Investimento = Gastamento

Investimento = Gastamento

A fase mais recente da música sertaneja ajudou a valorizar as figuras de alguns profissionais envolvidos com o processo de pavimentação do sucesso de um artista. Entre eles, uma figura nunca esteve tão evidente: a do investidor. Tornou-se indispensável a existência dele na carreira de um artista para que o mesmo consiga alcançar alguma coisa.

Na verdade a figura do investidor sempre existiu. A diferença é que antes essa função era geralmente acumulada pelo próprio empresário, que atuava em várias frentes de uma só vez, desde a marcação de shows até o investimento na carreira do artista. Hoje, entretanto, o empresário praticamente só atua como investidor a partir do momento em que o artista começa de fato a render muita grana. Para o pontapé inicial, ele conta quase sempre com a ajuda de alguém endinheirado nos bastidores.

O investidor pode ser alguém que se deu muito bem em outra área e agora está interessado em entrar no mercado sertanejo, ou até mesmo alguém que já trabalha no mercado sertanejo há tempos e se interessou em entrar como sócio no projeto de um novo artista que precisa de uma ajudinha financeira que o empresário ainda não tem condições de dar.

Acontece que de uns tempos pra cá o que se observa é a total banalização da figura do investidor. Se antes a função dele era prover os recursos necessários para que o empresário pudesse fazer seu trabalho e o artista tivesse condições de fazer seu projeto funcionar, hoje em dia a exposição do investidor só traz dores de cabeça.

Estamos numa época em que o gasto desenfreado na música sertaneja ficou tão corriqueiro que quando aparece algum artista desavisado com um investidor abastado, logo surgem centenas, milhares de urubus voando na carniça a fim de ganhar o seu quinhão em cima dos pobres coitados. Coitado do artista que, inocentemente, revela no mercado que algum magnata da pecuária o está auxiliando, por exemplo.

É uma regra no mercado hoje em dia. Se descobrem que um artista está com dinheiro pra gastar, então o mercado vai fazê-lo gastar. E muito. Hoje, investimento virou sinônimo de “gastamento”. E tudo sai mais caro quando o mercado sabe que o artista tem alguém financeiramente poderoso bancando seu projeto. Os próprios profissionais do mercado sertanejo já pensam que “se o cara tem pra gastar, ele pode pagar o que a gente tá pedindo“. E assim o projeto do cara acaba se resumindo em pagar um tanto aqui, outro tanto ali e outro tanto acolá.

Isso acontece de forma mais evidente ainda com artistas recém chegados em grandes escritórios de sucesso. Toda vez que um grande escritório apresenta um novo “produto”, as anteninhas do mercado já ficam oriçadas. A parcela inescrupulosa de profissionais do mercado sertanejo já enxerga ali mais uma fonte inesgotável de dinheiro. E nem se faz de rogada em sugar o que der conta de mais um artista. Acontece que algo nisso tudo está muito errado.

Desde que o mundo é mundo e desde que o primeiro “investidor” apareceu querendo gastar seu dinheiro em alguma coisa porque acreditava que aquilo ali poderia lhe render lucro depois, o objetivo principal é esse: obter retorno financeiro. O investimento presume, obviamente, a intenção do retorno. Ninguém é burro ao ponto de colocar dinheiro em alguma coisa sem querer que aquilo lhe renda dividendos depois.

O problema é que a estrada do sucesso é muito sinuosa. Nem todo artista consegue alcançar seus objetivos. Mas o que não falta por aí é investidor interessado em injetar dinheiro em alguém, justamente porque o mercado sertanejo anda aquecido há pelo menos uns 6 ou 7 anos. Mas o fato é que são poucos os que conseguem recuperar o que gastaram, ainda mais perante o suga-suga do mercado.

Para fazer sucesso hoje em dia, a figura do investidor é indispensável. Mas é aconselhável manter o investidor em segredo, tanto o nome quanto a quantidade de dinheiro que ele tem, senão o mercado dá sua patada de urso no intuito de arrancar o máximo de dinheiro possível.

Fazer sucesso sem gastar é impossível. Mas fazer sucesso só gastando desenfreadamente segundo os mandos e desmandos de profissionais inescrupulosos do mercado sertanejo também é algo impensável. É mais provável que o artista vire piada nas rodas de conversa antes de fazer o sucesso que almeja. Mesmo que o trabalho do cara seja bom. Gastar sim, mas com cautela. Se todos os profissionais pensassem dessa forma, talvez essa banalização da figura do investidor fosse devidamente evitada.

Obs.: Eu sei que a palavra “Gastamento” não tem o mesmo significado. Só a usei ppor conta da semelhança de pronúncia e pra me fazer entender.