I.U.O. Fernando & Sorocaba – Acústico

É um hábito meu só escrever sobre um trabalho captado também em vídeo depois de ouvir e VER o trabalho. Esse disco, todos já ouviram no finalzinho do ano passado ou início desse ano (não me lembro direito). O problema é ver. Num primeiro momento, a intenção da dupla era lançar o disco em DVD, Blu-Ray e o escambau. O problema é que as coisas começaram a ficar meio indefinidas com a gravadora. O processo de troca de “casa” estava em andamento, aliás, o que atrasou o lançamento oficial do disco e fez com que sua distribuição se desse apenas junto aos fãs e pessoas que comparecessem aos shows. Como aqui em Uberlândia não tivemos recentemente nenhum show da dupla, acabei ficando a “Deus dará”.

É, Deus me daria sim um DVD, hehehe. Reclamei no twitter da demora no lançamento oficial do disco e acabei sendo agraciado com um presente. Enviaram, além do meu DVD, mais 10 para eu realizar uma promoção aqui no Blognejo (começa semana que vem). Minha vontade gigante de assistir a versão com vídeo do disco era fundamentada. Quem ouviu o trabalho na época do lançamento lembra-se do alvoroço que causou. Estávamos diante, ali, do possível melhor disco do ano. Isso porque era ainda o inicinho de 2010 e muitas águas ainda tinham que rolar. Mas quais as qualidades desse trabalho, afinal? Por que é assim tão bom, tão espetacular?

Quando o acústico sertanejo se popularizou, era comum a gravação de trabalhos mais simples por duplas ou artistas em início de carreira. Era comum a utilização de cajon, baixo e violões somente. As duplas com um pouco mais de estrutura partiam de cara pro acústico ao vivo com bateria, baixo, violões e acordeon. A coisa foi tomando uma forma mais consistente e aquele formatinho simples meio que desapareceu. Fernando & Sorocaba tinham um projeto voltado para a Internet de um trabalho “simples”, sem frescuras, feito na raça, gravado com pouca gente no público, um cenário teoricamente mais natural. Enfim, coisa simples. Acontece que a coisa tomou proporções que não cabiam unicamente num trabalho de Internet. Seria um pecado deixar aquilo restrito às telas dos PCs.

Inicialmente, o acústico simples virou um dos acústicos mais sofisticados dos últimos tempos na música sertaneja. O baixo, violões e cajon ganharam a companhia de violinos, gaita, banjo, steel guitar, percussões. Nada de bateria. A base rítmica ainda é o cajon. Acontece que o efeito que isso deu com os violinos e outros instrumentos os quais não estávamos acostumados a ver juntos é espantoso. Afinal, não estou lembrado de um trabalho inteiramente tocado apenas com percussão e os intrumentos de corda aos quais me referi. É inédito. É inovador.

O cenário da jóia, concebido pelo Zé Carratu, é outro show. Uma das melhores coisas que aconteceu, aliás, nos trabalhos recentes de vídeo da música sertaneja foi, sem sombra nenhuma de dúvida, o abandono definitivo da idéia de que somente com painéis de LED ou telas de plasma é que se fazia um DVD decente. No caso deste disco, a idéia é simples. Colocar num estúdio cerca de 40 pessoas com um cenário totalmente orgânico contrastando com luzes e cores que se alternavam em determinados momentos. A intenção, claro, era manter a atmosfera intimista do trabalho. Não seria preciso um trabalho megalomaníaco como os da Joana Mazzuchelli, nem um trabalho padrão como os do Santiago Ferraz. Com um cenário como esse, creio que até o mais incompetente dos diretores de vídeo saberia fazer um trabalho excepcional.

Repertório, o de praxe. Qualquer coisa que tenha saído da cabeça do Sorocaba. Selecionaram alguns dos maiores sucessos da dupla, gravados nos dois últimos discos (“Bala de Prata” e “Vendaval”) e juntaram a 4 canções inéditas. O diferencial, claro, é a pegada inédita que as músicas ganharam com essa nova roupagem. O arranjo que a música “Da cor do pecado” ganhou nesse disco é simplesmente genial. Outro diferencial no repertório fica por conta da inserção de um clássico da música internacional/brega/romântica: “Sorry”, de Tracy Chapman. Além da “regravação” de duas canções do Sorocaba que fazem parte do repertório de outros artistas. “A Louca” faz parte do repertório do Luan Santana e “Delegada” faz parte do repertório da dupla João Neto & Frederico, que, aliás, participou do disco e até conseguiu um feito inédito com isso: inserir sanfona numa faixa de um disco da dupla Fernando & Sorocaba. Não sei porque, mas é notório que o Sorocaba não é muito chegado a esse instrumento.

A direção do áudio ficou, mais uma vez, por conta do Ivan Myiazato, o cara cujo saco eu já estou ficando cansado de puxar. A competência é altíssima, não dá para negar isso. Como bem salientado no making off, é um cara que quer, sem dúvida, abraçar o mundo. E estou ressaltando isso por conta do lado bom que essa afirmação tem, apesar de parecer que tem mais coisas ruins encrustadas nessa frase do que boas. No caso da dupla Fernando & Sorocaba, o Ivan sempre fica mais por conta da direção e captação do áudio, além da posterior mixagem e masterização, claro. Os arranjos e harmonia sempre ficaram mais a cargo da dupla.

Neste novo disco, aliás, uma outra novidade em se tratando de Fernando & Sorocaba. O Sorocaba deu mais espaço ao Fernando, que, pasmem, assina a direção musical do disco ao lado do Orlando Baron, o outro violonista arranjador. O Fernando até executa alguns arranjos e ainda canta metade de uma das músicas inéditas em primeira voz. Quando os fãs ouviram “Madri” pela primeira vez, aliás, houve quem dissesse até que o Fernando superava o Sorocaba como cantor fácil, fácil. É evidente, aliás, o aumento na qualidade do Fernando como segundeiro e instrumentista com o passar dos anos. Quem disser que nesse disco o dueto vocal não esté legal, peço encarecidamente que coloque um fone de ouvido potente e aumente o som para talvez escutar o disco direito.

A despeito do que os conservadores dizem, doa a quem doer, chorem o quanto quiser, reclamem, esperneiem, gritem, entrem com processo, cortem os pulsos, batam a cabeça na parede, liguem pra mamãe, para o Papa, Lula, Obama, para quem quiserem: o Sorocaba é o nome da nova música sertaneja. Não dá para fugir disso. E não é apenas por causa da dupla Fernando & Sorocaba. O cara está quaaaase chegando ao topo da lista de maiores arrecadadores de direito autoral do Brasil. É um visionário. Conseguiu fazer dar certo o primeiro fenômeno teen da história da música sertaneja, Luan Santana, e ainda trabalha para tentar estourar outros artistas, como a cantora Amannda, que ainda não lançou o trabalho completo, e a dupla Henrique & Diego, que a julgar pelo primeiro disco têm tuuuuudo para explodirem para todo o Brasil.

Ele é um artista de coragem por inserir nas músicas de sua dupla elementos não muito comuns, como os violinos, steel guitars, gaitas e tudo mais e ainda assim fazer funcionar de uma forma moderna, sem pieguice e conservadorismo. Todo mundo tá cercando o Sorocaba e querendo um pouquinho desse mel que ele parece ter. Várias duplas estão gravando canções do cara e a tendência, se continuar assim, é que caia nas graças dos grandes e clássicos nomes até o ano que vem, assim como aconteceu com o Victor Chaves. ATENÇÃO: eu disse que é uma tendência, não uma certeza. INTERPRETEM esta frase antes de me xingar.

Sobre o disco, o único porém é sobre o lançamento e distribuição. Como eu disse, chega a ser pecado deixar uma pérola como essa sem um lançamento oficial. O público merece ter acesso a isso. Quando eu reclamei, o fiz baseado nisso. Não dá para gravar algo de tamanho bom gosto e requinte e deixar restrito a alguns fãs que por acaso compareçam aos shows e peçam uma cópia do disco, ou a ganhadores de promoções de rádio, ou conhecidos, ou o que for. Esse disco MERECE e DEVE ser lançado. DEVE ser lançado. Pelo menos para calar a boca dos críticos que insistem em achar que os chamados “universitários” não sabem fazer nada a não ser baladinhas sem graça com arranjos padronizados de violão copiando a harmonia do refrão. Esse disco é do mais alto nível possível e merece estar nas prateleiras. O lançamento das músicas inéditas em versões mais completas, como está se dando, é até desnecessário a julgar pela avassaladora qualidade desse trabalho. Mas o mercado é assim, né. Tomara que agora, com a entrada da dupla na Som Livre, esse DVD finalmente encontre um rumo e saia da “marginalidade” para se tornar domínio público. O público agradece. Os conservadores é que não.

Nota: 10