O pão-durismo obrigatório das recentes produções sertanejas

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Não sei se vocês já repararam, mas na recente história da música sertaneja muitos artistas estão evitando mega-produções e se aventurando em produções com atmosferas intimistas, repertórios curtos, enfim, tudo num grau bem menor que outrora. O que muitas vezes é encarado como novidade pode ser na verdade o reflexo das sérias dificuldades que envolvem a realização de um trabalho de proporções grandiosas.

Certa vez alguém (não me lembro quem) deixou um comentário muito pertinente a esse assunto aqui no Blognejo. O “comentarista” disse na ocasião que a onda do acústico nas produções sertanejas se devia muito mais ao corte nos custos de produção dos discos do que na vontade de se mostrar o sertanejo de uma forma diferente. Faz todo sentido essa afirmação, afinal gravar apenas violão, baixo, acordeon, bateria e percussão num disco sai muito mais barato que gravar tudo o que se costumava gravar até pouco mais de 10 anos atrás.

Pensando dessa forma, pode-se dizer também que a onda dominante do “ao vivo” seguiu essa tendência. Ora, na teoria sai bem mais barato juntar a banda, criar uns arranjos legais, ensaiar durante um bom tempo, fazer um show e gravar as músicas e o povão gritando, podendo recuperar boa parte dos custos de produção com a venda dos ingressos. Claro que na teoria, porque quando as produções “ao vivo” envolvem o nome de um produtor de sucesso, os preços ficam incrivelmente inflacionados. Até hoje, na verdade, é difícil saber o que sai mais barato, se “ao vivo” ou “em estúdio”, por todos os detalhes escusos que envolvem tanto um quanto o outro método de produção.

O fato é que o público gostou do novo formato da música sertaneja, seja ele fruto apenas do corte nos custos de produção ou não. O acústico e ao vivo se tornou praticamente uma regra. Ou era um, ou outro, ou os dois. Não dava pra ser diferente. Poucos foram os que se arriscaram com discos comuns de estúdio e se deram bem. Em contrapartida, o DVD se popularizou de forma gigantesca na última década. Ou seja, a economia na produção do áudio acabou sendo anulada pelo alto custo de produção do vídeo.

Com o segmento sempre em alta, e o ” acústico” e “ao vivo” dominando o mercado, os artistas aproveitaram para lançar DVDs grandiosos, com mega-produções envolvidas. Na lista, podemos incluir “Bruno & Marrone – Ao Vivo em Goiânia”, “Victor & Leo – Ao Vivo em Uberlândia”, “César Menotti & Fabiano – Voz do Coração”, “Edson & Hudson – Ao Vivo na Arena”, e por aí vai. Mas passada a fase de euforia, ou de disputa velada entre artistas para mostrar quem podia mais, ou de gasto excessivo de dinheiro com resultado nem sempre positivo (afinal todo mundo sabe como é a venda de discos hoje em dia), alguma coisa parece estar freando as expectativas.

Nos últimos dois anos, parece que tudo diminuiu de tamanho ou quantidade. Poucos artistas se arriscaram a gravar recentemente discos em grandes festas, ou para grandes públicos. Bruno & Marrone saíram do “Ao Vivo em Goiânia” para um “Acústico 2” gravado com a presença apenas de imprensa e amigos e depois um “De Volta aos Bares” apenas para fãs (não sei ao certo se foi na verdade o primeiro para fãs e o segundo para a imprensa, mas enfim…). Edson & Hudson saíram de um DVD gravado com a presença de 60 mil pessoas numa das maiores festas de peão do Brasil para um DVD gravado num estúdio, sem público.

Em alguns casos, por exemplo, o que se observa é a substituição dos DVDs pelos CDs, ou alternância de trabalhos, coisa que até pouco tempo parecia que ia ser abandonada. Bruno & Marrone, Edson & Hudson, Jorge & Mateus e outros, por exemplo, lançaram 2 ou mais DVDs seguidos e não demonstravam a intenção de lançar apenas CDs. Hoje em dia, no entanto, o esquema mudou um pouco. César Menotti & Fabiano saíram de um DVD de grande porte para um CD gravado num estúdio com cerca de 40 fãs. Fernando & Sorocaba saíram de um DVD grandioso para um CD e por último gravaram um trabalho em vídeo também com poucos fãs, sendo que este DVD periga nem ser lançado por conta de uma indefinição quanto à gravadora, tendo restado por enquanto apenas o lançamento do CD com o registro do áudio da gravação. Jorge & Mateus vêm com um CD em breve (sem DVD). Maria Cecília & Rodolfo também vieram com um CD (sem DVD). Isso para citar alguns exemplos.

Olha que eu nem citei os veteranos e os conservadores. Dentre esses, que eu bem me lembre só o Daniel está lançando um DVD. Leonardo está trabalhando um DVD gravado já há algum tempo, então é pouco provável que lance um DVD em seguida. Zezé di Camargo & Luciano lançaram um CD. Duplo, mas ainda assim um CD. Chystian & Ralf, CD. Gian & Giovani, CD. Eduardo Costa (no rol dos conservadores e não dos veteranos), CD. Chitãozinho & Xororó, CD.

Outra coisa estranha nos recentes trabalhos é o curto número de músicas gravadas. O CD “Tô de cara”, do Luan Santana, trazia 11 canções apenas. O mais recente da dupla Maria Cecília & Rodolfo apenas 12. No mais, o número de faixas oscila entre 12 e 15, poucas vezes superando esse número. Se eu bem me lembro, até bem pouco tempo era comum o lançamento de discos com 19, 20 faixas.

Na contra-mão dessa tendência minimalista, o artista de maior sucesso no segmento sertanejo na atualidade trabalha um DVD de grande porte gravado com a presença de 85 mil pessoas. Uma das duplas de maior destaque no ano de 2009, João Bosco & Vinícius, acabaram de lançar um DVD também grandioso. Mas a diferença desses para aqueles citados anteriormente é que tanto Luan Santana quanto João Bosco & Vinícius vêm de um recente trabalho com CDs de repertório curto e não com DVDs. Ou seja, estão também trabalhando com a alternância citada mais acima.

Todo mundo sabe que a vaidade na música sertaneja é a gasolina que alimenta o motor do segmento no caso das grandes produções. Um artista querendo se mostrar mais poderoso que o outro, mais capaz que o outro de gravar discos de grande porte, e por aí vai. Mas parece que a crise no mercado fonográfico está mesmo mais séria do que se pensava, por mais que muita gente queira tapar o sol com a peneira.

Os artistas estão aparentemente aprendendo a controlar o gasto desenfreado com as produções. Daí o pão-durismo. Tudo bem que o gasto desenfreado passou para a divulgação dos trabalhos, mas enfim, deu para entender o ponto chave da questão. O fato é que alguns estão tendo que se acostumar com coisas que não queriam. Algumas pessoas dizem que às vezes “menos” é “mais”. Acontece que no segmento sertanejo o “mais” está bem próximo de não ser mais uma opção viável.