Encontros e Desencontros no Grupo Tradição

Apesar de uma intensa campanha de uma ampla legião de fãs e de vários blogs e sites espalhados pela Internet, o Grupo Tradição definitivamente sentiu a saída de seu front-man, o Michel Teló. O mais recente CD, o “Caixinha de Surpresas” ainda não emplacou da forma que se esperava. Mas outro fator tem se mostrado ainda mais preocupante: da equipe que consagrou o Tradição (a da época do Anderson ainda gordinho) só restaram 2 membros.

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No meio do ano passado, Michel Teló oficializou sua saída do grupo. Especulações à parte, aquele velho e conhecido papo de que “vou seguir meu sonho”, “o grupo continua firme e forte”, “a amizade prevalece” e patatí patatá imperou durante todo o período de transição. Entretanto, tratava-se do aparente “líder” da banda. Guilherme Bertoldo, do grupo “Os 4 Gaudérios”, foi chamado para substituir o Michel mas, mesmo com grande talento na voz e na gaita de ponto, ainda não viu chegar a sua hora de assumir definitivamente o posto que foi do loirinho.

Vejam bem, o grupo Tradição já era conhecido por fazer as vezes de “Roupa Nova” da música sertaneja. Boa parte dos integrantes também cantava. Na época do Michel, no entanto, o padrão era o Michel cantando e o restante tocando. Quando Gui Bertoldo entrou esperava-se, então, que ele assumisse o mesmo papel, como vocalista absoluto. O que se vê, no entanto, é o pouco aproveitamento de seu talento no CD. O “Caixinha de Surpresas” conta com uma média bem menor de músicas com ele na voz principal do que a média que o Michel tinha em sua época. O baterista Anderson Nogueira assumiu boa parte dos vocais, bem como o baixista Carlos Dias.

Há que se lembrar ainda da saída do emblemático acordeonista Gérson Douglas. Utilizou como justificativa o mesmo clichê utilizado pelo Michel. Disse que montaria um projeto com um antigo membro do Tradição, o Serjão. Semanas depois, no entanto, era ele quem estava comandando o acordeon nos shows do Michel. E o projeto com o Serjão aparentemente foi deixado de lado. Já corria à boca pequena o papo de que o Gérson era mais apegado ao Michel do que aos outros membros, então uniu-se o útil ao agradável. Para subsituí-lo, convidaram Jefferson, o sanfoneiro do grupo Zíngaro. Assim, aparentemente, fechou-se a nova formação do grupo Tradição.

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Entretanto, passados alguns poucos meses do lançamento do novo disco, que serviria pra mostrar que o Tradição sobreviveria, sim, sem o Michel Teló e o Gérson, mais fatos inusitados ocorreram. De uma só vez saíram os percussionistas Arapiraka e Wlájones. O Wlájones, aliás, tinha acabado de receber a oportunidade de fazer parte do material de divulgação da banda e da capa do disco. Ele já era músico do Tradição, mas só nessa mudança de formação é que ele foi “promovido” ao cargo de membro oficial. Tudo pra meses depois ele acabar saindo. O que se tem dito sobre essa saída súbita de dois membros do grupo é que ocorreram desavenças com a parte administrativa da banda. Mais uma vez utilizaram a máxima do “somos todos amigos” e bla bla bla. O fato é que, com isso, ficaram apenas 3 integrantes da formação “original” (atenção às aspas, já que o grupo Tradição tem mais de 10 anos de estrada e por ele já passaram diversos outros grandes músicos).

Pouco tempo depois do anúncio da saída de mais dois membros da banda, outro choque estava prestes a ser confirmado. Anderson Nogueira, o ex-gordinho, o cara que canta e toca bateria ao mesmo tempo com uma desenvoltura pouco vista no Brasil (que eu me lembre assim de cara, só o Serginho do Roupa Nova tem a manha de fazer algo parecido), também anunciou que deixaria o Tradição. A justificativa: “seguir seu sonho”, “as idéias já não eram as mesmas”, “vontade de seguir carreira solo”. Tive a oportunidade de fazer alguns questionamentos junto ao próprio. Segundo o Anderson, não houve desentendimento, não houve briga. Ele ainda disse que acredita muito na continuidade da banda e que o que veríamos daqui pra frente no grupo seria a”nova e melhorada geração do Tradição”, numa referência à grande quantidade de garotos com os quais a banda passou a contar. Para a persussão, substituindo o Arapiraka, convidaram o jovem Juliano, do grupo “6 é demais”, aquele mesmo grupo que já mostramos AQUI no Blognejo e que era conhecido como a versão mirim do Tradição. Ficaram da formação original, então, apenas o Pekóis e o Carlos.

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Com mais essa mudança, o que se percebe é que o baixista Carlos Dias assumiu as vezes de “líder” do Tradição. O Pekóis ainda está lá, firme, mas quem tem “feito as correrias”, pelo menos aparentemente, tem sido o Carlos. Fora que, entre os cantores, ele é o único que ficou da formação da época do Michel. O que causa uma certa preocupação é, mesmo, a continuidade da metodologia que o Tradição consagrou. Definitivamente, não há na história da música sertaneja um grupo mais versátil, extrovertido, interessante e criativo que eles. Tanto que o respeito de que gozavam mesmo antes de estourarem era algo notável. O grupo Tradição ajudou a inaugurar uma nova fase na música sertaneja. Hoje, olha-se de outra forma uma “banda” sertaneja. O que antes era visto como piegas, hoje é encarado como algo que pode se mostrar original e incrível. Haja vista grandes grupos que pipocaram no segmento depois que o Tradição se consagrou, como o Tchê Garotos, Tchê Barbaridade, Garotos de Ouro, Grupo Rhass e tantos outros.

Os fãs se preocupam com tantas mudanças. Não que os novos membros não sejam capazes de elevar o Tradição a um nível ainda melhor do que o que tinham atingido. Essa “luansatanização” do Tradição (a inclusão de membros na faixa dos 19 anos) pode até ser positiva. O que entristece os fãs é essa sensação de que estão talvez “jogando fora” um trabalho que levou anos para ser consagrado. Ninguém se surpreenderá, inclusive, se o Pekóis ou o próprio Carlos anunciarem também a saída do grupo. Oras, se 5 membros já o fizeram , o que impede que os outros 2 restantes também o façam?

Outra coisa a se observar: o que sentem os novos integrantes com todas essas mudanças? Vejam bem, o cara está lá, com seu grupo, fazendo um showzinho aqui, outro ali, mas levando a vida. Chega alguém ligado ao grupo Tradição e diz: “quer entrar”? O cara, que já era fã há tempos do grupo, aceita na hora, pensando que aquela vai ser a oportunidade de sua vida. De repente ele começa a ver o grupo original se desfazendo e, talvez até porque ele tenha assinado um contrato, não pode argumentar, não pode opinar e talvez não pode nem pensar em sair, dada a probabilidade de uma multa cheia de zeros antes da vírgula. Vejam que a atual formação do grupo conta com 3 rapazes vindos de grupos que muito provavelmente se espelhavam no Tradição. 3 rapazes que comprometeram os grupos dos quais participavam em nome de um sonho. E aí?

O Tradição é ainda um grupo competente, capaz. Pode ganhar um novo gás com todas essas mudanças. Não sabemos se o período de transição acabou, afinal mal faz uma semana que último discidente anunciou sua saída. O que se espera é que o grupo mantenha o mesmo alto nível de competência que o consagrou. Abaixo, uma breve lista das atuais atividades dos membros “desertores”:

* Michel Teló = muitos shows, altíssimo investimento na divulgação de sua carreira solo, e já uma segunda música de trabalho pipocando nas rádios. Mas ainda sem o espaço outrora conquistado pelo grupo Tradição.

* Gérson Douglas = apesar de ter anunciado um projeto com o Serjão, antigo membro do Tradição, pode ser visto acompanhando o Michel Teló em seus shows.

* Arapiraka = por enquanto parece estar curtindo umas férias.

* Wlájones = música de estúdio respeitado, realizando gravações de bateria e percussão para produtores de alto nível, como Ivan Myiazato.

* Anderson Nogueira = prepara um disco solo no melhor estilo vaneira.

O nosso colaborador e amigo Tim Pin também escreveu sobre o mesmo tema em seu blog. Clique AQUI para ler a postagem.