O falso orgânico do Spotify

O falso orgânico do Spotify

Um desabafo do empresário Wendell Vieira, responsável pela dupla Jorge & Mateus, no Twitter me chamou a atenção. No texto, ele declara ter desistido do Spotify pra focar em outro streaming, primeiro por ter um aparelho da mesma marca do streaming e segundo por discordar da política que vem sendo implantada pelo Spotify.

O desabafo chama a atenção por partir do empresário da principal dupla dos últimos 20 anos e escancara o descontentamento que algumas políticas do Spotify vem causando em muitos profissionais do mercado. O principal deles: a robotização dos usuários.

Não é de hoje que o Spotify vem criando situações que favorecem alguns artistas em detrimento de outros e denotam que o que muita gente acredita ser um consumo orgânico na verdade é induzido pela própria plataforma. As sugestões de consumo que ultimamente aparecem pros usuários baseadas no seu padrão de consumo já configuram uma tentativa do Spotify de favorecer, ainda que de forma automática a partir do algoritmo, alguns artistas. Tudo bem que se trata de apenas uma sugestão de consumo, mas a tendência é clicar no ícone apontado, o que já torna a ação de ouvir aquela sugestão quase inevitável.

Uma outra possibilidade trazida pelo Spotify, as playlists personalizadas ajudam a configurar o algoritmo dos assinantes pra que eles consumam músicas parecidas com as que já lhe são apresentadas. Mas quem as apresenta, afinal? Ora, os proprietários das playlists que ele assina. O padrão de consumo que ele adota a partir destas playlists faz com que o Spotify entenda suas preferências de uma forma que pode não representar de fato o que ele gosta ou não de ouvir, alterando inclusive playlists da própria plataforma, as editoriais, que são construídas por curadores internos com base nas informações que as agências e a própria plataforma trazem.

Poucas pessoas tem o hábito de ir de fato ao botão de pesquisa do Spotify pra procurar músicas ou artistas específicos. A mecanização do consumo tem feito cada vez mais com que o usuário não se preocupe de fato com o que está ouvindo. Na verdade, a sua preocupação é automatizar esse consumo o máximo possível, até mesmo pra que ele possa realizar outras atividades ao mesmo tempo em que escuta música, como cozinhar, malhar, estudar, faxinar, dirigir.

Seria então um problema trazido pelo Spotify apenas? Acredito que não. Mesmo com todas essas questões apontadas, o Spotify ainda se apresenta como uma das plataformas mais democráticas. A construção de um enorme mecanismo de geração de receita por parte de terceiros é que tem transformado o consumo no Spotify em algo robotizado e impessoal. Ora, se a intenção é que o algoritmo represente fielmente o consumo de um determinado usuário, o correto seria obrigá-lo sempre a pesquisar o que vai ouvir, música por música, não é verdade? E quem é que quer fazer isso?

Uma das grandes reclamações atuais, inclusive, é um fruto direto dessa realidade. Todas essas pessoas que reclamam da realidade atual da música sertaneja consomem música da mesma forma: abrindo o Spotify e reclamando de 90% do que lhes é apresentado nas primeiras posições das playlists, sem tomar a simples atitude de pesquisar o que quer ouvir ou, mais radicalmente, bloquear determinados cantores. Sim, o Spotify permite que o usuário faça isso. E por que o usuário ranzinza não faz? Ora: preguiça de aprender. É mais fácil reclamar do que tomar uma atitude.

Assim como inúmeras outras mudanças no mercado da música em todos os tempos, dificilmente essa poderá ser revertida, a não ser que todo mundo adote a mesma atitude do Wendell e simplesmente abandone a plataforma por discordar da forma com que ela apresenta seu conteúdo. Isso obviamente nunca vai acontecer. Mas bem que esse desabafo dele merecia um pouco mais de repercussão pra que os próprios usuários entendessem de uma vez por todas que quem deve escolher o que eles ouvem são eles próprios e não o Spotify e seus inúmeros donos de playlists.