MEGA REVIEW 2013 – CD’s

MEGA REVIEW 2013 – CD’s

Este ano passei por uma série de mudanças na minha vida e, consequentemente, no Blognejo. A principal delas, a paternidade, acabou me mostrando que tempo é uma coisa que precisamos aprender a administrar. Não planejei meu tempo no decorrer do ano e acabei deixando muita coisa do Blognejo de lado em prol da paternidade, já que boa parte do meu tempo em Uberlândia eu passei em casa sendo um pai-babá (e um pai babão) enquanto minha esposa trabalhava fora de casa.

A sessão do blog que mais sofreu com essa mudança e cujo efeito dessa minha indiferença estou sentindo agora no fim do ano foi a sessão de reviews. Eu atrasei tudo. É que como os reviews são os textos mais chatinhos de se escrever, eu ia adiando, adiando, adiando, até que chegamos ao último mês do ano e eu estava com uma série de discos aguardando a nossa tradicional análise. Aí viajei para três eventos diferentes, fui a São Paulo realizar algumas entrevistas e acabei postando 9 reviews seguidos em menos de 4 dias, tudo no decorrer dessa semana.

Mesmo assim, muitos discos ainda ficaram de fora. Alguns importantes, inclusive. Por conta disso, priorizei os DVDs nas análises recentes e os discos de artistas que lançaram dois projetos esse ano. Alguns CD’s de artistas consagrados, entretanto, não foram analisados.

É por isso que resolvi ir um pouco além nas nossas análises e decidi postar não um, mas dois Mega Reviews. No ano passado, postei nos últimos dias do ano um mega texto com a análise de 20 DVDs de artistas independentes. Faremos isso novamente esse ano, mas com DVDs que variam entre os independentes e os lançados por gravadoras, com artistas de renome ou iniciantes. A diferença é que, além do Mega Review de DVDs, que devo escrever e postar amanhã, decidi fazer também um Mega Review de CDs, com menos trabalhos, claro, para não fechar o ano sem falar de alguns discos que foram importantes para a música sertaneja no decorrer de 2013.

Serão 6 os discos analisados no total. São discos que até deveriam ter sido analisados de forma mais completa no decorrer do ano, mas por pura falta de planejamento e de administração do meu tempo, acabaram sendo incluídos neste texto para que pudessem ser considerados numa eventual lista de melhores de 2013. Quem leu o Mega Review de DVDs do ano passado já sabe a métrica. Uma quantidade reduzida de parágrafos, um texto um pouco mais resumido a respeito de cada um, mas uma nota valendo para uma lista de melhores discos do ano. No de DVDs, eu dedico dois parágrafos para cada disco. Neste, como é uma quantidade menor, vou escrever 3 para cada.

Dito tudo isso, vamos aos trabalhos:

* LEONARDO – VIVO APAIXONADO

Já faz tempo que o Leonardo se assumiu como cantor brega, na falta de uma palavra melhor para definir. Achei que com o DVD “Esse alguém sou eu”, passaríamos a ver um Leonardo mais comercial, mais inserido no atual contexto da música sertaneja. A opção dele, entretanto, foi partir para uma veia mais “de periferia”, quase como se tivesse decidido voltar aos anos 90. Este mais recente disco, “Vivo Apaixonado”, é talvez a incursão recente mais profunda do Leonardo em uma musicalidade próxima da que ele praticava quando iniciou a carreira.

“Eu vou pro buteco”, por exemplo, é quase uma continuação exata de “Só fazendo amor”. Até os arranjos no sopro e a temática da música lembram um pouco esta última. A mesma fórmula dos discos anteriores foi utilizada (gravar algumas músicas pouco trabalhadas por outros artistas), o que rendeu a releitura de canções como “Aquela velha canção” e “Madrugada Triste”. Mas a base do disco são mesmo as músicas ultra românticas, doídas, e com uma sonoridade bem retrógrada, mas que sem dúvida ainda tem um público bastante cativo.

A única inserção do Leonardo numa pegada mais moderna se deu na música “Cheguei Atrasado”. Ele até demonstra uma certa sintonia com algumas tendências do sertanejo atual, com a gravação de duas bachatas, incluindo uma versão do rei da bachata latina moderna, Prince Royce. Mas mesmo se mantendo em cima de uma musicalidade retrô e tirando a péssima música “Jeitinho Brasileiro”, o disco é um pouco superior aos anteriores, principalmente por valorizar o lado mais romântico do Leonardo e não abrir tanto espaço para as músicas mais agitadas que ele costumava gravar e trabalhar e que soam mais como uma tentativa dele de se mostrar comercial, coisa que ele não precisa mais fazer.

Nota: 8,0

* JOÃO NETO & FREDERICO – INDECIFRÁVEL

“Indecifrável”, o mais recente disco da dupla João Neto & Frederico, traz novamente a dupla em momentos bem distintos, musicalmente falando, o que aliás sempre foi uma característica dos seus discos. Temos João Neto & Frederico românticos, intérpretes de grandes canções profundas como “Clichê”, “Como nos velhos tempos”, “Indecifrável”, e João Neto & Frederico extrovertidos, cantando canções recheadas de temas “picantes” ou desencanados, como “Amor ao Próximo”, “Melhor Amiga”, “Prima Delicinha”, “Engarrafamento” e “Palmadinha”.

Uma coisa que se observa bem nesse disco é a preferência da dupla, no caso das canções agitadas, por músicas com temas bem definidos, que contam certas histórias ou com jogos de palavras. “Amor ao próximo” faz uma brincadeira inocente em cima do famoso mandamento bíblico, “Melhor Amiga” conta a história do cara que pede para a melhor amiga fazer amizade com a moça que ele quer pegar na balada, “Prima delicinha” é auto-explicativa, “Engarrafamento” é um jogo de palavras que o cara usa como desculpa para a demora em chegar em casa (tá no engarrafamento, mas não no que a mulher acha). Curiosamente, no entanto, uma das músicas escolhidas para trabalhar o disco e que mais chamou a atenção no projeto é justamente a que mistura os dois lados da dupla sem ter sido escrita em cima de um tema pré-definido. “Crime Perfeito” traz os dois lados da dupla – o romântico e o extrovertido (por conta do trecho em arrocha), sem seguir uma fórmula básica, e talvez isso seja o que de fato chamou a atenção.

Este disco consagra uma nova turma de compositores como o Gabriel Agra (que assina duas músicas sozinho, incluindo “Clichê”, que trouxe a participação de Jorge & Mateus), o Juliano Tchula e a Marília Mendonça. O Matheus Aleixo, que também foi responsável por ótimas músicas no repertório do disco anterior, emplacou duas neste projeto. Mas quem de fato sai mais por cima depois deste CD é o produtor Eduardo Pepato. Ele havia produzido o DVD que a dupla gravou em Palmas, mas por trabalhar com o Ivan Miyazato na época, não viu seu nome ter tanto destaque. Desta vez, ele assume o projeto e comprova que tem, sem dúvida, capacidade de ocupar um espaço bacana nesse concorrido mercado de produtores. Tanto que seu nome se tornou uma ótima referência de novidade depois deste disco e do DVD da dupla Henrique & Juliano e deve se consagrar de vez com o DVD que João Neto & Frederico gravaram em Vitória – ES no último dia 05/12.

Nota: 9,0

* GUILHERME & SANTIAGO – TUDO PRA VOCÊ

Guilherme & Santiago souberam passear muito bem por fases distintas da música sertaneja. Estouraram com uma rancheira, vejam só, passearam pelo romantismo povão dos anos 90, depois migraram para o romantismo mais profundo, lançaram projetos acústicos e ao vivo, passando a ser apontados junto com Bruno & Marrone e Edson & Hudson os próximos grandes nomes do sertanejo e depois se “universitarizaram” e experimentaram um grande sucesso com a música “E daí”. Mas a tentativa de repetir o sucesso do disco que trouxe “E daí” fez com que a dupla passasse por momentos que não agradaram muito os fãs no disco seguinte, com a gravação de músicas como “Bolo Doido” e outras. Por isso, muita gente começou a cobrar a dupla para que ela resgatasse um pouco das características que os consagraram mesmo antes da música “E daí”. O bom é que a dupla soube, enfim, ouvir esses apelos.

O disco “Tudo pra você” consegue trazer alguns dos elementos mais marcantes da carreira da dupla em canções que valorizam aspectos dos dois que andavam meio esquecidos, como a absurda qualidade vocal e a interpretação sempre muito própria e original. Em cima disso, o disco entrega canções incríveis em termos de interpretação como “Tudo pra você”, “Só penso em você”, “Seu amor sou eu”, “Monalisa”, “Eu vou te procurar”, a fantástica “A Cura” (que é do Filipe Labret em parceria com o Lucas Lucco, vejam só), emplaca vaneiras com temáticas que não partem para apelação em “Vale Tudo”, “Vai esperar” e “Noitada de Prazer” (o nome não quer dizer que a música é apelativa) e traz a melhor canção que a dupla gravou em muitos anos. “Jogado na rua”, composição genial do Samuel Deolli em parceria com o Marco Aurélio e com a Valéria Costa, uma bachata com roupagem de modão clássico, representa tudo aquilo que os fãs da dupla sempre imploraram que fosse trazido de volta. O Samuel e a Valéria ainda assinam também neste disco a música “Vale Tudo”.

O disco já vale só por trazer de forma tão bacana tantas características boas da dupla que andavam meio esquecidas. Apesar de algumas músicas que remetem aos momentos controversos que eu mencionei, como “Quando bebe” e “Beijar e Beber”, e da qualidade de áudio diferente de uma música para a outra devido ao fato de não ter sido produzido ou mixado por uma pessoa só, o disco é, no geral, bem digno do tamanho e da importância dessa dupla. Aliada à grande quantidade de reclamações dos fãs da dupla a respeito da pouca importância que vem sendo dada a eles pela galera que deveria de fato mantê-los no patamar elevado que lhes é direito (recebo direto esse tipo de cobrança através das redes sociais, e olha que eu nem tenho nada a ver com essa história), talvez a qualidade desse projeto possa fazer com que eles voltem a ocupar um status mais elevado do que o atual. Afinal, não acho que eles mereçam nada menos que isso.

Nota: 9,0

* CEZAR & PAULINHO – DISCOGRAFIA OURO E PRATA

O disco “Discografia Ouro e Prata”, que comemora os 25 discos da dupla Cezar & Paulinho lançados ao longo de 40 anos de carreira, traz uma ideia interessante: a regravação de uma faixa de cada disco, todas distribuídas de acordo com a ordem cronológica em um disco duplo. A boa sacada ajuda a valorizar de forma mais ampla um repertório sempre muito interessante e, sem dúvida, importantíssimo para a história da música sertaneja.

A opção rigorosa por uma música de cada disco deixou de fora faixas que poderiam até ser mais importantes que outras lançadas em discos anteriores ou posteriores. Os mais observadores deverão sentir falta de canções como “Perdoa”, “Morto de Saudade Sua”, entre outras, fora as canções do repertório mais extrovertido da dupla, como “Pé de bode”, “Faz de conta que eu sou ele”, etc. Mas o disco consegue equilibrar com bom gosto canções mais sérias da dupla e não abre tanto espaço para as canções de duplo sentido, o que para um projeto comemorativo de natureza mais séria, como esse, é até compreensível.

Musicalmente, o disco peca em alguns poucos pontos por priorizar uma quantidade reduzida de instrumentos, o que prejudicou um pouquinho a sonoridade, além de valorizar pouco a viola caipira, principalmente, instrumento marcante na carreira da dupla e que é tocado com maestria pelo Paulinho. O arranjo de “Eu e meu pai”, por exemplo, foi tocado em sanfona e não em viola caipira. Algumas músicas, como “Chique no úrtimo (Verdade de Pescador)” perderam o efeito mais pomposo que tinham na versão original por terem deixado também o sopro de lado. Mas mesmo assim, o repertório genial da dupla já vale o disco.

Nota: 7,5

* RIONEGRO & SOLIMÕES – O COWBOY VAI TE PEGAR

“O cowboy vai te pegar” é praticamente a volta de uma dupla que não tinha parado. Este disco traz Rionegro & Solimões de volta ao circuito competitivo, ao qual eles próprios reconheciam que não pertenceram por um certo tempo. O disco resgata a dupla não só musicalmente como modifica inclusive a postura dos dois perante o mercado.

O fato é que Rionegro & Solimões estiveram por um bom tempo meio sumidos da grande mídia e das paradas. Mas a busca pela modernização do próprio som através de uma parceria com o Fernando Zor, da dupla Fernando & Sorocaba, que assina a produção de seis faixas do disco, já mostra a intenção da dupla de se reinserirem no mercado da forma correta. O resultado é um som country rock bem marcante, mas que vai mais pro country do que pro rock, principalmente quando valoriza a guitarra steel, além de uma preferência por vaneiras ao invés dos batidões a lá “Bate o pé” de outrora. Fora também a valorização da voz maravilhosa e marcante do Rionegro em canções românticas, além do dueto desta que é uma das melhores duplas de que a música sertaneja dispõe.

Acaba que este é um disco de apenas 10 faixas que faz mais bonito que muito disco de 20, 25 faixas lançado no decorrer desse ano de 2013. A quantidade reduzida de faixas é, aliás, um dos poucos defeitos desse projeto. Seria bacana ouvir mais desses novos Rionegro & Solimões por uma quantidade maior de faixas. Umas 16 ou 17, pelo menos. Mesmo assim, ainda é um prato cheio para quem reclama tanto do sertanejo contemporâneo.

Nota: 9,5

* GEORGE HENRIQUE & RODRIGO – CONTO ATÉ DEZ

Uma das melhores duplas da nova safra, George Henrique & Rodrigo assustaram um pouco uma fatia do mercado, a dos amantes da qualidade artística, quando lançaram como single, após o DVD de estreia, um arrocha que os levava para o lado mais da modinha. Quem nutria esperanças de que a dupla pudesse representar uma tentativa sólida de renovação em prol da qualidade ficou meio desapontado. O novo CD, que poderia meio que jogar um balde de água fria em cima disso tudo só por conta dessa música, felizmente passa longe disso e continua tentando mostrar que dá pra valorizar interpretações e letras em músicas de altíssimo nível.

“Conto até dez” traz ainda mais elementos interessantes de uma dupla que em pouco tempo ficou conhecida por ter uma das vozes mais potentes do meio e um dueto de qualidade absurda, o que fica evidente na canção título, que traz a participação de Jorge & Mateus (provavelmente a melhor música lançada com a participação de Jorge & Mateus esse ano), e em canções como “E agora”, “Apaixonado por você”, “Vento e Chuva” e “Ouça com o coração”.

Este trabalho continua alimentando as boas esperanças do mercado com relação a eles, além de ser o melhor trabalho do produtor Bigair Dy Jaime em 2013, que continua se mostrando um talento em quem se apostar. E mostrar a sua capacidade em um disco um pouco mais sério, como é o caso desse, só corrobora isso. E George Henrique & Rodrigo, claro, se mantém no mesmo patamar: o de uma dupla em quem devemos continuar acreditando.

Nota: 9,5