Inezita: caipira de fato

Inezita: caipira de fato

Domingo. O dia em que por anos e anos nos acostumamos à companhia da maior defensora da nossa música caipira e do melhor programa do gênero já produzido, o Viola Minha Viola. Infelizmente, não teremos mais a companhia da Inezita e o futuro do Viola Minha Viola ainda é incerto. Nada mais justo, então, que postar neste domingo, o primeiro após a morte da Inezita, um texto sobre ela.

Porém, resolvi fazer diferente desta vez. Por se tratar da figura feminina mais importante de nossa música caipira, pedi a uma mulher com conhecimento de causa que escrevesse a respeito dela: a cantora e compositora Angell Lima, de Catalão – GO, que já teve alguns textos incríveis postados aqui no blog há alguns anos. os leitores mais antigos com certeza se lembrarão. Conheço poucas mulheres tão jovens e que saibam tanto quanto ela a respeito do gênero caipira. Acompanhem um pouco mais do trabalho dela através de seu site oficial ou de seu perfil no Facebook.

Abaixo, um texto de mulher pra mulher sobre a Inezita.

“Inezita: caipira de fato

90 anos em algumas linhas. Talvez o maior desafio já me imposto a partir de uma situação à qual sempre é mais sensato se valer do silêncio e refletir. A morte sondou a música sertaneja na última semana. Partiu uma das vozes mais reconhecidas do nosso segmento, grande Zé Rico, e mal pudemos erguer o olhar de choque e lá se foi Inezita Barroso. É dela que me valho da gratificante oportunidade de discorrer, superficialmente, claro, já que não ousaria pensar que seria capaz de reunir tantas proezas de uma vida fantástica em um único texto.

Alguns a conheceram ali, no Viola Minha Viola, firme ao romper a dimensão do tempo, apresentando o programa e interpretando canções. Dava até para se iludir pensando que ela jamais sairia de lá. Elegante, dinâmica e carinhosa, apesar do seu afamado senso crítico, ali tomou para si a missão de ser refúgio da viola caipira.

Últimos minutos deste 8 de março, dia das mulheres, ela partiu. E ser mulher para Inezita foi de uma plenitude que poucas de nós poderemos conquistar. A boa convivência dela no mundo moderno quase nos faz esquecer suas proezas em uma época onde a mulher não tinha espaço.

A maioria das pessoas ao conviverem com a velhice de alguém costuma colecionar na memória apenas os momentos dos anos que tangem juntos. No caso de Inezita, é preciso considerar que hoje a música sertaneja tem espaço. Chegou às baladas, aos pubs, se consolidou. Na época da pequena Inez as coisas eram bem diferentes. Ninguém que vivia em São Paulo, como ela, de família abastada, ousaria a se aventurar pela música caipira. Ora, pois, ela não era como todas as outras meninas! Na fazenda da família, ainda na infância, conheceu as canções do sertão. Apaixonou-se de forma que se tornou uma fera muito bem preparada sempre disposta a defender nossa raiz.

Cursou Biblioteconomia na USP, antes mesmo de ser cantora profissional. Dirigindo o próprio carro, o que para uma mulher naquela época era algo raríssimo, viajou pelo país estudando música regional. Personalidade tão forte quanto a voz, violão em punho, depois de muita briga também tocando viola, estrela de filmes e aquele sorrisão que era uma das marcas mais célebres dela, que já fez de tudo um pouco. Inezita foi realmente uma diva da música caipira. Tanta proeza!

Quem nunca cantou a moda da pinga… Compreender o grau de importância de Inezita para a música raiz é um fator estratégico para quem quer inclusive conseguir um bom som, afinal, ela não se contentou em ser uma simples interprete com um violão na mão; realmente se envolveu com os elementos da música que ela acreditava e com verdade e paixão.

Abaixo um vídeo um tanto extenso, mas que retrata bem as proezas de Inezita, com bom humor:

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