Diário de um cantor sertanejo – Barzinhos: quando parar???

O que esse post de hoje tem a ver com o assunto que vem sendo abordado aqui na seção “diário”? Leiam e entendam.

É fato que uma carreira musical é construída por etapas. Na minha concepção, essas etapas devem, necessariamente, ser as seguintes:

1ª) interesse pela música;
2ª) aprendizado;
3ª) apresentações para parentes e amigos
4ª) apresentações em bares e pequenos shows;
5ª) apresentações em boates, casas noturnas e grandes shows.

Na minha opinião, todo e qualquer cantor sertanejo que de alguma forma pule uma dessas etapas não está preparado para o sucesso. Cantar em bar por exemplo, por pior que seja, é a única forma contemporânea que eu conheço de realmente saber o que o público quer. Não é segredo pra ninguém e não tenho receio nenhum de dizer que o público que vai em boates e festas universitárias dizendo que quer ouvir um sertanejo têm, em 85% das vezes, um vazio no lugar do cérebro, causado pelas altas doses de bebida alcoólica ou substâncias psicotrópicas ingeridas.

Aqui em Uberlândia, pelo menos, pouquíssimos são os frequentadores desses tipos de local que realmente sabem o nome das duplas que estão no palco. Fora o fato de que as boates daqui quase nunca pagam cachê às duplas que se apresentam, e quando o fazem é uma merrequinha que mal dá pra pagar a janta. Acaba que os bares se tornam a melhor opção pra quem tem interesse em manter uma certa renda mensal. Como eu disse, essa é a realidade em Uberlândia. Não sei como funciona nos outros lugares.

Então, quando já se tem uma certa renda cantando em bares e coisas do gênero, fica meio difícil largar o osso. Vamos às explicações. Não é nossa pretensão ficar a vida inteira tocando em bares. Por isso, investimos o que tínhamos e o que não tínhamos na gravação de um bom disco, competitivo e comercial. A partir disso, queremos, é claro, realizar shows de alto nível, tocar em rádio e etc. Concordam comigo, então, que não dá pra querer continuar cantando em bares e esperar que o público queira comprar ingressos para assistir também aos shows maiores. Ora, se dá pra ver a dupla num bar, pra que ir num show também? No bar dá pra ver de pertinho, no show não…

Pode parecer meio paradoxo, mas é verdade. Quem busca o sucesso, tem que abandonar os botecos. Claro que tudo a seu tempo. Não é de uma hora pra outra. Minha dupla tem feito o seguinte: estamos diminuindo a cota de apresentações em bares aos poucos. Assim valorizamos o nome da dupla e liberamos a agenda para eventuais contratos. Mas não pensem que é fácil abrir mão de uma renda que já temos como certa desde o início da nossa carreira. Temos que “dar nossos pulos”.

No meu caso, montei um repertório variado (com MPB, pop rock, etc.) e passei a realizar apresentações sozinho nos bares da cidade. Assim eu mantenho minha renda no mesmo nível e teoricamente não desvalorizo o nome da dupla. O “porém” é que é inevitável que um conhecido, ao me ver tocando, pense que eu larguei a dupla. Outro “porém” reside no fato de os bares que davam espaço para a minha dupla não se interessarem pelo meu trabalho solo. É aquele velho discurso: aaaahhhh, você é melhor com a dupla. Claro, com a dupla nós levamos toda uma estrutura. Quando canto sozinho, somente o violão me acompanha.

Tomo todo o cuidado de não permitir divulgações do tipo: Marcus, da dupla Marcus & Murilo. Quando canto sozinho, o nome é Marcus, ou Marcão, e ponto final. Antes de começar a cantar, porém, sempre esclareço que faço parte de uma dupla sertaneja.

O correto da minha parte seria NÃO cantar em hipótese alguma sem a companhia do meu irmão. Mas a situação calamitosa da minha conta bancária e do meu contra-cheque não me permitem esse capricho. Pelo menos ainda não. Então, enquanto vou me estabilizando finceiramente, vamos divulgando a dupla por outros meios que não os bares. É isso ou viro mototaxista, entregador, vigia noturno, etc, tudo na tentativa de complementar a renda.