O rock nacional morreu e teve show sertanejo no enterro

O sertanejo substituiu o rock como a música consumida pela juventude brasileira. Se esta frase fosse escrita no começo dos anos 90, seria considerada ficção escatológica, mas na atualidade, trata-se do mais puro realismo. Não é a primeira vez que afirmo isso, a quase dois anos que bato nessa tecla e meu discurso continua solitário. A crítica cultural se recusa admitir isso devido a um fenômeno que os psicólogos chamam de dissonância cognitiva, ela encara como algo tão absurdo e incompreensível que seu raciocínio fica paralisado. Como isso pode acontecer? É o que esse post se propõe a analisar.

Como todas os grandes eventos históricos, os catalizadores não foram muitos, mas o contexto foi complexo. A crise da indústria fonográfica, a esquerda no poder, o entusiasmo com que o povo brasileiro recebeu o advento das redes sociais e maneira como artistas do rock e do sertanejo lidaram com esses fatores foi decisiva para essa mudança no vetor da música jovem de hoje. Dois nomes e duas músicas foram decisivos no processo. Los Hermanos e Bruno & Marrone. “Ana Júlia” e “Dormi na praça”.

“Ana Júlia” foi o primeiro e último megahit do rock no século XXI, ao passo que “Dormi na Praça” foi o primeiro de dezenas, por parte do sertanejo. A diferença foi a atitude dos seus respectivos autores diante deles e do que essa atitude representou para a geração criadora subsequente.

“Dormi na praça” foi lançada em um albúm acústico voz e violão que representou uma quebra de paradigmas para a música seraneja. Nos anos 90 as gravações e os shows eram pomposos, com cordas, metais, cenários caríssimos, o que dificultava o surgimento de novos talentos no mercado. O Acústico de Bruno & Marrone e todo sucesso que ele fez inaugurava um novo mundo de possibilidades para novas duplas. Ao invés de aproveitar o lucro do Acústico e investir em pompa em seu próximo lançamento, Bruno & Marrone investiram em um CD e DVD Acústico Ao Vivo, celebrando o formato e cimentando a tendência.

“Ana Júlia” por sua vez, gerou uma reação inversa. Obcecados pelo terror de entrarem para a história como mais uma das conhecidas bandas de um só sucesso, optaram por não tentar repetir o sucesso e tomaram um caminho inverso. Recolheram-se em um sítio em conceberam o disco ‘Bloco do Eu Sozinho’, aclamado pela crítica e estrado pelo público. Recusaram-se a tocar “Ana Júlia” nos shows e a aparecer em programas de televisão. Mais uma vez essa atitude foi aplaudida pela crítica com efeitos nefastos para a geração seguinte. As melhores mentes criativas do rock foram influenciadas por essa postura.

Paralelamente a isso, Luis Inácio Lula da Silva e o PT venceram as eleições e deram início a uma série de programas sociais que tiveram efeitos contrários, tanto no rock, quanto no sertanejo. Diante da estabilização da economia e a consequente ascenção social das classes sociais, somada ao barateamento da estrutura de shows proporcionado pelo êxito do formato acústico, os artistas sertanejos colocaram o pé da estrada em longas turnês pelos rincões interioranos do país, esnobando o antigo esquema de se lançarem via contrato com gravadoras. Foi só o Prouni abrir as portas das universidades para milhões de estudantes do interior nos grandes centros urbanos que sugiu – o nome não é mera coicidência – o sertanejo universitário.

Com o rock o momento histórico não foi tão feliz. Durante os anos 90 cristalizou-se em todo o país uma série de festivais independentes que serviam como vitrines para que bandas e cantores fossem contratados pelas gravadoras. Na virada do século foi criada a Abrafin – Associação Brasileira dos Festivais Independentes, que devido a sua nobre causa, não tardou a ser financiada por verba estatal. Também não tardou a trocar a visão mercadológica capitalista de ser vitrine para gravadoras pela visão socialista de virar as costas para o mercado. A semente plantada por Marcelo Camelo germinou, cresceu a começou a gerar frutos.

A aversão romântica pelo pop sempre uma constante no mundo do rock n’ roll e até funcionava em um mundo onde as gravadoras faziam o trabalho sujo de capitalizar a música. Mas nos novos tempos em que esse trabalho sujo deve ser feito pelos artistas ou suas associações, no caso aqui a Abrafin, essa atitude é suicida. A morte do mainstream pode ser eminente, só que o rock nacional agendou velório e enterro antes que o defundo batesse as botas.

O uso das redes sociais também foi determinante para que a balança pendesse para o lado da música sertaneja. Enquanto os sertanejos, cada mais preocupados com os aspectos comerciais de sua música aproveitaram as novas oportunidades para divulgarem shows, músicas, organizar redes de fãs clubes, os roqueiros se centraram em vagos conceitos vanguardistas de redes colaborativas e muita procrastinação retórica que deu com os burros n’água no pragmático mundo real.

E a realidade é a seguinte, o rock nacional ficou chato, é consumido por pessoas chatas e a grande maioria dos shows são um porre, com uma platéia ensimesmada que se considera o último biscoito do pacote, o que provavelmente é verdade, mas pelas razões contrárias do que ela pensa. O biscoito é tão insonso que as fábricas estão fechando por falta de demanda. Enquanto isso, os shows sertanejos estão cada vez mais divertidos, frequentados por pessoas divertidas e a música está tão agitada que em shows de João Carreito & Capataz, para nos atermos apenas a um único exemplo, já foram vistas rodas de pogo – aquela “dança punk” em que a galera fica se socando e se chutando.