Marília Mendonça: Realidade, de fato, escancarada em novo e grandioso DVD em Manaus

Os caminhos do sucesso costumam ser interessantes. Marília Mendonça consagrou-se como compositora, tornando-se a maior e mais procurada do Brasil durante um tempo, para depois consagrar-se como intérprete, tornando-se a maior do Brasil na atualidade. Houve quem dissesse (poucos, pelo menos) que o seu sucesso como compositora a impedia de atuar como intérprete e que ela ficaria estagnada ali. Que grande bobagem. Se eu bem me lembro, na sua época de “apenas” compositora o que eu mais ouvia eram elogios a ela como intérprete. Talvez ela sofresse na época, sim, mas com o famigerado preconceito contra cantoras e duplas femininas, muito mais do que com o próprio preconceito por ela ser uma compositora almejando uma carreira de cantora, apesar dessa modalidade de preconceito também ser frequente na música sertaneja (pelo jeito, esse povo não conhece Zezé di Camargo, Roberta Miranda, Bruno, entre tantos outros que seguiram o mesmo caminho).

Aliás, a incrível capacidade da Marília de quebrar as mais diversas barreiras e preconceitos é, de longe, uma de suas melhores e mais louváveis características. Em pouco mais de um ano, ela não apenas quebrou como também achincalhou o preconceito contra o sertanejo feminino, contra os compositores que se dedicam à interpretação, contra a aparência física fora dos padrões impostos pela sociedade, contra a independência feminina… É uma revolução, de fato. Uma revolução em forma de artista.

Sim, porque se ela divide com Maiara & Maraísa os louros pela abertura histórica do sertanejo às mulheres, ela é o símbolo mais forte da quebra das demais barreiras que eu citei. Afinal, sua carreira como intérprete resumia-se apenas a um disco ainda na adolescência e ela faz questão de dizer que não vai se esforçar para se adequar ao que as “pessoas” acham certo, seja no aspecto físico ou no comportamento. Sem falar de todo o empoderamento feminino trazido em 10 de cada 10 músicas que ela canta.

Mas por mais clichê que pareça dizer isso pela milésima vez, os motivos de seu sucesso se resumem principalmente ao quanto ela representa de fato o público. As pessoas enxergam nela alguém comum. E ela canta sobre problemas comuns. A região que ela escolheu desbravar na primeira fase da sua carreira, então, é basicamente a descrição do que ela canta, musicalmente falando. Podia até não dar certo, mas a probabilidade dessa investida inicial no Norte e Nordeste não se mostrar acertada, por conta do estilo que ela escolheu defender, era minúscula.

E ainda por cima temos a questão do talento, né? Marília Mendonça é uma cantora fora do normal. Quando a entrevistei pela primeira vez (aliás, a entrevista dela para o Blognejo é a mais visualizada do canal), lembro que o seu timbre de voz me arrepiou da cabeça aos pés. De uma sutileza, mas ao mesmo tempo de uma potência incrível, do tipo que arranca uma pequena lágrima de canto de olho em quem ouve (pelo menos de mim arrancou). Junte a isso o fato dela ser uma das melhores compositoras do Brasil nos últimos tempos.

É incrível, inclusive, como as coisas caminharam tão naturalmente para a Marília. Um DVD de estúdio com uma proposta ousada nos temas das músicas e um requinte pouco usual ao sertanejo (um brega chique, talvez?) acabaram levando-na ao topo da música sertaneja numa velocidade muito maior do que se esperava. E sem esforço algum. Apenas o trabalho certo, na hora certa, na região certa. Era um projeto com alto potencial de sucesso, claro, mas poucos esperavam que fosse tanto assim em tão pouco tempo. E olha que a duração do sucesso do primeiro disco tem sido até maior do que o normal. Já faz mais de um ano que esse disco foi lançado e ele ainda é extremamente executado e celebrado, seja em carros, bares, casas. Ainda está completamente no auge.

Foi esse auge que acabou culminando numa das mais bem executadas e bem-sucedidas gravações de DVD “de consagração” à qual já fui convidado a assistir. Tudo foi perfeito. A postura de palco, a emoção nas horas certas, o local escolhido, o cenário, os fogos, o enorme público presente, o nome do DVD e, claro, o repertório. A consagração definitiva do excelente momento que ela vive.

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A foto acima, divulgada logo após a gravação, dá uma noção da proporção desse projeto. A escolha do local foi o primeiro grande acerto. Manaus nunca recebeu um DVD desse porte, pelo menos não um de alcance nacional, mesmo sendo destino frequente de grandes artistas. O calor do público de lá já é conhecido. E mesmo caindo na estrada há menos de um ano, a Marília já mostrou uma total segurança no palco, o que também refletiu na gravação. É uma artista tão natural que até os momentos de emoção vêm na hora certa.

Sobre repertório, nota-se uma sutil evolução no sentido de evitar o excesso de temas pesados, como no primeiro DVD, partindo neste novo projeto para uma mescla de temas, com uma maior quantidade de músicas com temas neutros, isto é, sem o chifre e a bebida como principais personagens, apesar deles ainda estarem lá. Claro, sem perder a identidade sofrida que ficou marcada ao longo do trabalho com o primeiro DVD. Tudo isso condiz com o momento que se desenha para a sua carreira, que é o de assumir de vez o status de produto número 1 do mercado fonográfico e da indústria de shows no próximo ano.

Sim, porque creio que não apenas eu mas diversas pessoas do meio já conseguem vislumbrá-la em breve do mesmo tamanho que Wesley Safadão nos últimos tempos, por exemplo. Isto é, uma artista disputada em todas as praças do Brasil, e com receitas gigantescas. Afinal, isso já vem acontecendo no norte e nordeste há um ano. O novo DVD é o projeto perfeito para levar isso a um patamar nacional de uma vez por todas.

Entre os momentos marcantes da gravação, os mais intensos foram provavelmente a participação da dupla Henrique & Juliano e a gravação da música “De quem é a culpa”, composição dela que havia sido gravada pelo Cristiano Araújo mas cujo lançamento só aconteceu após a sua morte. É claro que o momento rendeu uma menção emocionada ao Cris.

Sobre Henrique & Juliano, a participação deles começou com um discurso emocionado da Marília sobre a importância da dupla na carreira dela. De fato, foram eles que assumiram a “bronca” e acreditaram totalmente no talento dela quando alguns poucos caciques do mercado julgavam que ela era apenas mais uma compositora. E é muito intenso o amor e o respeito existente entre os três. A emoção do Henrique no palco era totalmente genuína, como se o projeto fosse da própria dupla e não dela. A música escolhida, “Mudou a Estação”, é uma sequência para “A Flor e o Beija-flor”, que ela cantou com eles no último DVD da dupla, mas composta curiosamente antes dela.

Apesar dos temas mais amenos, de uma forma geral, as músicas mais marcantes continuam sendo justamente as que trazem a traição como assunto principal. Se “Infiel” contava a história de uma mulher que descobre uma traição e resolve deixar a bomba do marido traidor para a amante, neste DVD a música que mais deve chamar a atenção (pelo menos foi a que mais chamou a minha atenção na gravação) é “Amante não tem lar”, que traz a amante como protagonista, pedindo perdão à esposa do marido traidor. E o lado oposto da traição ainda é tema da música “Traição não tem perdão”, que traz uma esposa traidora saindo de casa depois que o marido descobre a verdade.

Para finalizar a análise sobre tudo o que deu certo nessa gravação, temos o nome do DVD. Porque trata-se de uma pequena palavra que resume bem o que a Marília Mendonça representa e o que ela é hoje. O que ela canta é o que o público vive. O que ela é é o que o público é. E no mercado da música brasileira hoje, ela é exatamente isso. Verdade. Identidade. Originalidade. Talento… Realidade.

Abaixo, o vídeo da música “Eu sei de cor”.

Abaixo, mais fotos da gravação.