I.U.O. Um Barzinho, Um Violão Sertanejo

A falta de tempo vem me fazendo adiar este texto. Mas hoje decidi que mesmo com a esposa reclamando eu dedicaria um pouco da minha atenção a escrevê-lo. Trata-se de uma análise do CD duplo e DVD intitulado “Um barzinho, um violão sertanejo”, que reúne grandes estrelas da música sertaneja e de outros segmentos em um show com grandes sucessos interpretados apenas em voz e violão (com mais alguns instrumentos conforme a preferência de cada um).

Para início de conversa, trata-se da mais nova edição do projeto “Um barzinho, um violão”, que vez ou outra traz grandes artistas em interpretações de alguns hits, conforme a temática dos projetos. Já houve o projeto com canções dos anos 70, com sambas, com canções de novela (acho que teve, nem sei ao certo). Em todos eles, no entanto, uma constante: a presença de figuras marcantes da música brasileira em interpretações que não necessariamente obedeciam ao segmento de cada uma. E esse sempre foi o trunfo desse projeto: trazer artistas em canções que fugiam aos seus padrões habituais.

Nisso é que reside o mais evidente defeito desse disco. Ao invés de trazer figuras da MPB cantando hits sertanejos (o que seria inédito e maravilhoso), o projeto pareceu servir apenas como vitrine de vários artistas que ainda não costumam ser enumerados junto aos grandes nomes da nossa música. Ainda mais se levarmos em consideração o fato de que a gravadora Sony é que foi responsável pelo projeto. Artistas da Sony participaram em massa desse projeto, assim como os da Universal. Claro que existe ainda uma figura ou outra de outras gravadoras, mas essas duas são as que parecem dominar o rol de artistas.

O grande número de artistas novos no projeto contrasta com a falta de nomes de peso do segmento. Entre os nomes da MPB presentes no projeto podemos enumerar apenas uns 4 ou 5, e pouco se vê de artistas sertanejos considerados do “primeiro time”. Nada de Zezé di Camargo & Luciano, nada de Victor & Leo, nada de Fernando & Sorocaba. Em contratapartida, um grande número de artistas “menores”, o que, ao fim das contas, se tornou o fator responsável pelo saldo positivo do disco.

O saldo positivo alcançado pelos artistas de menor expressão reside no fato de que eles realmente quiseram impressionar. Afinal os artistas de maior “nome” não tinham, teoricamente, que provar nada pra ninguém. Se resumiram a, apenas, juntar alguns músicos e tocar a canção que escolheram. Às vezes sem se preocupar nem em mudar o arranjo, ou ainda sem nem se preocupar em levar os próprios músicos para a gravação. Grandes nomes como Zeca Pagodinho, Roberta Miranda e Fafá de Belém se contentaram apenas em tocar com os músicos arranjados pela produção. Mesmo os músicos sendo excelentes, isso denota um certo desvelo por parte desse artistas.

Outro fato intrigante no disco é o de que alguns nomes presentes simplesmente deixaram de lado o “ideal” do projeto, que é executar as canções apenas em voz e violão. Ora, o nome do projeto não é “Um barzinho, um violão, um outro violão, um contrabaixo, uma percussão”. No entanto, instrumentos como o acordeon se tornam indispensáveis, claro, dependendo da canção interpretada, já que são inerentes à música sertaneja.

Nesses aspectos citados acima, se destacaram Luiz Cláudio & Giuliano e Paula Fernandes. Ambos se valeram apenas de um violão e de uma interpretação vocal fora do comum, se preocupando ainda em deixar a música com a própria cara, sem se limitar a imitar os arranjos originais. A apresentação da dupla Luiz Cláudio & Giuliano é uma coisa de louco, de tão intensa. Também se preocuparam em escolher canções que não haviam gravado anteriormente.

Isso porque boa parte dos artistas escolheram canções do próprio repertório, tirando, de certa forma, o caráter de ineditismo da apresentação. Dentre os que escolheram canções que não haviam gravado antes, destaque para o Edson, que escolheu um modão daqueles de interpretação bem rasgada. Ou para o grupo Tradição, que inovou a música “Comitiva Esperança”.

Sobre o aspecto técnico da gravação, faltou um certo cuidado com a forma com que se captava os instrumentos. É que optaram por realizar a gravação com microfones em alguns casos e com instumentos plugados em outros. A diferença de um para outro é muito grande. Ora, deveria-se escolher apenas uma forma de captação. E de preferência com instrumentos plugados. É que a captação por microfones (utilizada em estúdios) sofre muita interferência do barulho ambiente, o que deixa fraco e baixo o som do instrumento, se comparado com um instrumento plugado.

Continuando na história de desvelo de alguns artistas, faltou um puxão de orelha por parte da produção em alguns dos participantes. O Rick (do Renner), por exemplo, estava com a voz irreconhecível de tão rouca. O sanfoneiro da dupla André & Adriano não se preocupou nem em tirar a pulseirinha de acesso aos camarotes do Villa Country quando foi gravar. Fora que alguns cantaram sentados, outros em pé. Ora, se o ideal do projeto é também recordar os tempos de barzinho de cada artista, a produção deveria determinar que os artistas cantassem sentados. Num bar, o cantor fica cerca de 4 horas cantando, com apenas um intervalo. E poucas vezes se vê um cantor de bar ficando tanto tempo em pé. Quem canta em bar canta sentado (na maioria das vezes), e não em pé.

Mesmo com todos esses contratempos, é um projeto maravilhoso, sem sombra de dúvida. Ideal para quem quer ter registros inéditos em casa. Ivete cantando “Romaria” com Renato Teixeira, Fafá de Belém cantando “Saudade da Minha Terra”, Zeca Pagodinho cantando “Panela Velha”, não são coisas que se costuma ver. Destaque para as participações de Marco & Mário, Matheus & Cristiano, Michel Teló, Eduardo Costa e do Grupo Sereno. O Eduardo Costa, aliás, deu um show à parte tocando viola caipira.

Para quem gosta de coisa inédita, diferente, inusitada, é um disco maravilhoso. Para quem está acostumado apenas com quebradeira, com sonzeira, com bandas cheias de músicos, talvez o projeto não agrade. Mas tendo sido idealizado por figuras de fora do segmento sertanejo, o projeto mostra mais uma vez que a música sertaneja vem conquistando um prestígio que não tinha. Ora, se até o projeto “Um barzinho, um violão” se rendeu a nós, quem sabe um dia vejamos músicas sertanejas em trilhas sonoras de novelas do Manoel Carlos, ao invés daquelas sonolentas e tediosas bossas, que de novas só têm o nome? Tô mentindo?

Nota: 8,5