Mulheres na música sertaneja: estamos enfim diante de uma mudança de paradigma?

Mulheres na música sertaneja: estamos enfim diante de uma mudança de paradigma?

Entra ano, sai ano, o debate em torno da posição da mulher na música sertaneja permanece o mesmo. Falam que a situação está melhorando, que nunca esteve tão bom, que a mulher nunca teve tanta representatividade, mas no fim a coisa toda permanece inerte. Apesar dos casos pontuais que acontecem desde os tempos da Inhana e das Irmãs Galvão, passando pela Roberta Miranda, a verdade é que o sucesso das mulheres na música sertaneja nunca foi uma constante. Sempre se restringiu a poucos nomes.

Acontece que nos últimos tempos a conversa voltou à tona e alguns nomes têm, de fato, demonstrado que talvez este momento seja diferente. Ao invés de observamos um único nome feminino se destacando, o que temos visto é uma série de nomes que começam a chamar a atenção de forma simultânea, seja junto às gravadoras ou principalmente junto ao público, que no fim das contas é quem tem o poder de fazer acontecer. Alguns mais fortes que outros, claro, mas todos com uma interessante posição dentro de uma possível nova realidade.

A discussão coincide, na verdade, com um momento em que o debate acerca do feminismo se encontra incrivelmente acirrado. O ENEM deste ano teve a temática feminista como grande protagonista, tanto em questões controversas quanto no tema da redação. Até em Hollywood temos observado uma intensificação deste assunto, com um debate intenso em torno das diferenças salariais entre homens e mulheres nas produções de lá e no pouco espaço dado a elas como diretoras ou protagonistas dos filmes.

Tudo isso parece reverberar até na música sertaneja. Os nomes que mais tem se destacado nesta nova leva de cantoras sertanejas defendem, mesmo que sem uma intenção explícita, a bandeira feminista através de letras que as colocam em pé de igualdade com os homens, ou seja, elas também são pessoas normais que gostam de curtir a vida.

Nesta onda de mostrar que a mulher também sofre, também bebe, também farreia, Marília Mendonça e Maiara & Maraísa são os nomes que mais vêm se destacando, graças também à grande expectativa em torno do casting da Work Show. Para não perder tempo, o escritório já começa a, como citei ontem, promover a “Festa das Patroas”, que reunirá as três em um mesmo show que promete ser o “Cabaré” em versão feminina.

A repercussão incrivelmente positiva dos trabalhos tanto da Marília Mendonça quanto da dupla Maiara & Maraísa mostra que esse parece ser o caminho ideal para o sertanejo feminino: tirar a mulher do pedestal e colocá-la no mesmo patamar do homem. A mulher se sente representada pelas letras que falam delas em situações que elas vivem no cotidiano. E a aceitação do trabalho delas junto ao público feminino, que, convenhamos, é a maioria absoluta do público sertanejo, mostra que tal fórmula tem se provado eficaz.

Paula Mattos é outra artista que tem se destacado nesta nova leva. Além do DVD pela Warner, a Paula surge como nova aposta da Western, que cuida da carreira de Munhoz & Mariano. Em comum com as cantoras citadas acima está principalmente o talento com a caneta. As quatro meninas são responsáveis por uma infinidade de hits e de grandes canções lançadas nos últimos anos pelos mais diversos artistas. Agora, como explicar o fato de canções escritas por mulheres darem tão certo com os homens e não com as próprias mulheres? Bem, isso até algum tempo atrás, já que, como eu disse, a realidade parece estar mudando. As quatro já compuseram juntas, inclusive. Elas escreveram a música “Ser humano ou anjo”, gravada por Matheus & Kauan.

E ainda sobre estes nomes citados, é importante salientar um fator que pode ser talvez o mais polêmico a respeito desse crescimento da vertente feminina: todas elas fogem do padrão até então estabelecido na música sertaneja. Vejam bem, nos últimos tempos estabeleceu-se que a mulher na música sertaneja deveria obedecer a certas regras: um perfil “diva” ou angelical, cantando músicas sobre amor mas com uma linguagem suave e a mais doce interpretação possível. Mas todas as cantoras citadas acima desobedecem essas regras. Será essa a ousadia que faltava?

Imagine o público feminino assistindo a um show destas quatro cantoras citadas. A impressão que esse público tem é de que as cantoras que estão ali se apresentando são “gente como a gente”, são garotas que poderiam muito bem estar na mesma roda de amigos, tomando a mesma cerveja ou o mesmo whisky e se divertindo de igual pra igual. E não deixa de ser curioso lembrar que a mulher mais importante na história da música sertaneja, Roberta Miranda, segue exatamente estas mesmas características “fora dos padrões”. E tanto a Roberta quanto, pra citar outro grande exemplo, Fátima Leão, sempre se destacaram como compositoras.

A própria Roberta já parece notar que há algo acontecendo, sim, e com mais força do que vimos em outras épocas. Há alguns dias, ela soltou um vídeo em seu canal oficial no qual dava as boas vindas a uma série de novas cantoras, colocando-se inteligentemente como precursora de toda esta geração.

Se a história da música sertaneja pode provar algo, é que um exemplo de sucesso pode dar origem a um movimento consistente. Caso vocês não se lembrem, até cerca de 7 anos atrás os cantores solo eram tão desacreditados quanto as mulheres foram a vida toda. Apesar de exemplos como Sérgio Reis, Almir Sater e Juliano César, o cantor solo era tido como certeza de fracasso. Até que um certo Eduardo Costa abriu as portas para uma nova geração, que ficaram escancaradas de vez algum tempo depois com um tal Luan Santana. Daí em diante vieram Gusttavo Lima, Michel Teló, Cristiano Araújo, Lucas Lucco, entre tantos outros que tornaram a formação “solo” uma realidade, o que até 10 anos atrás era inconcebível. Ora, se deu certo com os cantores solo, porque não daria com cantoras e duplas femininas?

O aumento do interesse em nomes como os citados acima tem ajudado a fortalecer outros que nem sempre seguem a mesma linha. A Universal está apostando alto na Bruna Viola, que mesmo seguindo um certo padrão de beleza foge totalmente do parâmetro musical até então seguido pelas mulheres. A Laís continua sendo sempre uma aposta sólida por conta do inegável talento. A cantora Tuta Guedes tem demonstrado um notável crescimento. Entre tantos outros nomes que estão aí, cada vez mais fortes. Sem falar, claro, dos nomes que já chegaram a um patamar mais alto e seguem colhendo os frutos do trabalho realizado, como Paula Fernandes, Maria Cecília e Thaeme.

Não sei se é cedo para comemorar a valorização definitiva da mulher como intérprete sertaneja, mas o ano de 2016 começa a se desenhar como o ano que pode sim representar essa consolidação. Aliás, ouso dizer que se no ano que vem as coisas não mudarem mesmo, é provável que não mude nunca. Para os admiradores da “tal da voz feminina”, como eu, é uma conquista a ser celebrada. Tomara que o tempo comprove que essa revolução está mesmo acontecendo. As mulheres merecem ocupar o lugar ao qual têm direito: o de cima do palco, empunhando um microfone, e não apenas escrevendo as canções que os homens cantam ou simplesmente assistindo da plateia. O gênero sertanejo é machista? Pois bem. Talvez seja a oportunidade que ele precisava para deixar de ser.