MEGA REVIEW 2014 – CD’s

MEGA REVIEW 2014 – CD’s

No ano passado, por conta do acúmulo de reviews para o fim do ano, as análises de alguns CD”™s foram agrupadas em um único review, pra que desse tempo de postar tudo. Este ano, pra variar, deixei acumular tudo de novo, por motivos diversos. Portanto, cá estamos com mais um Mega Review com análises de alguns CD”™s de maior relevância em 2014 (sem menosprezar os demais, mas é que se eu fosse escrever sobre todos os CDs lançados no ano, aí já viu né?), com um pequeno texto de quatro parágrafos para cada disco analisado e uma nota que vale para uma possível inclusão do projeto na nossa lista de Melhores do Ano.

* Edson & Hudson ““ De: Edson Para: Hudson

Para quem estava em outro planeta neste ano de 2014 e não sabe o que houve com a dupla Edson & Hudson, eu ajudo a relembrar: o Hudson passou por 8 meses de um intenso processo de reabilitação para se curar do vício em drogas e álcool. Quebrou-se um tabu, na verdade, já que boa parte do público achava, por incrível que pareça, que esse tipo de coisa acontecia apenas no universo do rock.

Durante esse período em que o Hudson ficou internado, o Edson produziu este novo disco da dupla, com o intuito de que ele fosse um presente para o irmão. Por isso o título e a presença no repertório de canções com mensagens de superação. Inicialmente, o Edson gravaria o disco sozinho, mas acabou sendo possível gravar a voz do Hudson na própria clínica, num estúdio improvisado.

Este disco marca o que a própria dupla considera o retorno de fato aos palcos, já que desde que a parceria foi retomada após dois anos de separação, o Hudson ainda enfrentava o fantasma da dependência química e a dupla ainda convivia com fatores negativos na esfera administrativa. Com a cura do Hudson, no entanto, eles voltaram a ser abraçados pela mídia e ganharam um pique novo para resolver os problemas internos.

Apesar disso, por ter apenas a cara do Edson na produção, sem o virtuosismo do Hudson nos arranjos, ainda não acho que esse deva ser o disco que marca a volta de Edson & Hudson ao mesmo patamar de antes. É comemorativo, sim, é simbólico, sim, mas mesmo tendo muitos elementos dos discos mais antigos da dupla (canções românticas de qualidade como “Coração Sangrado” e outras que remetem ao “Me Bate me xinga” de outras épocas) ainda creio que um disco (talvez um DVD com o mesmo tema da turnê, “Conectados”) trazendo Edson & Hudson de vez para o lugar que eles conquistaram no decorrer da carreira ainda está por vir.

Nota: 8,0

* Carreiro & Capataz ““ Ainda mais brutos

Não, eu não vou me ater aqui aos problemas relacionados ao fim da dupla João Carreiro & Capataz. Isso já me deu dor de cabeça suficiente. Até mesmo por isso eu quis escrever sobre este disco apenas neste Mega Review e não num review individual, já que isso faria com que eu me estendesse muito em torno do tema.

Apesar do nome ser praticamente o mesmo e da voz do Carreiro ser idêntica à do João Carreiro, o fato é que se trata de uma nova dupla, com muito mais possibilidades na parte comercial, haja vista que não há mais o entrave da personalidade forte ou do medo de fugir das raízes. A pouca idade do Carreiro permite que a dupla cresça de forma independente, com o Capataz passando a ter mais participação nas decisões da parte musical. Boa parte das músicas deste disco foi composta por ele, inclusive, sempre em parceria com o Carreiro, ou Gustavo Santana, que antes de entrar no projeto usava o nome “Gustavo Viola”. O Carreiro assina 8 músicas do CD, o que mostra que boa parte da musicalidade deste novo projeto reside nele, não só na parte vocal, mas também nas letras. Ou seja, mal entrou no projeto, mas já entrou com autonomia.

Musicalmente falando, por envolver praticamente os mesmos profissionais que já trabalhavam com a dupla João Carreiro & Capataz (o pessoal do Play Mix Studio), o disco mantém os mesmos elementos da antiga formação, com a guitarra e a viola trabalhando juntas. A temática das músicas remete mais ao lado sério, com poucas canções de duplo sentido ou agitadas, o que também representa um afastamento (necessário) do passado da dupla.

É verdade que este foi um disco feito às pressas, afinal de contas em cerca de um mês após o anúncio da nova formação Carreiro & Capataz já estavam em estúdio trabalhando no CD. Acontece que isso foi necessário, afinal quanto antes a dupla deixar de lado o fantasma da antiga formação, melhor. O DVD, já anunciado para fevereiro de 2015, deve ajudar a concretizar isso.

Nota: 8,0

* Conrado & Aleksandro – Lobos

Desde o sucesso de “Só se for gelada”, a dupla Conrado & Aleksandro tomou gosto pelas músicas mais agitadas. A boa repercussão de “Halls Preto” e outras nessa vibe levaram a dupla de “Afinal” e “Certos Detalhes” para uma praia completamente diferente, mas que acabou se mostrando a cara deles. O novo disco da dupla consolida isso da forma mais escancarada possível.

Das 14 faixas do disco, pelo menos 11 são agitadas, algumas com letras que deixam os cabelos dos mais conservadores em pé, como “Toda sexy”, com seu verso “se tem Jontex, então relax, vou te levar lá pro meu duplex”, ou “Caminhão Pipa, com “um caminhão pipa pra apagar o fogo dela, traz, traz, joga água nela”.

Mas de uma forma mais geral, o diferencial deste repertório é a forma com que algumas letras foram trabalhadas. “Camionete Inteira”, “Tô solto outra vez”, “Trem Difícil” e “Quem nunca”, por exemplo, brincam com jogos de palavras ou com a rapidez com que as frases precisam ser cantadas pra poder fazer sentido, tudo isso de uma forma bem inusitada, acentuada pela interpretação propositadamente “caipira” e “country” do Aleksandro em alguns momentos.

O motivo desse tipo de repertório funcionar tão bem para a dupla reside no fato do Aleksandro ser um dos artistas sertanejos com melhor domínio de palco do Brasil. Um repertório mais picante permite que ele explore todo o seu potencial de forma quase completa. Apesar disso e do disco ser evidentemente para as festas e para os porta-malas dos carros, no entanto, a melhor música do projeto ainda é uma das lentas. “Lobos”, que dá título ao disco, remete a uma atmosfera country, que também é uma influência importante na musicalidade da dupla.

Nota: 8,0

* Thiago Brava ““ Sempre Diferente

O Thiago Brava ainda é um artista a ser decifrado. O melhor termo que achei para definí-lo, até hoje, é “contestador”. Thiago Brava é o maior contestador do sertanejo, afinal de contas ele subverte diversas regras que muita gente acha que são invioláveis. E funciona muito bem pra ele. É o tipo de artista que tem a coragem de regravar, num mesmo disco, “Perereca Suicida” e “Garotos”, do Leoni. Não à tôa, o disco tem esse nome: “Sempre Diferente”.

Este trabalho, o primeiro depois do DVD gravado em Goiânia e lançado no ano passado, já mostra uma certa preocupação em buscar novas influências, já que o arrocha, até então defendido com unhas e dentes, não tem mais toda aquela força. O resultado é uma mistura de novas sonoridades, mas surpreendentemente com um apelo mais romântico.

É claro que esse romantismo não é o convencional, mas um à moda Thiago Brava. É um Thiago Brava mais radiofônico, o que se nota em músicas como “Sabe esse cara”, “Baby Baby”, “Maior que o Oceano”, “Juro” e outras. Algo que mesmo para um contestador como o Thiago Brava é inevitável, afinal qualquer artista ainda precisa do rádio.

Ainda assim, as músicas que remetem ao Thiago Brava de “Lei do Desapego” e do “Arrocha do Poder”, com temas mais extrovertidos, como “Vizinho Chato”, “Spatumba” e outras, ainda têm seu lugar cativo. Nem daria pra deixar de fora, afinal, assim como a percussão escandalosa em quase todas as músicas, o que remete às suas influências do pagode e do axé, tudo isso faz parte da sua identidade musical.

Nota: 8,0

* Israel & Rodolffo ““ Bem Apaixonado

Israel & Rodolffo são de fato uma das melhores duplas da nova geração. E isso se reflete na qualidade constante de seus trabalhos. Seja quando gravam um disco ultra comercial, como o primeiro DVD, lançado há cerca de 3 anos, ou quando resolvem lançar um disco só com modões inéditos numa pegada bem tradicional, como fizeram no ano passado em um dos melhores projetos de 2013.

O novo disco da dupla equilibra estas duas vertentes, a comercial e a tradicional, entregando músicas que exploram uma linguagem mais moderna mas trazem uma sonoridade levemente inspirada num sertanejo mais clássico. “Me conta o resto”, “A vida é sua” e principalmente “O Grande Dia”, uma das melhores músicas do ano, por exemplo, têm uma levada que foge um pouco do que a maioria dos artistas de hoje trabalha na vertente romântica. Essa característica já era vista na canção “Conto de Fadas”, do primeiro DVD da dupla. É um estilo que remete aos anos 90, mas é claro que com uma sonoridade muito mais atual.

“Bem apaixonado”, que assim como as citadas acima foi composta pelo jovem e super talentoso Sassinhora Jr, representa o lado comercial do disco. E ainda assim é uma música bem tradicional, com um arranjo no saxofone que remete bastante ao arrocha clássico nordestino, de artistas como Pablo, Silvano Salles e outros e que se tornou uma infuência tão marcante no sertanejo em 2014.

Na verdade, a dupla veio aos poucos migrando da influência universitária, vista principalmente nas baladas daquele primeiro DVD, para uma influência mais conservadora, chegando a incluir neste disco um xote e um pagode de viola inédito, coisa que quase ninguém tem peito pra fazer hoje em dia. Reiterando, claro, o papo contemporâneo das letras. O pagode de viola, por exemplo, brinca com o dinheiro gasto pelas mulheres com beleza. Ao dar ao sertanejo tradicional uma linguagem mais moderna, Israel & Rodolffo acabaram criando uma identidade bem peculiar, pouco vista hoje em dia, o que é uma pena.

Nota: 9,0

* Roberta Miranda ““ Roberta canta Roberto

Não é a primeira vez que a Roberta Miranda grava Roberto Carlos. É a primeira vez, entretanto, que ela grava um disco todo em homenagem ao Rei. Apesar disso não ser lá uma grande novidade, creio que é a primeira vez que isso acontece dentro do segmento sertanejo. E a Roberta Miranda preferiu manter-se a mais próxima possível da musicalidade do rei.

Para começar, quem assina a produção é o Guto Graça Melo, famoso por produzir o próprio Roberto Carlos. Isso garantiu ao projeto uma sonoridade bem próxima à do próprio rei. Até na foto da capa, inclusive, a Roberta se aproximou dele, usando roupa azul em frente a um fundo azul, a cor preferida do Roberto Carlos.

Os poucos momentos “sertanejos” do disco ficaram por conta da presença de um acordeon bem sutil em algumas faixas. Fora isso, até a bateria do disco é mais contida, com uma sonoridade bem mais suave.

Uma boa sacada do disco é resgatar canções do lado B do rei, apesar da presença de “Como é Grande o meu amor por vocꔝ ou de “Nossa Senhora” no repertório. Convenhamos que é difícil escolher o repertório certo entre as músicas do Rei, afinal quase todas já foram revisitadas pelos mais variados cantores. Mas creio que a escolha das músicas deste disco foi, de um modo geral, sábia, com clássicos como “Fera Ferida”, “Quando eu quero falar com Deus”, “Proposta” e várias outras incríveis que não têm tantas versões assim além das originais.

Nota: 8,5

Deixe seu Comentário

seu endereço de e-mail não será publicado.