Diário de um cantor sertanejo – A crise tá braba

A popularização da música sertaneja entre os jovens criou um fenômeno cruel: o aparecimento de cada vez mais duplas, uma “mais pior de ruim” que a outra. Pelo menos 90 % delas. Sempre defendi o surgimento de novos artistas e reconheço abertamente que é possível que tais duplas melhorem com o tempo e até cheguem a fazer sucesso (e não é o que mais acontece?). O problema é que tais duplas, quando no início da carreira, tendem a dominar o mercado dos bares, botecos e similares, pelo simples fato de serem mais baratos.

O que eu quero dizer com isso? Bem, tem acontecido um fenômeno inusitado aqui em Uberlândia. Quando eu e meu irmão começamos a cantar na noite (bares), costumávamos receber cerca de R$ 100,00 por show, e ainda levávamos a tiracolo mais três músicos. No fim das contas sobravam cerca de R$ 20,00 por pessoa. Com o passar do tempo, fomos conquistando respeito e, consequentemente, nosso cachê médio aumentou para R$ 280,00, ou seja, R$ 70,00 por músico (como se isso fosse muito).

Tudo ia bem até começarem a brotar do chão, das paredes, dos esgotos, das ruas, enfim, de todos os lugares de Uberlândia e fora dela, cada vez mais duplas. Assim como a gente no início da carreira, essas duplas também não têm qualquer noção do real valor de seu trabalho. Daí a popularização das boates que costumam apresentar 10 duplas ao mesmo tempo, todas cantando de graça. O fato é que aos poucos os donos das casas foram substituindo duplas “velhas de casa” por duplas novas e que cobram mais barato. Nessa história toda, a minha dupla também acabou sendo prejudicada.

Imaginem a seguinte situação: você quer comprar um achocolatado que vc sabe que é bom, mas o momento financeiro é desfavorável, então você acaba levando o achocolatado mais barato ao invés daquele caro de sua preferência. É mais ou menos isso que acontece. Cada vez mais pressionados a diminuir os gastos, os donos de bares acabam dando preferência a quem oferece preço baixo. A qualidade, sem sombra de dúvida, NÃO é importante.

O que fazer numa situação como essa? Bom, existem algumas opções. A primeira delas é ABANDONAR O BARCO, isto é, os mais afoitos podem simplesmente desistir. Outra opção é DIMINUIR O PREÇO, o que implica voltar a um patamar anterior, isto é, retroceder. Imaginem o quanto é difícil para uma dupla perceber que tem que voltar a um nível anterior na carreira, ao invés de somente continuarem numa escala ascendente.

Isso acontece porque nem toda dupla consegue encontrar um empresário competente pra gerir a carreira. É muito mais complicado que parece conseguir encontrar uma pessoa disposta a ajudar de forma séria. A gente está nos botecos há 4 anos e ainda não conseguimos ninguém, mesmo já tendo gastado o que podíamos e o que não podíamos com a gravação e divulgação de um CD comercial e competitivo. Como podem ver, isso não é garantia de nada. E os botecos estão aí, dispostos a nos receber de volta, mas somente se o preço for menor que o de antes.