O artista muda, a imagem não…

É mais do que constante a reclamação de diversas pessoas com relação à forma de se fazer música sertaneja. A metodologia é praticamente a mesma há anos. Alguém lança um trabalho diferente, inovador, e que justamente por conta disso acaba fazendo um grande sucesso. Aí uma gigantesca turma de “chupinhões” vem seguindo a mesmíssima onda e lança trabalhos parecidos ou até iguais ao que foi lançado primeiro e que fez sucesso, como se aquela fosse a maior das respostas para a grande dúvida “como fazer sucesso na música sertaneja?”. Isso já é uma situação frequente na música sertaneja e aparentemente nada vai mudar isso. Pelo menos não tão cedo.

Agora, seguindo sempre essa metodologia de se “copiar o que faz sucesso”, muitos artistas estão esquecendo inclusive de trabalhar a própria imagem e às vezes até o próprio nome simplesmente por acreditarem que o correto é fazer igual ao que já está consolidado no mercado. Isso é ainda mais facilmente perceptível em artistas solo, que agora parecem trabalhar sempre com base numa mistura entre Luan Santana e Gusttavo Lima. Segundo essas “regras” nas quais a galera passa a acreditar depois que alguém estoura, o nome deve sempre ser composto, a camisa deve ser sempre xadrez (de preferência vermelha) com uma camiseta branca por baixo ou, se possível for, um colete sobre uma camiseta, tênis da moda, cabelo espetado pra cima às custas de litros de gel e por aí vai. Além das músicas, é claro, que continuam sendo claramente influenciadas (para não dizer cópias) pelas músicas dos artistas que de fato chegaram lá. Até entre duplas sertanejas é comum essa coisa de se padronizar um estilo. São muito comuns hoje em dia os blazers em pelo menos um dos membros da dupla. O outro fica com o estilo mais despojado.

É engraçado pegar diversas capas de discos ou mesmo simples fotografias de artistas que estão batalhando por um lugar no hall da fama e botar lado a lado para uma simples comparação. A camisa xadrez quase sempre vermelha com uma camiseta branca por baixo se tornou praticamente um item indispensável segundo o “livro de regras” da música sertaneja. O desafio fica sendo achar diferenças entre eles. Talvez a única (talvez) seja mesmo no timbre de voz, o que só vai ser percebido mesmo depois que se botar o disco no toca-fitas (hehe, fui longe hein) pra ouvir. Mas aí é que tá, com tanta coisa visualmente igual, qual deles escolher para ouvir?

Na história sertaneja, aliás, essa coisa de se padronizar o visual sempre foi comum. Houve uma época em que era regra utilizar muitas correntes e anéis, parecendo um bicheiro. Em outra época, a regra passou a ser usar calças apertadas, apelidadas carinhosamente de calças “separa-bolas”. E essas calças passaram inclusive a ser associadas aos artistas que cantavam com voz aguda, também uma regra na mesma época, justamente porque alguns brincavam que a voz fina era um dos efeitos colaterais de se usar calças tão apertadas.

Mesmo assim, a história da música sertaneja comprova que até no visual é possível deixar a sua marca. Além do talento, é claro, muitos artistas devem parte do seu sucesso a alguns elementos marcantes de seu visual. Quando se pensa em óculos escuro na música sertaneja, a comparação com o Zé Rico é imediata. Os cabelos espetados de Chitãozinho & Xororó foram praticamente personagens à parte na carreira da dupla. E a dupla do cara alto e do baixinho Rionegro & Solimões? E olha que o Rionegro nem é alto. O Solimões é que é muito baixo, o que faz com o Rionegro pareça mais alto do que realmente é. João Paulo & Daniel ficaram marcados também pela questão interracial, que até então não tinha sido tão marcante na música sertaneja. Cesar Menotti & Fabiano, se não fossem a dupla dos “gordinhos”, provavelmente não teriam uma imagem tão forte. Num tempo em que o chapéu andava esquecido, o Sorocaba com aquele chapéu diferente acabou reacendendo o interesse por esse acessório. E o próprio Luan Santana, que acabou consolidando o penteado espetado às custas de muito gel e o colete. A sua gravatinha acabou se tornando o item que o diferencia do restante dos artistas que vieram na sua cola e acabaram adotando o mesmo estilo que ele. Se alguém mais aparecer de gravatinha, aliás, aí sim vai virar piada.

O problema é que o livro oculto de regras da música sertaneja, no qual muita gente insiste em acreditar, impede os novos artistas de se arriscarem. É melhor ficarem na zona menos arriscada da utilização de um estilo já comum do que arriscar na escolha de um visual ou até de um nome diferente. É preferível pegar o primeiro nome e jogar um sobrenome formal logo depois do que pensar num nome diferente e possivelmente mais marcante. Isso pelo menos na cabeça da maioria dos profissionais.

O que a galera parece não entender, no entanto, é que o livro oculto de regras traz logo na primeira página a maior das regras, que todo profissional de música sertaneja deveria saber de cor e salteado: seja diferente. Ser apenas uma cópia ou um projeto mal sucedido de clone não leva ninguém pra frente. Talvez dê algum fôlego inicial, claro, por isso tantos e tantos empresários têm se interessado em arriscar seu dinheiro em “projetos de Luan Santana”. Mas depois que passa a fase inicial da empolgação, o que sobra? Fica no mercado apenas quem tem a capacidade de mostrar um trabalho diferente. E talvez a busca por uma imagem diferente e não apenas de uma imagem que sempre vai ser associada àquela do artista de maior sucesso no qual a imagem deste novo artista foi baseada seja um dos pontos cruciais dessa coisa de se mostrar algo diferente do que está aí. O problema é que ninguém se arrisca.