Nem Cristiano Ronaldo e nem Michel Teló

Aproveitando que hoje é o último dia do primeiro semestre, vamos encerrar por aqui os textos sobre a tragédia envolvendo o Cristiano Araújo. Este é o último no qual falarei sobre tudo o que aconteceu nestes últimos dias. Nas próximas vezes, quando o Cristiano for assunto do blog, será pelo grande artista que era e pelas contribuições eternas que deixou para o segmento sertanejo, e não mais pela forma com que sua morte foi tratada e com todo o desrespeito demonstrado a ele, à Allana e aos familiares nestes últimos dias.

Eu já falei um pouco a respeito no dia seguinte à tragédia, mas ao invés desse subtema perder força nos últimos dias, ele acabou ganhando mais espaço, com uma infinidade de textos, análises, dissertações, teses e todo tipo de teoria sobre o que representava Cristiano Araújo e por que sua morte causou tamanha comoção. E enquanto representante da crítica sertaneja (pelo menos é assim que muitos me enxergam), eu acabo tendo a obrigação de escrever um pouco mais, nem que seja para deixar minha opinião definitiva e não voltar mais a esse assunto. O problema é que eu sei que não vai fazer diferença. Não para essa parte da imprensa “especializada” responsável por essas teorias. Mesmo assim, vamos lá.

Em primeiro lugar, é necessário ressaltar o quanto esta tragédia escancarou o descaso e despreparo da imprensa com a cultura brasileira que é consumida fora do eixo Rio – São Paulo. As duas frentes nas quais o assunto foi tratado (TV e mídia escrita) o fizeram cada uma de uma forma diferente, mas ambas deixaram uma marca negativa na cobertura. A TV com o conjunto absurdo de trapalhadas e a mídia escrita com o conjunto grotesco de opiniões insensatas tidas como verdade absoluta.

Entre as mais diversas trapalhadas da TV na cobertura da tragédia, a principal foi a confusão com o nome do Cristiano Araújo. Por diversas vezes, profissionais de renome da Globo o chamaram de Cristiano Ronaldo, o que demonstra não só um grave desconhecimento da notícia que estão anunciando, mas também um desconhecimento tanto da área de cultura quanto da área de esportes. Ora, eu sei que ninguém é obrigado a conhecer um determinado artista, mas já que a notícia está sendo transmitida em tempo real, é de se esperar o mínimo de profissionalismo de qualquer jornalista, nesse caso conhecendo o tema sobre o qual está falando e o nome dos envolvidos. A quantidade de vezes em que o erro foi cometido na Globo chegou a beirar o ridículo. Isso porque estavam falando de um artista contratado da Som Livre e que já havia participado de todos os programas da casa e até de uma novela, em cuja trilha ele havia emplacado uma música.

Mas ainda que a cobertura da TV tenha parecido muito mais uma grande comédia pastelão, da qual ninguém riu em virtude das evidentemente trágicas circunstâncias, ela pelo menos cumpriu seu papel ao atentar para a comoção popular gerada pela tragédia e dar à mesma um espaço enorme na programação. Afinal, é disso que é feita a TV aberta: do clamor popular. Ou não?

Bem, parece que os intelectuais da imprensa “especializada” em música e TV não pensam dessa forma. Nos últimos dias, parece ter havido um consenso entre boa parte deles: o de que a tragédia envolvendo Cristiano Araújo não merecia tão ampla cobertura da imprensa televisiva, seja porque ele “não era tão famoso assim”, na opinião dos “especialistas” em TV, ou porque sua contribuição artística “não teria sido relevante o suficiente”, na opinião dos “especialistas” em música. Afinal, a TV está errada ao cobrir a morte de um ídolo atendendo a um grande clamor popular surgido quase que imediatamente após a tragédia nas redes sociais? Estariam os críticos corretos ao questionar a necessidade de tão ampla cobertura?

Bem, primeiro vamos analisar o ponto de vista dos “especialistas” em TV. Quem é que monta a programação da TV, pelo menos em situações extraordinárias como essas? O que leva a TV a atender a um clamor popular e dar tanto espaço na programação à cobertura da morte de um ídolo? Pensemos da seguinte forma: vale a pena manter no ar um programa batido como a “Sessão da Tarde” ou manter as mesmas pautas sobre as atuais novelas no Video Show ou um debate sobre um assunto besta qualquer na Fátima Bernardes, enquanto um determinando assunto toma conta das redes sociais?

Na verdade, o que se percebe nesse episódio é uma evolução da TV aberta no sentido de acompanhar a tendência imediata das redes sociais. Ao atender ao anseio do público por notícias sobre a tragédia, a TV demonstra uma preocupação com o imediatismo do que está sendo dito no Facebook, Twitter, Instagram e Whatsapp. Mesmo que não tivesse sido com o Cristiano Araújo, qualquer assunto que toma conta das redes sociais em determinado momento merece a atenção imediata da imprensa. Ora, a TV vai simplesmente perder público para a timeline do Facebook enquanto pode atrair aquele público para si? Os “especialistas” em TV parecem não ter se atentado para esta questão.

Mas o caso mais grotesco se deu com os “especialistas” em cultura e música da mídia escrita. A confusão entre crítica e gosto pessoal não é recente. É, na verdade, o embrião da crítica musical em geral. Não sei de nenhum crítico musical sequer que saiba colocar o gosto pessoal de lado ao analisar discos ou artistas. A crítica confunde o “é bom” com o “eu gosto” ou o “é ruim” com o “eu não gosto”. Assim nascem figuras como Nelson Motta, que abominam o sertanejo e tratam tudo o que produzimos como irrelevante ou medíocre.

A morte do Cristiano deu pauta a muitos destes “especialistas”, que, espantados com tamanha comoção, criaram as mais diversas teorias sobre o motivo que levou Cristiano Araújo a ser tão conhecido, mas ignorado pela mídia. Como podia alguém ter tanto apelo popular sem ter passado pelo crivo dos especialistas da crítica musical brasileira? E em meio a todas as teorias levantadas, nenhuma jogava a culpa sobre os próprios críticos. Ao contrário, alguns dos pontos de vista colocaram a “culpa” no próprio público, como se o “crítico” não tivesse obrigação nenhuma de saber o que o público anda consumindo.

No caso mais extremo, com o global Zeca Camargo lendo uma crônica no jornal das 10 da Globo News, a culpa pela comoção com a morte do Cristiano Araújo foi jogada em cima da, nas palavras dele, “falta de referências culturais”. Ele comparou a comoção à modinha dos livros de colorir, alegando que a nossa “pobreza cultural” nos faz buscar refúgio em coisas medíocres como os tais livros ou os “artistas de uma música só”, como ele enxergava o Cristiano Araújo, mesmo que ele já tivesse 19 anos de carreira e uma já extensa lista de hits. Chegou a dizer, inclusive, que o Brasil tem condição de adorar novos “heróis”, enquanto a tela transmitia imagens de novos ídolos do rock que nunca renderam o esperado.

Mesmo apoiado por outros “especialistas” em música e cultura e por haters em geral, a opinião gerou uma campanha devastadora da classe sertaneja nas redes sociais, obrigando o próprio Zeca Camargo a, em menos de 24 horas após a crônica ser exibida, se desculpar publicamente ao vivo na Globo, no Instagram e em uma nova crônica, desta vez em texto, postada em sua coluna no G1. Há rumores inclusive de que ele tenha que abandonar a apresentação do novo programa de entretenimento da casa por conta de um possível boicote dos sertanejos.

Em outro caso, mais ameno, uma matéria no site da Carta Capital usou como título a frase “Morreu Michel Teló?” para falar sobre a comoção gerada pela tragédia, colocando em cheque a importância do Cristiano Araújo para a cultura brasileira e tratando a cobertura dada ao caso como algo que apenas alguém com a fama de um Michel Teló, pelo menos, mereceria.

Em todos estes casos, uma coisa fica totalmente clara: a imprensa de entretenimento não sabe o que se passa além dos muros da cidade maravilhosa ou dos arranha-céus paulistanos. E pior: ainda se desespera na tentativa de se eximir da culpa por não conhecer o Brasil como deveria, já que são jornalistas que, segundo foram levados a acreditar, ditam tendências. Como alguém pode ditar tendência se sequer conhece o trabalho de um artista cujo cachê já ultrapassava os R$ 200 mil e cuja agenda de shows já acumulava mais de 25 apresentações por mês, de norte a sul, de leste a oeste? Como um formador de opinião perdeu essa? Ora, não era pra ele ter dito o que o povo iria consumir? Quando foi que o crítico parou de escrever sobre o que o público deveria ouvir, com o público passando a determinar sobre o que o crítico iria escrever? Parece que esse momento aconteceu e os “especialistas” não acompanharam.

Ao comparar Cristiano Araújo a Michel Teló, como visto repetidamente em diversos textos, os jornalistas responsáveis demonstram ainda um desconhecimento de tudo o que a música sertaneja trouxe nos últimos 3 anos, pelo menos. Pararam no sucesso internacional de “Ai se eu te pego” e por lá ficaram. Não estou questionando o sucesso do Michel Teló. Longe disso. É que todos sabemos que o mundo da música sertaneja é uma engrenagem cujas peças estão cada vez mais distantes da grande mídia. Jorge & Mateus, Henrique & Juliano, Cristiano Araújo, e tantos outros, cujos cachês ultrapassam os R$ 200 mil ou R$ 300 mil, não têm (ou tinham, no caso do Cristiano) o costume de aparecer na TV com tanta frequência quanto o Michel ou de ser tema de análise em colunas de grandes “especialistas” do mundo da música, exceto dentro do próprio segmento sertanejo.

Podemos ser otimistas e achar que esse episódio trágico pode representar uma mudança na forma como a música sertaneja é enxergada pelos pseudo-intelectuais. Mas levando em conta que eles sequer assumiram a culpa por não conhecerem um artista do tamanho do Cristiano Araújo, creio que esse otimismo seja em vão. Será mesmo que eles deixarão seus Leblons e suas praias de Copacabana para desbravar o Brasil e entender esse fenômeno cultural que eles tentam explicar sem sucesso há 20 anos? A morte do Cristiano Araújo expôs essa fraqueza da imprensa de entretenimento e colocou em xeque a sua já combalida credibilidade. Como a tal imprensa cultural brasileira pretende tratar de cultura se nem se preocupa em conhecê-la dentro de seu próprio habitat? Talvez um trabalho intensivo em campo mude essa situação, mas será que ainda dá tempo de recuperar um pouco da própria dignidade? Ou a tendência é mesmo que ela definhe dentro da própria bolha em que se enclausurou?