I.U.O. Fábio Jr – Romântico

fabio-jr1

Antes do rei Roberto fazer uma homenagem à música sertaneja com seu show “Emoções Sertanejas”, outro queridinho das coroas e consagrado cantor romântico já o tinha feito. Fábio Jr lançou há alguns meses este disco, intitulado “Romântico”, que, apesar do nome sem referências diretas, presta uma das melhores homenagens que a música sertaneja já recebeu de cantores de fora do segmento.

Apesar do disco não ser inteiramente uma homenagem, 9 das 13 faixas foram escolhidas entre alguns medalhões do nosso segmento. A maioria delas, aliás, ganhando uma roupagem totalmente nova, mais adequada ao estilo do cantor. As canções consagradas do repertório sertanejo escolhidas foram “É o amor”, “Estrada da Vida”, “Telefone Mudo”, “Cabecinha no ombro”, “Rio de Piracicaba”, “Amizade Sincera”, “Fio de Cabelo”, “No rancho fundo” e “Cabocla Tereza”. A única que manteve praticamente as características originais, exceto pelo novo arranjo, foi “Telefone Mudo”. O resto das músicas ganhou roupagens que às vezes podem até soar estranhas aos ouvidos mais conservadores.

Já é notório que o Fábio Jr não é um cara que se preocupa muito em lançar novidades. Sabe-se lá quantos anos faz que ele não lança um CD inteiro de canções inéditas. Quando lança 2 ou 3 inéditas num CD, já é lucro. No restante, baseia sua discografia apenas em coletâneas, discos ao vivo ou acústicos dos maiores sucessos e por aí vai. A inovação neste trabalho reside no fato de que ele não está regravando apenas os próprios sucessos, como sempre fez. Ao invés disso, escolheu várias canções que não faziam parte de seu repertório. A exceção é a manjada “Alma Gêmea”, que está em TODOS os discos dele pelo jeito. Fora essa, entre as “não-sertanejas” estão o clássico “Românticos” e as versões “Amar é perdoar” (de uma canção da Norah Jones, que foi abertura da novela “Cama de Gato”) e “Quando um homem se apaixona” (versão de “When a man loves a woman”, que não é aquela do Chitãozinho & Xororó). Enfim, música inédita mesmo o disco não tem nenhuma. Mas o foco deste texto são as canções sertanejas regravados pelo Fábio Jr. Dito isso, vamos às considerações.

O legal de ouvir canções sertanejas cantadas pelo Fábio Jr com as suas próprias e peculiares características é perceber que dá pra fazer coisas diferentes com as canções do nosso repertório. As características interessantes do disco começam pela harmonia adotada nas canções. Em quase todas as canções, um acordeon faz a “cama”, junto com uma bateria tocada com vassourinhas no lugar das tradicionais baquetas. O som proporcionado é mais suave, mas agradável aos ouvidos, menos agressivo. Na verdade, essa é a pegada do disco inteiro. Músicas concebidas para serem ouvidas com cuidado, carinho, deitado num sofá ou numa rede, como aliás poucos sertanejos se atrevem a fazer nos últimos tempos, o que faz realmente muita falta. Mérito, nesse caso, da experiência do produtor Guto Graça Melo, que já está acostumado a fazer um som que não agride os ouvidos (ele produz Roberto Carlos também em algumas ocasiões).

Fábio Jr regravou aqui canções sertanejas que nem os próprios sertanejos ousam mais regravar, por causa da pressão de “mercado” em torno dos nossos artistas. Só mesmo duplas como Chitãozinho & Xororó, que não precisam provar mais nada pra ninguém, é que são corajosas o suficientes pra fazer em seus discos o que o Fábio Jr fez neste. Poxa, falando agora como um bom saudosista, já que regravar é tão normal, porque ninguém mais regrava os clássicos? Zé Henrique & Gabriel, por exemplo, estavam preparando um disco só com clássicos, mas a falta de informações novas sobre o projeto dá até a entender que abandonaram a idéia.

Em algumas canções, como dito anteriormente, as roupagens adotadas soam estranhas numa primeira impressão. Afinal cantar “Estrada da Vida” num ritmo que não seja a rancheira é algo até meio impensável assim de cara. O mesmo acontece com canções como “Fio de Cabelo”, “Rio de Piracicaba” e “Cabocla Tereza”, que foram sutilmente “dessertanejadas”, com o perdão da minha absoluta falta de criatividade para criar novas palavras. Aliás, foi esse o trunfo desse disco. É, antes de mais nada, uma demonstração de respeito pelas canções sertanejas. Na verdade não dá muito pra explicar como ficaram as canções mencionadas. O ideal é ouví-las para entender.

O repertório sertanejo selecionado para esse disco, aliás, está a anos luz de distância da maioria do repertório selecionado por 90% dos artistas sertanejos. É um repertório, como eu disse, escolhido sem pressão, para ser mesmo um disco agradável, independente de ser um sucesso de vendas. Canções que são clássicos porque mereceram chegar a tal patamar. Canções de um outro nível. “Cabocla Tereza”, por exemplo, é pra mim uma das mais geniais canções sertanejas de todos os tempos. E as outras selecionadas não ficam muito pra trás. O Fábio Jr regrava, sim, mas pelo menos ele faz isso com sabedoria.

Particularmente, sempre gostei da peculiaridade do Fábio Jr. Apesar da absoluta falta de originalidade na escolha do repertório dos seus discos em geral (por nunca gravar canções inéditas), sempre achei interessante seu jeito único de interpretar. Me deu até uma certa satisfação ao ouví-lo imprimindo suas próprias características nas canções sertanejas, coisa que eu sinceramente acreditava que aconteceria no show “Emoções Sertanejas”, do rei Roberto Carlos. Quando anunciaram que o rei faria um show sertanejo, eu juro que achava que ele interpretaria canções do nosso segmento. Mas na verdade foram os artistas do nosso segmento que interpretaram as canções dele. Mesmo não sendo um Roberto Carlos, acho que já vale ouvir com o Fábio Jr. Poderia até ser o começo de uma série de homenagens por parte de outros artistas de “fora”. Serviria pra definitvamente provar que o preconceito acabou. Infelizmente, todos sabem que isso não é verdade.

Nota: 9,0