal instrumento de engajamento. E convenhamos, esse tipo de conteúdo no meio musical tem sido cada vez mais prejudicial.

“Porra, Marcão, você quer comparar o que a Choquei fez com o que essas páginas de deboche do sertanejo fazem?”. Ora, parece exagerado comparar se a gente levar em conta que até hoje não tivemos nenhum suicídio no meio da música sabidamente motivados pela aparição da pessoa em alguma dessas páginas. Mas já tivemos, sim, casos de depressão agravados pelo hate gerado por essas páginas. E agora, com a nova lei, o papinho de que “se está na Internet, está sujeito a isso” não cola mais.

Depois da morte do Edivan, o talentoso parceiro da Gisele, eu soube de uma história que corrobora todos esses argumentos que eu venho há meses defendendo e que agora, com a nova lei, finalmente vão ser tratados de acordo com a sua real gravidade.

Um dia antes da morte do Edivan, uma das páginas que costuma debochar das vozes de artistas postou um conteúdo para gerar uma expectativa a respeito de um vídeo completo que ainda seria postado sobre a dupla Edivan & Gisele. Sabendo da natureza crítica e pesada da página, Edivan ligou para um amigo externando preocupação e se mostrando muito ansioso com o que seria falado a respeito deles, já que no “spoiler” o “analista vocal” usou sua linguagem de hate habitual.

Na mesma noite, Edivan faleceu. É claro que não dá pra afirmar que a postagem teve influência direta no que quer que tenha causado a morte dele, mas e se teve? Se com um mero spoiler o provável problema cardíaco do Edivan pode ter se agravado, será que postagens ainda mais diretas desta ou de outras páginas que utilizam o hate e o deboche como estratégia não teriam potencial para causar problemas similares? Seja o agravamento de problemas cardíacos ou de depressão.

E não tem outra forma de tratar esse assunto: o hate e o deboche que essas páginas praticam é, sim, cyberbullying. Algumas delas praticam ainda de forma sistêmica, escolhendo alvos específicos e os atacando reiteradamente, tentando arrancar deles algum tipo de reação, para que o engajamento suba ainda mais. Mas a que custo?

A lei, inclusive, não separa personalidades anônimas de personalidades famosas. O cyberbullying pode ser praticado contra famosos também. E no caso das páginas de hate e deboche do mundo da música, ele é praticado principalmente contra cantores já com certa notoriedade. A crítica é extrapolada de forma escancarada e se torna perseguição pura e simples. Tal qual a nova lei descreve.

Mas é bom esclarecer que o cyberbullying praticado por estas páginas só vai ser passível de punição quando houver denúncia dos envolvidos. Eu já mostrei aqui no Blognejo em uma outra ocasião todas as etapas de um possível processo que alguém possa querer mover caso se sinta atingido por uma dessas páginas. A nova lei elevou o potencial punitivo e tornou o que essas páginas fazem crime, de uma vez por todas. Se você é do time que enxerga esse tipo de postagem que elas praticam como algo ofensivo, fica a dica para qual tipo de atitude pode e deve ser tomada a partir de agora. Mas se mesmo depois da entrada em vigor de uma lei que finalmente criminaliza a prática do cyberbullying você ainda vai continuar fazendo parte do time que defende o deboche e o hate, aí vai da sua consciência.