O não-sertanejo mais sertanejo de todos os tempos

O não-sertanejo mais sertanejo de todos os tempos

Por mais absurdo que pareça, ainda há quem desconheça a importância gigantesca do Moacyr Franco para a música sertaneja. Para muitos, ele é só aquele cara que interpreta (ou interpretava, nem sei se ainda o faz) o Jeca Gay de “A praça é nossa” e que vez ou outra se mete a apresentar algum programa de TV ou atuar em alguma novela do SBT ou em algum filme dirigido pelo Selton Mello. A importância deste profissional pluritalentoso para a música sertaneja e sua contribuição como compositor para o segmento são o tema desta singela homenagem.

Quase nenhum artista pode se vangloriar de ser, ao mesmo tempo, cantor, apresentador de TV, ator, compositor, humorista, autor e, de quebra, político. Nascido em Ituiutaba, Moacyr Franco fez carreira como cantor romântico de sucesso no início da década de 70, mas após um acidente automobilístico no auge da carreira, acabou não conseguindo recuperar a mesma popularidade qua havia conquistado como intérprete. Nas décadas seguintes, além de alavancar uma carreira respeitada na TV, emplacou dezenas de hits como compositor nos mais variados segmentos.

Na música sertaneja, sua maior contribuição, sem dúvida, foi com alguns dos maiores hits da carreira da dupla João Mineiro & Marciano, que na década de 80 “disputava” com Chitãozinho & Xororó o posto de principal dupla do segmento sertanejo. Entre as pérolas compostas pelo Moacyr Franco e lançadas pela dupla João Mineiro & Marciano estão “Ainda ontem chorei de saudade”, “Seu amor ainda é tudo” e “Se eu não puder te esquecer”, que entraram para a seleta lista de grandes clássicos sertanejos de todos os tempos.

Fora as grandes canções da dupla João Mineiro & Marciano, Moacyr Franco também foi responsável pelo maior sucesso da carreira da cantora Nalva Aguiar, que por anos reinou absoluta entre as mulheres na música sertaneja. “Dia de Formatura” relata a emocionante história de uma mãe que, pressionada pelo marido a dar fim a uma gravidez inesperada, decidiu levá-la adiante e criou o filho sozinha para vê-lo se formar.

Com a saudosa dupla João Paulo & Daniel, emplacou a incrível moda de viola “Dia de Visita”, já numa época em que esse estilo específico de música não conseguia muito espaço. Quem chegava a se arriscar em gravar alguma moda de viola solada como essa, preferia gravar algo já conhecido, fazer uma releitura ou algo assim. João Paulo & Daniel gravaram uma inédita do Moacyr Franco, que aliás rendeu uma continuação no disco seguinte, desta vez composta pela própria dupla.

Aliás, não foi a única vez que o Moacyr Franco se arriscou a compor uma moda de viola. A música “Amigos Verdadeiros”, cantada no vídeo abaixo pela dupla Palmeira & Biguá, é mais uma composição dele que valoriza bastante a viola.

Com a dupla Peão Carreiro & Zé Paulo, emplacou a doída canção “Pergunte a Ela”, que foi regravada recentemente por João Carreiro & Capataz.

A dupla Bruno & Marrone também tem uma canção bastante conhecida do Moacyr Franco em seu repertório. Aliás, ele chegou a gravar uma participação especial na música. Trata-se de “Goiás é Mais”, que acabou praticamente se tornando um hino paralelo do estado de Goiás.

Com a dupla Cezar & Paulinho, ele chegou a gravar uma pitoresca canção (“Verdades de Pescador”) que exaltava os grandes causos de pescador e ainda gravou uma participação, falando durante a música vários dos bordões de seu personagem Jeca Gay.

Uma de suas mais belas composições, “O Milagre da Flecha”, foi gravada pela dupla João Mineiro & Marciano e anos mais tarde por Milionário & José Rico e até pela dupla Zezé di Camargo & Luciano, versão esta que foi incluída no vol. 3 da série “Direito de Viver”.

O interessante e incrível nas composições do Moacyr Franco é a grande preocupação que ele sempre demonstrou com a qualidade das letras. Não se observa, nem mesmo nas mais comerciais dele, a existência de letras fáceis, de versos cheios de clichês. São sempre letras complexas, inteligentes. A maioria das músicas, inclusive, conta alguma história profunda e que sempre pede uma grande reflexão. Quando não o fazem, são geralmente declarações de amor das mais profundas.

Apesar de ter se consagrado como cantor romântico e não do segmento sertanejo, e apesar de ser muito mais conhecido como ator, humorista e apresentador de TV, é fascinante a sua contribuição para a música sertaneja. Maior inclusive do que a de muitos que dedicaram a vida inteira ao segmento. Sempre priorizou a qualidade ao invés da obviedade, o que faz de suas músicas únicas e incríveis.

Curiosamente, até a Rita Lee, inimiga declarada do segmento sertanejo e de tudo o que ele representa, já gravou uma música do Moacyr Franco. Quem diria que “Tudo Vira Bosta” saiu da mesma cabeça que compôs “Seu amor ainda é tudo”. Para encerrar com chave de ouro, então, fiquem com o vídeo da nossa amiga Rita Lee, que provavelmente nem sabe o quanto o Moacyr Franco contribuiu para o crescimento do segmento que ela tanto abomina. Creio que se soubesse, não se atreveria a gravar uma música do mestre, mas enfim…