Na Estrada – Cezar & Paulinho celebram novamente a música caipira na gravação da segunda edição do projeto “Alma Sertaneja”

Na Estrada – Cezar & Paulinho celebram novamente a música caipira na gravação da segunda edição do projeto “Alma Sertaneja”

Tem se tornado uma luta cada vez mais solitária. A defesa da vertente caipira da música sertaneja vem perdendo força ano após ano. Não só pela modernização natural do gênero, mas também por puro e simples esquecimento e descaso dos artistas. Hoje em dia, quando se fala em música de raiz, a maioria dos artistas pensa se tratar apenas de artistas como Milionário & José Rico pra cá. A música caipira de fato, aquela que cronologicamente dominou o gênero sertanejo antes da implementação do chamado “modão”, tem se tornado item cada vez mais raro nos repertórios da maioria absoluta dos cantores e duplas.

Cezar & Paulinho são uma das pouquíssimas duplas ainda em evidência que defendem a bandeira desse estilo musical em um projeto ou outro. A música caipira, que evidencia a viola e que traz sempre temas marcantes em suas letras, histórias emblemáticas, poesias bucólicas de altíssimo nível, volta a figurar como personagem principal em um projeto da dupla depois do surpreendente sucesso do DVD “Alma Sertaneja”, lançado há dois anos e cuja vendagem rendeu, vejam só, o disco de ouro, o que prova que ainda há um mercado consumidor para esse tipo de material, mesmo que a grande maioria dos artistas não enxergue isso.

Estive em São Paulo na última semana gravando uma série de entrevistas para o Blognejo e aproveitei para ir até Valinhos  (90 km de São Paulo) na última quarta-feira para acompanhar a gravação do DVD “Alma Sertaneja Vol. 2”. O projeto foi gravado no estúdio da TV católica Século XXI, um dos muitos estúdios de alto padrão ligados à igreja católica no interior de São Paulo. Não à tôa, a gravação do DVD teve ritmo de gravação de programa de TV, com a diretora falando com a plateia e com os artistas durante todo o tempo, sempre com um tom de voz meio ríspido, comum aos diretores de TV, hehe.

Desta vez, ao invés do cenário meio clichê do primeiro DVD, a opção foi por um painel de LED atrás do palco, como de costume, e um no assoalho, com os artistas literalmente em cima dele. A combinação das imagens nos dois painéis era modificada a cada música, com um cenário para cada canção, sempre relacionado a um tema rural.

E se no primeiro DVD o projeto foi mais simples, com as músicas sendo tocadas de forma direta, apenas com a entrada das cordas do meio do disco pra frente, nesta segunda edição, a ideia foi trazer momentos inusitados distintos. O primeiro deles, talvez o mais inusitado, foi a participação do Ratinho, que fez a declamação do clássico “Cabocla Tereza”.

Em outro momento, a dupla Cezar & Paulinho realiza uma bela homenagem ao grande Tião Carreiro, com a reprodução de um trecho de um programa de rádio que a dupla apresentava décadas atrás e que contou com a participação dele. O Paulinho fez o dueto, ao vivo, com a voz gravada do Tião na música “Companheiro do Ferreirinha”.

E o terceiro dos momentos inusitados distintos se deu com a simulação do que parecia ser um programa de TV fictício intitulado “Espelhos da Música”, com homenagens a grandes artistas que influenciaram a dupla. Este trecho da gravação foi o que reuniu o maior número de participações especiais.

Mas sem dúvida, repetindo o feito do primeiro DVD, os grandes destaques desta gravação foram mais uma vez as participações e o repertório. Fora a incrível participação do Ratinho (que teve que repetir algumas vezes a declamação), o disco trouxe ainda figuras emblemáticas como o Marciano (que a dupla Cezar & Paulinho revelou durante a gravação ser o responsável por trazer a dupla de vez  para o circuito nacional) e algumas das melhores duplas que a música sertaneja e caipira já viu, como Lourenço & Lourival (uma das minhas duplas preferidas) e Pedro Bento & Zé da Estrada, trajados com suas habituais roupas mexicanas.

Além destes, participaram também a primeira e a terceira “geração de cantadores” da família de Cezar & Paulinho – Craveiro & Cravinho e Ed & Fábio -, Mococa & Paraíso, Caim (da dupla Abel & Caim), Léu (da dupla Liu & Léu), Rangel Costa e o padre Antônio Maria.

Assim como no primeiro DVD do projeto, esta segunda edição reuniu músicas que não são costumeiramente regravadas, o que torna o repertório ainda mais fascinante. A dupla resgatou canções absurdamente fantásticas como “A enxada e a caneta”, com o Léu cantando junto com a dupla em homenagem aos irmãos falecidos Zico & Zeca, intérpretes originais da música, e “Velha Porteira”, uma das mais incríveis músicas do cancioneiro caipira, cantada por Irídio & Irineu e regravada por Lourenço & Lourival, que fez as honras também neste DVD. Aliás, a dupla Lourenço & Lourival parece ter sido uma das únicas que ousou entrar cantando ao vivo (a maioria das vozes das participações foi gravada previamente). Eles também cantaram a música “Relógio Quebrado”.

A única música mais “comum” gravada neste disco foi “Pagode em Brasília”. E entre 24 canções, apenas 2 foram inéditas. O disco trouxe ainda músicas como “Mágoa de Boiadeiro”, “Boiadeiro Errante”, “Natureza”, “Mãe Amorosa”, “Colcha de Retalhos”, “Meu primeiro amor”, “Índia”, “Tristeza do Jeca”, “Moda da Mula Preta”, entre outras.

É provável que este disco repercuta ainda mais do que o primeiro da série, até por conta da participação do Ratinho e tudo mais. E o meu desejo é que repercuta mesmo, até para manter acesa a fagulha que ainda resta da defesa da música caipira, aquela que deu origem a tudo isso que vivemos e que conhecemos como música sertaneja. É triste ver o quanto esta vertente é desprezada pelas novas gerações, como se ela não fosse nem um pouco importante para o segmento tal qual ele é hoje.

É importante ressaltar sempre que se existem Jorge & Mateus, é porque existiram Zico & Zeca, Alvarenga & Ranchinho, Zilo & Zalo… Se existem Victor & Leo, é porque existiram Tonico & Tinoco, Jacó & Jacozinho… Se existe Luan Santana, é porque existiu Pena Branca & Xavantinho, Carreiro & Carreirinho, Vieira & Vieirinha… Entre tantos outros. Um artista sem origem é um artista sem berço. E não custa nada lembrar-se disso de vez em quando. Pena que tão poucos artistas, como Cezar & Paulinho, façam questão de promover esse resgate.

Abaixo, algumas fotos da gravação, tiradas pelo Danilo Carvalho da agência Fio Condutor.