Música inédita de Cristiano Araújo é lançada. O que mudou no mercado sertanejo após a sua partida?

Música inédita de Cristiano Araújo é lançada. O que mudou no mercado sertanejo após a sua partida?

No texto de ontem, mencionei que a partida repentina de Cristiano Araújo em 24 de junho do ano passado teve mais efeitos no mercado do que parecia, mas não me aprofundei no assunto. Por isso, achei pertinente explorar esse assunto um pouco mais. É que, além de toda a comoção causada pela tragédia, os efeitos (desculpem o trocadilho) nos bastidores foram profundos, modificando drasticamente a realidade do mercado que vivenciamos hoje.

Como vocês se lembram, o momento pelo qual passava Cristiano era importante. A Audiomix e o cantor Gusttavo Lima haviam, meses antes, encerrado o contrato e o Cristiano havia assinado com o escritório para ocupar a lacuna deixada pelo Gusttavo nos festivais Villa Mix, principalmente.

Como muitos de vocês devem ter percebido, a grade do Villa Mix sempre teve duas atrações mais, digamos, “fortes”, que encabeçavam a maioria dos eventos da marca ao redor do Brasil. Antes eram Jorge & Mateus e Gusttavo Lima. Com a saída deste e com a entrada do Cristiano, a dobradinha continuou.

No final de 2014, a Audiomix já havia fechado contrato com o Wesley Safadão, que também passou a integrar a grade do Villa Mix na maioria dos festivais ao redor do Brasil. É seguro dizer que a presença do Safadão nos festivais Villa Mix ao redor do Brasil foi um dos principais motivos do sucesso que ele alcançou nas regiões sul, sudeste e centro-oeste. Bem, isso e a participação em diversas músicas de diversos artistas sertanejos, que trabalharam o nome dele sem que ele precisasse gastar um centavo. Com a partida repentina do Cristiano, a dobradinha com Jorge & Mateus ficou novamente desfalcada, o que de certa forma contribuiu para um protagonismo ainda maior do Safadão. O nome dele cresceu, o público sertanejo passou a se interessar ainda mais pela música nordestina e, daí em diante, o que vimos foi uma invasão dos cantores de sucesso dessa região agora também no sul, sudeste e centro-oeste do país.

Bem, este seria um efeito bastante indireto da partida do Cristiano, é verdade. Mas uma sucessão de acontecimentos numa outra frente acabou sendo bem mais diretamente ligada à partida do Cris. A tragédia deixou um de seus empresários, Toninho Duettos, sem um escritório na época. Ele havia montado, com o Cristiano, a CA Produções, que havia se originado da dissolução da Efeitos Produções, após a venda de parte da sociedade por outros sócios. A CA abraçaria, além da parceria com a Audiomix na carreira do Cristiano, as carreiras (ou parte delas) de artistas como Israel & Rodolffo (que já haviam sido anunciados no escritório, na época em parceria com a Santafé) e, em algum tempo, Maiara & Maraísa, de quem Toninho Duettos era sócio. O DVD delas havia sido gravado pouco tempo antes da partida do Cris.

Sem o Cristiano, a CA deixou de existir, e, após convites de diversos escritórios, Toninho aceitou entrar como parceiro no gerenciamento da carreira de uma dupla promissora: Zé Neto & Cristiano. Uma vez na Workshow, ele acabou inserindo no casting também as suas pupilas Maiara & Maraísa. Além delas, ele também acabou atuando como sócio na gestão da carreira da Marília Mendonça.

O prestígio do Toninho junto ao mercado foi apontado, como muitos costumam afirmar, como uma das grandes razões do crescimento da Workshow no último ano. Não à tôa, todos os artistas mencionados no último parágrafo obtiveram um êxito enorme em praticamente todas as principais praças brasileiras. Tornaram-se três dos produtos de maior receita no mercado sertanejo no período. Em parceria com a Fonttes Promoções, Marília se tornou a nova rainha do nordeste. Enquanto isso, principalmente por conta do Toninho, Zé Neto & Cristiano e Maiara & Maraísa pintaram e bordaram no centro-oeste, sudeste e sul. Sem falar no movimento feminino desencadeado pelo sucesso de Maiara & Maraísa e da Marília Mendonça.

Se vocês notarem, nos parágrafos acima eu fiz praticamente um resumo dos principais acontecimentos do mercado sertanejo no último ano, todos eles tendo, direta ou indiretamente, alguma ligação com a partida repentina do Cristiano. Tudo isso apenas corrobora o fato de que a importância dele no mercado sertaneja já era muito maior do que se imaginava, tanto que a sua ida acabou causando muito mais mudanças do que poderíamos pensar.

Não estou dizendo que isso tudo que eu mencionei não aconteceria se o Cris ainda estivesse vivo. Apenas destaquei alguns pontos interessantes, que nos fazem refletir sobre como o Cristiano acabou atuando indiretamente, mesmo depois de partir, nos bastidores do mercado sertanejo. Ou pelo menos como tudo já parecia estar amarrado a ele, de uma forma ou de outra, o que corrobora a tese de que ele estava mesmo destinado a ser o maior.

E se podemos citar fatos ainda mais diretos, temos a carreira solo do Felipe Araújo, sobre a qual falei no texto sobre a gravação do seu DVD, postado ontem, e uma mudança (tardia, mas necessária) na forma como a imprensa passou a encarar a música sertaneja, afinal a forma como a morte do Cris foi tratada pela imprensa brasileira deve facilmente entrar para os anais do péssimo jornalismo brasileiro. Desde então, artistas em ascensão passaram a ter uma atenção da mídia muito mais imediata. E olha que o Cris já era um dos principais artistas sertanejos do mercado, com cachês acima dos 200 mil reais.

A força do Cristiano Araújo ainda é tanta que diversas novidades envolvendo seu nome estão sendo ou serão lançadas em breve. Além de um livro escrito pelo fotógrafo Flanney Gonzalles (“Onze mil horas”, sobre o qual escreverei em breve), está previsto o lançamento de diversos projetos, incluindo um disco com as gravações inéditas que o Cris deixou antes de partir. Uma das faixas, inclusive, foi mostrada na última edição do Fantástico. Confiram abaixo o vídeo liberado no canal do produtor Blener Maycom. O nome da moda é “Vai Doer”. A composição é do Gabriel Agra e do Danillo D’Ávilla (a mesma dupla da música “10%”).