Na Estrada: Maiara & Maraísa inauguram nova fase do sertanejo feminino em gravação de DVD

Na Estrada: Maiara & Maraísa inauguram nova fase do sertanejo feminino em gravação de DVD

Entra ano, sai ano, os mais otimistas sempre dizem que “pode ter chegado a vez das mulheres no sertanejo”. Mas convenhamos que, por mais otimistas que sejamos (e eu me incluo nessa), a presença feminina no sertanejo nunca foi mais do que pontual. Algumas pouquíssimas mulheres conquistaram de fato um espaço marcante na história do gênero, como Roberta Miranda, Paula Fernandes (que venderam milhões de discos), Inezita Barroso (como maior defensora da música caipira), Fátima Leão (a maior compositora da história do gênero), Maria Cecília e Thaeme (que tornaram-se comercialmente relevantes), por exemplo.

No entanto, desde a Paula Fernandes (já que após a Roberta Miranda nos anos 90 o sertanejo sofreu praticamente um apagão no que diz respeito ao apoio às mulheres no gênero) o sertanejo feminino se prendeu muito ao estilo “angelical”, “doce”, ou ao perfil “diva”. Enquanto os homens souberam diversificar cada vez mais os estilos após a fase universitária, as mulheres se prenderam a um universo muito restrito e difícil de ser explorado. Faziam falta ao gênero sertanejo mulheres que conversassem diretamente com outras mulheres, com problemas parecidos e que pudessem de fato representá-las, e não que fossem meros exemplos de pessoas que as mulheres normais não queriam ou não conseguiriam ser.

E é esse movimento que é possível notar se intensificando do ano passado pra cá. Nunca antes na história do gênero tivemos essa quantidade de mulheres desempenhando papéis tão importantes no ramo da composição. Elas estão escrevendo o que os homens estão cantando. Além das próprias Maiara & Maraísa, é possível apontar nomes como o da Paula Mattos e da Marília Mendonça, a compositora mais requisitada da atualidade, como legítimas representantes desse momento do sertanejo feminino. Em comum a todas elas está o fato de que, além de compositoras incríveis, são também cantoras sensacionais. E todas elas gravaram ou estão prestes a gravar projetos de peso por esses dias.

Maiara & Maraísa gravaram o delas na semana passada, na Santafé Hall, em Goiânia. Já havia uma certa expectativa em torno desse projeto, afinal de contas sempre foi de conhecimento geral o envolvimento do Jorge. Sem falar que a ótima “No dia do seu casamento” ajudou a aumentar ainda mais o burburinho. Tornou-se um hit em Goiânia, mas acabou não sendo explorada em todo o seu potencial a nível nacional. Talvez porque ainda não havia chegado o tal momento chave que eu disse acima.

Este DVD consolida este momento. A produção é do Pepato, que a julgar pelas atualizações nas suas redes sociais nos últimos meses está tão ou mais empolgado que a própria dupla com o disco. Ainda que haja muita gente de peso no meio com o mesmo velho discurso de que “mulher não dá certo no sertanejo”, o momento nunca foi tão oportuno. Ora, se as mulheres estão escrevendo o que os homens estão cantando de uma forma nunca antes tão intensa, por que cargas d’água elas também não podem cantar o que escrevem, afinal de contas? Já que elas obviamente têm talento pra isso.

A prova maior de que o timing é esse é o repertório deste DVD. Contemporâneo, falando diretamente ao público. Poucas vezes testemunhei um repertório de tão alto nível em um DVD sertanejo. De ponta a ponta, músicas fantásticas e com personalidade. Personalidade essa acentuada pela interpretação impecável da dupla. Já era notório o talento vocal das duas, e isso ficou provado no que elas demonstraram no palco da Santafé.

As participações também ajudam a mostrar a força que a dupla já tem no circuito. Além de Jorge & Mateus, participaram também o cantor Cristiano Araújo, a dupla Bruno & Marrone (num duelo de interpretação incrível na música “Dois Idiotas”), e a Marília Mendonça, que fez parte do momento mais marcante do DVD, com as três cantando a música mais “corna” do disco enquanto tomavam whisky em uma mesa de boteco.

Aliás, quando é que seria possível imaginar uma cena destas em um DVD protagonizada por mulheres e não por homens? O simbolismo desse momento é a melhor exemplificação possível dessa nova fase feminina no gênero sertanejo. Elas querem ser tratadas de forma igualitária. Elas também bebem, elas também vão pra balada, elas também levam chifre. Mesmo sem essa pretensão, isso acaba sendo um forte movimento feminista. Pelo menos dentro do segmento sertanejo.

Ora, se eles podem, por que elas não podem? Nada de “se esse repertório fosse cantado por uma dupla de homens, explodiria”. Esse é um tipo de projeto que agrada tanto às mulheres quanto aos homens, como sempre ocorre com os melhores projetos sertanejos. Onde é que está escrito que precisa ser cantado por homens? Se não pegar, é por puro e simples preconceito. E convenhamos que já tá mais do que na hora dessa palhaçada acabar.

Abaixo, fotos do sempre intrépido Rubens Cerqueira.