O homem que descobriu Leandro & Leonardo

Antes de contar esta história, eu gostaria de deixar uma pergunta para vocês: Existem descobridores de talento na música sertaneja hoje em dia ou apenas empresários endinheirados que fazem qualquer coisa virar sucesso?

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A vida de Romildo Pereira daria um livro, ou até mesmo um filme. Mineiro de Araguari, veio para São Paulo na década de 1970, trazendo na mala apenas o sonho de um dia se tornar um homem de sucesso. Não demorou muito e a obstinação do jovem o colocou dentro da “fábrica de sonhos” do Brasil na época, a TV Tupi. Contratado como cobrador de um ônibus que passava em frente ao estúdio da TV, Romildo fez, aos poucos, amizade com funcionários da emissora paulista. Com um pouco de carisma e persuasão, logo já trabalhava como cabo-man e pouco depois chegaria a produtor executivo da emissora. Na  Tupi, trabalhou e dirigiu Flávio Cavalcanti, Moacyr Franco e Raul Gil. Em 1983 o mineiro se desliga da emissora e cria uma empresa de produção e venda de shows, tendo em seu casting artistas como João Viola, Christian & Ralf, Alan & Aladim entre outros.

Com Leandro & Leonardo, a história de Romildo começava naquele mesmo ano, durante uma feira agropecuária em Barra do Garça, no Mato Grosso. Depois de ver os irmãos cantando em uma pequena barraca no pátio da exposição, convidou-os a ir até São Paulo, que ali poderia ajudá-los. Ainda naquela mesma feira, conheceria a dupla Zazá & Zezé, que cantava no palco principal. Um mês depois, Leandro & Leonardo desembarcavam na capital paulista, após uma longa viagem na carona de um médico amigo. Ao ser procurado pelo grupo, Romildo convenceu o médico a bancar um “tape” (fita K7 demonstrativa) para os irmãos, sob a promessa de colocá-los em uma gravadora.

Com o aceite do médico, surgiu um dilema: como produzir uma dupla se o jovem empresário nunca tinha produzido nada? Caminhando um dia pela rua, ouviu a música “Sala de Cirúrgia” de Amado Batista tocando em uma loja de discos e pensou: “Esse cara vende milhões, se eu conseguisse fazer algo parecido, certamente seria um sucesso”. Convidou então o maestro que fazia arranjos para Amado Batista e gravaram a fita, mas o resultado foi decepcionante:“O tape foi muito criticado por produtores, empresários e cantores da música sertaneja da época, por ter criado um estilo de música meio estranho, não era nem caipira e nem popular, era um meio-termo. Por esse motivo, nenhuma gravadora de renome estava disposta a lançar a nova dupla Leandro e Leonardo”, afirma Romildo.

A oportunidade veio mesmo quando surgiu uma nova gravadora no mercado, a 3M do Brasil. Romildo procurou então seu presidente, Moacir Machado, que logo de cara se encantou com a dupla. Com o contrato assinado, em 1986 lançaram o disco “Contradições”, primeiro sucesso de Leandro & Leonardo, com vendagem aproximada de 38.000 cópias. A música que dava nome ao disco, vinha assinada por ninguém menos que César Augusto e Martinha. Tempos depois, devido a desentendimentos com a área de divulgação da gravadora, Romildo afastou-se da dupla. Após alguns anos, em 1989 e já na gravadora Chantecler, Leandro & Leonardo gravam o terceiro disco da carreira e daí surge o estrondoso sucesso “Entre Tapas e Beijos”, com vendagem superior a 1,8 milhões de cópias que dominou o Brasil.

Romildo ainda foi o descobridor de outras duplas famosas que são sucesso até hoje, mas isso é assunto para a próxima postagem,  que você confere  na semana que vem. O tempo e a história mostram que não é apenas de dinheiro que vive a música, e sim de muito talento, grande obstinação e influência. Romildo não tinha dinheiro, mas tinha o faro para o sucesso e, apesar de não ser tão conhecido quanto outros nomes, teve significativa participação no desenrolar dos fatos da recente música sertaneja. Para ouvir o primeiro disco de Leandro & Leonardo, tão criticado na época e produzido por ele, é só clicar AQUI.

Continua…