“O Brega Virou Pop”, onde foi que a Veja errou…

Em sua mais nova edição, a Veja São Paulo, suplemento paulista da revista Veja, traz na capa uma matéria sobre a música sertaneja e, mais uma vez como em tantas outras, o faz de maneira  ignorante. “O Brega Virou Pop”, texto assinado por Pedro Ivo Dubra e Renata Sagradi, veterano e novata em jornalismo, respectivamente, mostram de maneira parcial e equivocada o movimento sertanejo, que já domina o Brasil há anos.

Para começar, o texto em questão não traz absolutamente nada de novo, e pior, mais parece uma cópia de outro que também foi capa da revista há dois anos: “As Raves do Jeca Tatu”. Matéria de fevereiro de 2008, que tinha pelo menos o benefício de ser original, apesar de afirmar que o “Sertanejo Universitário” (novo fenômeno segundo o autor) não carregava nada do sertanejo mais tradicional e só continha guitarras estridentes e tambores de axé. Meu parceiro Marcus Vinícius comentou na época e você pode relembrar clicando AQUI.

No caso da Veja dessa semana, a coisa já começa errada desde o título, que é extremamente pejorativo: “O Brega Virou Pop” mostra a virada dada pela música sertaneja nos últimos anos, quando conquistou a elite paulistana e como se tornou a bola da vez em casas noturnas  badaladas. Porém o texto  não mede palavras para menosprezar o ritmo. Oras, não é problema dizer que algumas canções são bregas, românticas ou até cafonas, mas não todas e nem o estilo é assim. Somos sertanejos acima de tudo, temos uma identidade que não combina com esse rótulo triste. E se queriam fazer algo sério, por quê o título  escolhido não foi “O Sertanejo virou Pop?” . Por quê essa mania de zombar do público do sertanejo? O que os autores, formadores de opinião e “elite cultural desse país” ainda tem contra o sertanejo?

A ignorância da Veja, na pessoa de seus jornalistas, se mostra mais evidente ao afirmar que o novo sertanejo quase não traz consigo raízes caipiras. Me digam os novos artistas então, em que fonte beberam e bebem até hoje? A maioria ouviu música raiz e o sertanejo dos anos 80, 90 e 2000. Por mais que o som seja ultra-moderno, as raízes estão lá, nas músicas, na influência, no jeito de falar. A insistência dos autores em sua crítica sem fundamento vai além e, se valendo de um texto de dois anos atrás condenam novamente as “guitarras barulhentas” dos artistas sertanejos, mesmo que muitos nem usem guitarras.

Mas o que mais indigna em reportagens como estas é que quem deveria ajudar acaba atrapalhando. Tal qual na matéria “As Raves do Jeca Tatu”, aqui também foram ouvidas pessoas ligadas á musica, como  o cantor e compositor Renato Teixeira. Renato que por sua vez, ao invés de defender, acabou  falando demais, e nas duas oportunidades desmereceu o sertanejo. Para o músico, que gravou um DVD recentemente ao lado de Sérgio Reis e teve a participação de Victor & Leo, “as composições de hoje são banais e para atingir o nível poético de um Vinícius, um Chico ou um Caymmi, falta estrada…”.

Obviamente muitos dos novos artistas sertanejos não tem a bagagem dos “supra-sumos” citados acima. Mas também não sofrem a rejeição de ser música para alienados pseudo-intelectuais. As palavras de Renato foram um verdadeiro tapa na cara, afinal, preconceito de gente de fora é compreensível, mas de gente do meio, não.

E por mais que se insista, ninguém nesse país ouve Vinícius de Moraes, Chico Buarque ou Dorival Caymmi, por mais que eles tenham história. Não adianta a Veja ou Rede Globo empurrar goela abaixo no povo. O Brasil ouve Vinícius sim, mas o sul-matogrossense que canta “Chora, me Liga” ao lado de João Bosco. Ouve Chico sim, mas Chico Amado, compositor de “Na Sola da Bota” cantada por Rio Negro & Solimões, “O Bicho vai Pegar”  nas vozes de Edson & Hudson ou “Tradição Gaúcha” canção imortalizada por Chitãozinho & Xororó. O Brasil não ouve Dorival, ouve Dorgival, autor do mega-sucesso “Pode Chorar”.

No final, o que a Veja e seus jornalistas fizeram foi, como sempre um grande negócio e, de quebra uma velada crítica á musica sertaneja. Precisavam de um motivo para  colocar o “Sertanejo Pop Festival”  na capa da revista e então produziram a reportagem. Nada de mais, apenas negócios mesmo. Matérias como essas, feitas ás pressas e sem profundidade mostram isso. E não achemos que as coisas estão mudando, em alguns veículos não vão mudar nunca. Não dava para esperar menos, sorte nossa que a música sertaneja está crescendo a cada dia e ganhando cada vez mais adeptos, independente de veículos como a revista Veja. Melhor ainda é não depender dela para nada.